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A rede de hospitais que concentra as mortes por covid-19 em SP

O ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, criticou empresa que atende público idoso. Prevent Senior diz que não houve contágio interno

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    O ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, afirmou em entrevista na terça-feira (31) que o hospital Sancta Maggiore, em São Paulo, representa um ponto “extremamente grave” e “fora da curva” por ter registrado 79 mortes pelo novo coronavírus de um total de 136 observadas em todo o estado até aquela data.

    Segundo ele, o governo estudava uma intervenção no local, para criar uma “barreira” epidemiológica. O hospital é administrado pela operadora de saúde Prevent Senior, que diz seguir os protocolos de atendimento da OMS (Organização Mundial de Saúde). A empresa negou que as infecções tenham acontecido dentro do hospital.

    As mortes nos estabelecimentos da rede privada representavam na terça-feira (31) 58% de todos os registros de óbito causados pela covid-19, doença causada pelo novo coronavírus, no estado de São Paulo. O número era o equivalente a dois quintos de todas as 201 mortes registradas até então pelo Ministério da Saúde em todo o Brasil.

    Na quarta-feira (1º), o Brasil já tinha 240 mortes e 6.836 casos confirmados, de acordo com a pasta. Na mesma data, segundo a Prevent Senior, os hospitais da rede estavam com 272 pacientes internados com sintomas graves de coronavírus. Desse número, 95 receberam o diagnóstico positivo, e o restante esperava o resultado de exames.

    O que é a Prevent Senior

    A operadora de saúde foi criada no fim dos anos 1990 pelos irmãos Eduardo, que é médico geriatra, e Fernando Parrillo. O objetivo da empresa era oferecer apenas planos individuais para pessoas mais velhas.

    Em 1997, foi inaugurado o hospital Sancta Maggiore, que deu origem a uma rede que possui, atualmente, oito hospitais espalhados pela capital e Grande São Paulo, além de quatro unidades de pronto-atendimento.

    Em 2018, o faturamento da empresa foi de R$ 3,5 bilhões, e a Prevent Senior foi o sétimo maior plano de saúde do Brasil. Segundo especialistas do setor, o investimento que o grupo faz em promoção à saúde e prevenção para evitar internações (que são caras para as operadoras) ajuda a explicar o sucesso da empresa.

    O plano possuía, em 2020, 456 mil beneficiários, a maioria deles (346 mil) com 61 anos ou mais.

    R$ 800

    é a média das mensalidades da operadora

    Em 16 de março, um porteiro de 62 anos atendido pela Prevent Senior foi o primeiro paciente morto em decorrência do novo coronavírus no Brasil.

    As críticas de Mandetta

    O ministro da Saúde fez críticas à Prevent Senior devido ao número de mortes por coronavírus registrado em seus hospitais.

    “[O Sancta Maggiore] é um fenômeno porque um determinado empresário entendeu que deveria fazer um plano de saúde só para pessoas idosas. Como os idosos compram muito plano de saúde, ele pôs um preço mais baixo, fez uma carteira de plano de saúde muito idosa. E o hospital dele é inteirinho de idosos convalescentes. Entrou o coronavírus dentro de um hospital só de idosos e você tem hoje, ali dentro, um ponto fora da curva”, afirmou o ministro.

    Segundo Mandetta, o hospital não conseguiu impedir a transmissão interna do novo vírus, o que resultou nas mortes. Para ele, a ANS (Agência Nacional de Saúde), que regula as operadoras de saúde no país, não deveria ter permitido a venda de planos apenas para idosos, por causa dos riscos em situações como essa.

    Idosos são o principal grupo de risco do novo coronavírus. Segundo o Ministério da Saúde, apenas 20 dos 201 mortos no Brasil até terça-feira (31) eram pacientes abaixo dos 60 anos. Isso significa que 90% das mortes pela covid-19 no país são de idosos com mais de 60 anos.

