Por que a pandemia evoca uma economia de guerra

Conceito remete a tempos extraordinários e ao aumento no protagonismo econômico dos governos. Em 2020, países ao redor do mundo estão aumentando gastos públicos

A pandemia do novo coronavírus com frequência tem sido descrita com o léxico bélico. Líderes mundiais dos Estados Unidos, França e Alemanha têm usado a palavra “guerra” para mobilizar o combate contra a covid-19, doença causada pelo vírus. No Brasil, o presidente da Câmara Rodrigo Maia (DEM-RJ) falou em “orçamento de guerra” para classificar os gastos voltados ao combate à pandemia.

Na economia, tempos de guerra costumam exigir esforços extraordinários da população e do governo. Abaixo, o Nexo explica o que é “economia de guerra” e mostra quais paralelos podem ser feitos entre a crise de saúde pública de 2020 e momentos históricos de confrontos bélicos.

O que é economia de guerra

O economista Kenneth Rogoff, professor da Universidade de Harvard ouvido pela Folha de S.Paulo em entrevista publicada em 25 de março, afirmou que a pandemia do novo coronavírus exige de países o que chamou de uma economia de guerra. Para Rogoff, o momento demanda gastos do governo em escala elevada, sempre tendo em mente o enfrentamento do vírus. A situação também pode levar à conversão de instalações e indústrias em hospitais e fábricas de materiais médico-hospitalares.

Em uma economia de guerra, o protagonista é o governo. O esforço “bélico” exige um aumento considerável dos gastos e a maior centralização das diretrizes econômicas no poder público.

Após os ataques de 11 de setembro de 2001, o economista James Kenneth Galbraith – filho do renomado economista John Kenneth Galbraith – publicou um artigo na revista de publicação acadêmica Challenge em que definia o conceito de economia de guerra. Segundo ele, a economia de guerra é um momento em que o governo deve gastar sem ressalvas para estabilizar a economia. O autor também faz questão de diferenciar essa estabilização de um estímulo – a estabilização exige um esforço mais duradouro e profundo vindo do poder público.

“Em uma economia de guerra, a obrigação pública é fazer o que for necessário: para apoiar o esforço militar, para proteger e defender o território nacional, e especialmente para manter o bem-estar físico, a solidariedade e a moral da população”

James Kenneth Galbraith

economista, em artigo publicado em 2001

O artigo de Galbraith trazia uma visão pessimista sobre o que viria após os ataques de 11 de setembro, com uma projeção que se assemelha ao quadro que se desenha em 2020: queda forte no consumo e impacto significativo em setores ligados a viagens, como companhias aéreas e hotelaria. A previsão era de que uma recessão massiva ocorreria nos EUA se o governo americano não gastasse substancialmente, e o desemprego e a inflação ficariam em níveis muito elevados. De fato, o país teve em 2001 uma recessão, mas sua duração e escala foram menores do que o previsto.

Outra forma de enxergar a economia de guerra vem do economista Peter Howlett, professor da London School of Economics. Ao estudar os movimentos econômicos feitos durante a Segunda Guerra Mundial, Howlett mostrou como a economia de guerra tem como característica a centralização do planejamento econômico no governo, para canalizar toda a mobilização no objetivo bélico.

Isso significa que, além de gastar, o governo deve planejar e agir rapidamente. Um dos motivos pelos quais o poder público deve assumir as rédeas é evitar uma espera pelos ajustes do mercado. Se o momento urge e a demanda por mais armas, por exemplo, é imediata, o governo organiza e ordena a produção de armas, ao invés de esperar o mercado construir um arranjo para isso em seu próprio tempo.

O cenário em 2020

Em 2020, diante da pandemia do novo coronavírus, governos ao redor do mundo vêm se mobilizando de forma extraordinária para combater os efeitos da covid-19 sobre os sistemas de saúde e a economia, com medidas extraordinárias comparáveis às tomadas em momentos de guerra.

Nos EUA, o Congresso aprovou um pacote trilionário com esse fim – o maior da história do país. A medida prevê o repasse de cerca de US$ 150 bilhões (R$ 779,7 bilhões em 31 de março) para o sistema de saúde e a criação de um fundo de US$ 500 bilhões (R$ 2,6 trilhões em 31 de março) para socorro a grandes empresas.

US$ 2 trilhões

é o tamanho do pacote de estímulos acordado no Congresso americano para enfrentar a crise do coronavírus. Pela cotação do dólar de 31 de março de 2020, esse valor equivale e R$ 10,39 trilhões.

No Reino Unido, o governo anunciou um pacote de £ 350 bilhões para socorro das empresas. Em moeda brasileira, esse valor equivale a R$ 2,26 trilhões pela cotação de 31 de março. Além disso, o governo também instaurou uma política emergencial de renda com foco nos trabalhadores autônomos, que deve atingir cerca de 3,8 milhões de pessoas.

Canadá, Austrália e Alemanha são outros exemplos de governos que abriram os cofres para tornar o poder público protagonista da economia. No caso alemão, o pacote de estímulo aprovado foi de € 750 bilhões – ou R$ 4,93 trilhões, pela cotação de 31 de março.

A reconversão industrial

Entre as medidas extraordinárias que os governo têm tomado em 2020 está a tentativa de aumentar o poder de fogo contra o novo coronavírus. Além do aumento de repasses para sistemas de saúde e hospitais, alguns países estão tentando aumentar a produção de equipamentos médico-hospitalares, acordando – ou exigindo – que indústrias produzam outros bens que não aqueles para as quais foram originalmente destinadas. Esse processo, ligado a tempos de exceção, é chamado de reconversão industrial ou reconversão produtiva.

