Como Hollywood tenta contornar as restrições da pandemia

Com fechamento de cinemas, estúdios apostam no digital como forma de oferecer lançamentos ao público e manter a saúde das próprias finanças

    Temas

    A pandemia do novo coronavírus já é considerada uma das maiores crises globais de todos os tempos. Ela tem causado impacto na vida cotidiana e em todos os setores da economia dos países afetados.

    O coronavírus também tem impacto na indústria cultural: shows e eventos foram cancelados, e espaços culturais, como cinemas e teatros, estão com atividades suspensas por tempo indeterminado.

    Em Hollywood, todos os cinco grandes estúdios – Universal, Disney/Fox, Warner, Sony e Paramount – tiveram de adiar as grandes estreias do primeiro semestre por causa da pandemia, já que os espaços exibidores estão fechados.

    Mudanças no calendário

    A Universal inaugurou os adiamentos, em 4 de março, anunciando que “007: Sem tempo para morrer” teria sua estreia, marcada para abril, transferida para novembro. O estúdio também postergou a estreia de “Velozes e furiosos 9”, que chegaria às telonas em maio, para abril de 2021.

    A Disney adiou as estreias de “Viúva negra”, novo filme da Marvel, e da nova versão de “Mulan”. O estúdio, porém, não anunciou uma nova data de lançamento para os longas.

    Dentro do conglomerado Disney, a Fox adiou a estreia de “Novos mutantes”, filme do universo dos X-Men, por tempo indefinido. É a quarta vez que o longa é adiado – originalmente, o lançamento teria acontecido em 2018.

    Já a Paramount tinha como grande lançamento do primeiro semestre a continuação do terror “Um lugar silencioso”, que chegaria ao público em 19 de março. O adiamento foi anunciado uma semana antes da estreia, e uma nova data ainda não foi definida.

    “Mulher-maravilha 1984” e o musical “Em um bairro de Nova York” foram adiados pela Warner. Ambas as produções chegariam ao público em junho.

    O longa da super-heroína foi remarcado para o mês de agosto. Já o musical não ganhou uma nova data de estreia.

    Nesta terça-feira (31), a Sony anunciou que “Morbius”, filme do universo do Homem-aranha; “Caça-fantasmas: Mais além” e a adaptação do game “Uncharted” foram adiadas para 2021.

    O cinema nacional também foi afetado pela conjuntura: a produtora Santa Rita Filmes anunciou que os filmes “A menina que matou os pais” e “O menino que matou meus pais”, produções inspiradas no caso Suzane von Richthofen, tiveram suas estreias, marcadas para a próxima quinta-feira (2), adiadas por tempo indeterminado.

    O modelo clássico de distribuição

    O sistema de estreias em Hollywood é o mesmo desde o início da década de 1980: os estúdios produzem os filmes e fazem o lançamento nas salas de cinema.

    Cerca de três meses depois, os longas ficam disponíveis no mercado de home video: DVDs, blu-rays, aluguel/compra da versão digital e serviços de streaming. Três meses depois disso, os filmes chegam em canais pagos e três anos depois da estreia podem ser exibidos na TV aberta.

    As decisões podem ser alteradas após avaliação individual de cada caso mas, no geral, esse sistema, conhecido como “janelas de lançamento”, é seguido sem grandes mudanças.

    Porém, o fechamento das salas de cinema aliado ao período de isolamento social fez com que os estúdios repensassem o sistema, apostando no digital como forma de manter as próprias finanças saudáveis ao mesmo tempo em que oferecem opções de entretenimento ao público.

    A aposta no digital na pandemia

    A Universal deu o primeiro passo, anunciando que seus filmes que estavam nos cinemas, como “O homem invisível”, “A caçada” e “Emma” seriam lançados digitalmente para compra e aluguel em plataformas como o iTunes e Google Play.

    Além de disponibilizar filmes recém-estreados, o estúdio também anunciou que a animação “Trolls 2”, com estreia marcada para 10 de abril, chegaria diretamente nessas plataformas.

    A Warner seguiu os passos e lançou os filmes “Aves de rapina” e “Magnatas do crime” em versão digital no dia 24 de março, também em plataformas como iTunes e Google Play.

    Os estúdios Disney também fizeram o mesmo com a animação “Dois irmãos: Uma aventura fantástica”, que estreou nos cinemas em 6 de março e foi disponibilizado para compra e aluguel 14 dias depois. Além disso, a empresa anunciou o longa no serviço de streaming Disney+ a partir de 3 de abril.