    O ministro, que é médico, já presidiu a Unimed entre 2001 e 2004, em Campo Grande (MS). Em 2014, teve sua campanha para deputado federal pelo DEM financiada pelo plano de saúde Amil, segundo dados da Justiça eleitoral.

    Para Mandetta, o Sancta Maggiore concentrou pessoas dentro de um mesmo ambiente, o que facilita a transmissão da doença. Sem que se conseguisse manter um controle do vírus, ele se espalhou dentro de um ambiente de risco. O hospital nega e diz que recebeu os pacientes já infectados.

    A cronologia

    A primeira morte no hospital Sancta Maggiore por coronavírus, considerada também a primeira do país, ocorreu em 16 de março. Em 20 de março, já com cinco mortes confirmadas na rede, a Vigilância Epidemiológica da Prefeitura de São Paulo afirmou ter realizado uma inspeção no hospital e constatado casos suspeitos de covid-19 não notificados. O hospital afirmou que a informação não procedia e que seus procedimentos eram referência no país. As supostas omissões passaram a ser investigadas pelo Ministério Público.

    Em 23 de março, a ANS (Agência Nacional de Saúde) esteve na sede da Prevent Senior e afirmou não ter encontrado “irregularidades na operação do plano de saúde”. O órgão ressaltou que não regula ou fiscaliza hospitais privados, mas apenas planos.

    Em 27 de março, a Secretaria Municipal de Saúde de São Paulo pediu intervenção de três hospitais da rede Sancta Maggiore, já que a fiscalização teria encontrado também problemas estruturais e sanitários. O hospital afirmou que a prefeitura tentava “faturar com a desgraça” e usava expedientes “desonestos, abusivos e inverídicos” para “causar pânico”. Também negou problemas estruturais e disse ter um laudo da Vigilância Sanitária Estadual atestando as condições dos hospitais.

    Na quarta-feira (1º), o governo de São Paulo descartou remover os pacientes dos hospitais da rede. Equipes das secretarias estadual e municipal de Saúde visitaram a rede para “ajudar e ajustar” os hospitais. “Nossa interferência é no sentido de dar melhores condições para o hospital trabalhar”, afirmou o secretário estadual da Saúde de São Paulo, José Henrique Germann.

    O que diz a Prevent Senior

    A empresa tem respondido às críticas por meio de suas redes sociais. Ela diz ter informado todos os casos suspeitos e confirmados, além das mortes, à Secretaria de Estado da Saúde. Diz também que passou por fiscalização de rotina “sem que qualquer irregularidade fosse apontada”.

    “A Prevent está à disposição das autoridades que agem seriamente para prestar qualquer esclarecimento necessário”, diz uma das publicações da operadora em sua conta no Twitter.

    Na quarta-feira (1º), o CEO da empresa, Fernando Parrillo, divulgou um vídeo afirmando que os questionamentos serão positivos porque toda a verdade sobre o trabalho da Prevent Senior vai aparecer. Ele pediu para que os jornalistas entrem no hospital para averiguar a situação e para que a opinião pública possa avaliar se está sendo feito um bom trabalho.

    Parrillo disse ainda que a operadora vem sofrendo ataques desde o início do coronavírus e que irá continuar tratando seus pacientes “como sempre tratamos”. “Nós temos os laudos da prefeitura [mostrando] que não houve absolutamente nenhuma indicação de algo errado”, disse.

    Ao jornal O Estado de S. Paulo, ele afirmou que a rede segue as orientações da OMS e fez o isolamento dos pacientes que tinham a doença. Também negou que o número de mortos seja alto. “A nossa taxa de mortalidade para os casos críticos está abaixo da média observada em outros países, que é de 15%. A nossa é de 12%”, disse.

    Ao jornal O Globo, ele chamou Mandetta de irresponsável por falar sobre a Prevent Senior sem ter informações sobre a rede e por não conhecer seus números.

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