O governo do Reino Unido, por exemplo, pediu ajuda a montadoras para produzirem respiradores, deixando temporariamente os carros de lado. Os respiradores são equipamentos que ajudam pacientes com problemas respiratórios, e são centrais na luta contra a covid-19. Diante da perspectiva de falta de respiradores no sistema de saúde local, o premiê britânico, Boris Johnson, recorreu a empresas como Jaguar Land Rover e Rolls Royce para mudar o foco da produção industrial.

Nos EUA, o presidente Donald Trump evocou uma lei de 1950 – não à toa, época em que os EUA participavam da guerra da Coreia – para obrigar montadoras a se dedicarem à fabricação dos equipamentos. A decisão tinha como alvo principal a General Motors, tradicional montadora americana, mas também será adotada por empresas como Ford e Toyota.

A mobilização para esforços extraordinários durante a crise de 2020 explicita uma das principais diferenças entre uma pandemia e uma guerra. Se em uma guerra os governos buscam usar todas as mãos disponíveis para ajudar na produção de comida, roupas, armas e munições, o cenário pandêmico é um onde a orientação geral é de ficar em casa. Há uma mistura sem precedentes entre mobilização e desmobilização da força de trabalho no combate ao novo coronavírus, onde quem trabalha com serviços essenciais sustenta boa parte da atividade econômica.

A reconversão industrial no Brasil

No Brasil, a ideia de adotar a reconversão industrial durante o período de crise pandêmica ainda é incipiente. A economista Monica de Bolle, professora da Universidade Johns Hopkins, tem defendido esforços para que as fábricas brasileiras foquem na produção de materiais médicos, que serão necessários no combate à covid-19.

Um estudo de economistas da Universidade Federal de Minas Gerais simulou os efeitos de um aumento de 10% na produção de bens essenciais na área de saúde. A pesquisa concluiu que, além de salvar vidas, os esforços de reconversão produtiva também ajudariam a reduzir os efeitos negativos da pandemia sobre a economia, gerando empregos e aquecendo a atividade econômica. Os autores apontam, entretanto, que essas medidas requerem ações coordenadas e estratégicas por parte do governo brasileiro.

Apesar do governo não ter agido em março para redirecionar os esforços da indústria, há empresas que agem por conta própria. A Ambev, por exemplo, gigante do mercado de cervejas, anunciou a produção de álcool em gel para doação em hospitais. O álcool terá origem no processo de produção das bebidas alcoólicas. Outro exemplo vem do grupo Boticário, que aumentou a produção de bens como álcool em gel e sabonetes para serem doados à população.

O Senai (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial) também fez parceria com algumas empresas privadas – principalmente nos setores de automóveis e mineração – para fazer a manutenção de respiradores no Brasil. A Embraer, empresa brasileira que fabrica aeronaves, também tem mobilizado seus esforços e sua cadeia de fornecedores para fabricar peças usadas nos respiradores.

Como foi durante a Segunda Guerra Mundial

As comparações diretas com guerras e conflitos armados não são completamente transponíveis à pandemia de 2020. O “inimigo” não é humano e as linhas de combate são formadas por milhares de profissionais da saúde, e não soldados armados. Feita essa ressalva, é possível encontrar em outros períodos esforços similares aos que estão sendo feitos em meio à pandemia de covid-19.

A expressão “economia de guerra” é associada na literatura ao período da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), comparação que tem sido amplamente evocada por líderes mundiais ao falar da pandemia. Segundo o sistema Google Books Ngram Viewer, que se utiliza de uma base dados com milhares de livros publicados, a expressão “wartime economy” nunca foi tão usada quanto na primeira metade dos anos 1940 em publicações em inglês.

Os números mostram que, naquele momento, os governos assumiram de fato o protagonismo nas economias, agindo dentro das definições de economia de guerra.

Os EUA nos anos 1940

Nos EUA, por exemplo, o déficit do governo foi, de longe o mais alto da história no período da Segunda Guerra. Isso significa que a diferença entre o que o governo gastou e o que arrecadou foi grande naquele momento.

DÉFICIT RECORDE NOS ANOS 1940

Resultado fiscal do governo dos EUA. Maiores deficits disparados na primeira metade da década de 1940

Em 1943, o déficit esteve pouco acima de um quarto do PIB (Produto Interno Bruto). Ou seja, a diferença entre o que o governo gastou e arrecadou representou um quarto de tudo aquilo que o país produziu naquele ano. Essa diferença foi bancada principalmente com aumento da dívida pública, que também atingiu seus níveis mais altos nos EUA durante a Segunda Guerra Mundial.

DÍVIDA ELEVADA

Evolução da relação dívida bruta PIB nos EUA. Nível mais alto nos anos 1940

É comum que se examine a relação dívida/PIB ao se avaliar o tamanho da dívida. Essa relação compara a magnitude de tudo o que o país deve e quanto consegue produzir de riqueza por ano.

O caso britânico

Durante a Segunda Guerra Mundial, o Reino Unido também aumentou substancialmente a participação do governo na economia. O historiador econômico Peter Howlett reuniu em seu artigo “The war-time economy, 1939-1945” (“A economia dos tempos de guerra, 1939-1945”, em português) dados sobre os gastos totais da economia britânica no período da guerra.

Os números mostram que o governo foi responsável por mais de 60% de todos os gastos feitos entre os anos de 1941 e 1944 no Reino Unido. Em 1938, antes do início da Segunda Guerra, essa participação era de 17,4%

PROTAGONISMO DO GOVERNO BRITÂNICO

Participação do governo nos gastos totais da economia britânica. Aumento durante a Segunda Guerra Mundial

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