    Segundo a jornalista Grace Randolph, do podcast Beyond the Trailer, a Disney também avalia fazer o lançamento de “Viúva negra” e “Mulan” diretamente nas plataformas digitais. Por enquanto, nenhum anúncio oficial foi feito.

    Até a manhã de 31 de março, todas essas decisões se limitam ao mercado americano, não valendo para o Brasil.

    Decisão que não se limitou a grandes estúdios

    Distribuidoras de filmes independentes do Reino Unido, Polônia, Bélgica e Alemanha também optaram por pular o lançamento de filmes no cinema, colocando-os diretamente nas plataformas digitais.

    “Eu gastei 30 mil euros em marketing para o lançamento nos cinemas”, disse Thomas Verkaeren, CEO da distribuidora belga O’Brother, ao site especializado The Hollywood Reporter. “Se eu esperar a crise passar, não terei outros 30 mil para gastar”, afirmou, justificando a decisão do lançamento direto para o digital.

    A decisão das distribuidoras europeias foi considerada "radical" pelo The Hollywood Reporter dado o fato de que, por tradição, o mercado europeu defende veementemente a preservação do cinema enquanto espaço cultural.

    Reflexo dessa disputa está no fato de que, em 2019, o Festival de Cannes, na França, determinou que os filmes que integram a competição anual devem ser exibidos em cinemas do país, fazendo com que as produções originais Netflix não pudessem concorrer à Palma de Ouro.

    Um debate requentado

    Desde que as plataformas de streaming se popularizaram, a indústria cinematográfica debate a possibilidade de se fazer grandes estreias diretamente nos serviços digitais, quebrando o sistema de janelas de lançamento.

    Em 2011, os cinco grandes estúdios (à época seis, antes da Fox ser comprada pela Disney) ensaiaram uma plataforma que disponibilizaria filmes digitalmente 30 dias após a estreia.

    A ideia não foi para frente por pressão da Associação de Donos de Cinemas dos EUA, que ameaçou deixar de exibir os lançamentos desses estúdios caso o novo modelo se instaurasse.

    O argumento dos donos de cinema era de que o mercado não se limita só à produção dos filmes, e que o novo modelo seria um golpe na saúde econômica de toda uma categoria do mercado.

    A inauguração de uma nova tendência?

    Com a aposta dos estúdios, surgiu o questionamento sobre a possibilidade do lançamento diretamente digital se tornar uma nova tendência da indústria.

    David Ehrlich, crítico de cinema e colunista do site IndieWire, acredita que é cedo para se decretar o início de um novo hábito e o fim do modelo tradicional.

    “A própria Netflix prova que as pessoas ainda vão pagar o preço de um ingresso para ver bons filmes, mesmo que eles estejam disponíveis para streaming”, afirmou.

    Ehrlich argumenta que mesmo com o período de isolamento social há uma busca significativa pela experiência de se ver filmes coletivamente na grande tela, usando como base o fato de que nos EUA os cinemas drive-in, nos quais o público assiste à projeção dentro do carro, dobraram seu faturamento no mês de março, dada a alta demanda.

    “As salas de cinema não se tornarão algo considerado uma inconveniência arcaica que deve ser enterrada junto das ruínas do mundo pré-coronavírus”, disse. “Pelo contrário: elas se tornarão um lembrete dolorido de como a experiência de um espetáculo privado pode ser sufocante”, afirmou.

    Já o colunista Richard Rushfield, do site The Ankler, disse em entrevista ao portal The Ringer que acredita que o paradigma da indústria mudou para sempre.

    “O americano médio já não vai mais ao cinema na maior parte do tempo, exceto para um blockbuster ou outro”, disse. “Não é como se eles fossem sentir falta do hábito de ir ao cinema e não é como se precisassem de muito motivo para se afastar das salas para sempre”, afirmou.

    Rushfield comparou a situação do fechamento dos cinemas à interdição de um restaurante.

    “É como ir a um restaurante que é muito barulhento, muito caro e difícil de se chegar, mas que você ainda vai porque foi arrastado pelos amigos uma vez ou outra”, exemplificou. “E aí esse restaurante é fechado por três meses por causa de uma infestação de vermes e quando é reaberto alguém diz que você já pode voltar a ir lá”, disse.

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