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Qual a importância dos hospitais de campanha numa pandemia

Capitais como São Paulo, Rio de Janeiro e Fortaleza estão construindo estruturas provisórias em estádios e centros de convenção. Medida é recomendada pela Organização Mundial de Saúde

    Temas

    Hospitais provisórios têm sido montados às pressas em todo o Brasil por conta da pandemia do novo coronavírus. Estádios de futebol e centros de convenções estão sendo usados em capitais como São Paulo, Rio de Janeiro e Fortaleza para receber as estruturas.

    Investir em hospitais de campanha (como são conhecidas as estruturas temporárias), em meio a uma crise sanitária, é uma recomendação feita pela OMS (Organização Mundial de Saúde). Segundo o diretor-geral da entidade, Tedros Adhanom, as redes de atendimentos de vários países estão no limite, o que coloca em risco a vida de pessoas que precisam de outros cuidados de saúde que não os ligados à covid-19.

    “As grávidas continuam dando à luz, as pessoas continuam tendo outras doenças infecciosas, a vacinação para outras enfermidades precisa continuar a ser feita”

    Tedros Adhanom

    diretor-geral da OMS, sobre a necessidade de hospitais provisórios

    A necessidade de aumentar a oferta de vagas ocorre porque nenhum sistema de saúde, em nenhum lugar do mundo, é desenhado para pandemias. Elas são atípicas.

    Quando há o surgimento de uma nova doença, como a covid-19, e uma explosão de casos pela falta de imunidade da população, as chances de os sistemas de saúde entrarem em colapso é muito grande. Por isso é importante achatar a curva de infecção (fazer com que elas ocorram num espaço mais longo de tempo) com medidas como o isolamento social, que vários países do mundo estão adotando.

    Para dar conta do aumento brusco no número de doentes, hospitais temporários têm sido construído em diversos países ao redor do mundo, como Estados Unidos, Reino Unido, Espanha, Itália, Sérvia, Chile, Somália e Guatemala. O Brasil tem seguido a recomendação da OMS.

    16 mil

    é o número de leitos de UTI (Unidade de Terapia Intensiva) existentes no SUS

    95%

    desses leitos estavam ocupados no início de março

    3.200

    novos leitos de UTI é a quantidade extra que o país precisa para enfrentar a pandemia do novo coronavírus, segundo a Associação de Medicina Intensiva Brasileira

    O caso da China

    Os primeiros casos de infecção pelo Sars-Cov-2, vírus que causa a covid-19, foram notificados em Wuhan, na China, no final de 2019. Em 23 de janeiro, o governo chinês impôs uma quarentena forçada para todos os moradores da cidade de 11 milhões de habitantes.

    Para dar atendimento aos doentes, o governo construiu 16 hospitais provisórios na cidade. Um dos primeiros a serem construídos, com mil leitos, demorou apenas dez dias para ficar pronto.

    Ao todo, cerca de 56 milhões de pessoas, em toda província de Hubei, onde estava o epicentro da doença, ficaram confinados por mais de dois meses. Os casos de infecção, que passavam de cem por dia, caíram drasticamente. Em 19 de março, o país ficou 24 horas sem constatar nenhum caso novo de transmissão local. Os únicos registros foram de pessoas que chegaram de viagem. Por conta do controle do surto local, os hospitais provisório foram desativados.

    Na segunda-feira (30), a China já havia caído para a quarta posição no número de infectados (82.198) entre todos os países e foi ultrapassado por Itália (11.591) e Espanha (7.340) no número de mortes (3.186).

    A falta de leitos na Itália

    Um dos quadros mais dramáticos da pandemia se deu na Itália, onde o sistema de saúde não deu conta de atender a todos. Na época em que a China estava decretando quarentena forçada, a Lombardia, o epicentro da doença na Europa, contava com apenas 250 pessoas infectadas e 12 mortes. Vivem na região um sexto dos 60 milhões de italianos.

    O prefeito de Milão, Giuseppe Sala, apoiou a campanha “Milão não para”, que incentivou os moradores a continuar com suas atividades normais. Foi um erro que ele próprio admitiu posteriormente. Os casos explodiram na sequência. A Itália se tornou o país com o maior número de mortes no mundo, 11.591, na segunda-feira (30).

    Por causa da falta de leitos e de respiradores mecânicos para os pacientes mais graves, os médicos italianos passaram a ter que escolher quem teria atendimento. Como critério, preferiam os pacientes com maior chance de sobreviver e os que viveriam por mais tempo após serem salvos, ou seja, os mais jovens.

    Os hospitais provisórios no Brasil

    Capitais como São Paulo, Rio de Janeiro, Fortaleza e Boa Vista ganharam hospitais temporários para receber doentes infectados pelo novo coronavírus. As estruturas também estão sendo montadas em cidades do interior, como Campinas, Valinhos e São João da Boa Vista.

    Na capital paulista, o estádio do Pacaembu ganhou duas tendas com capacidade para 200 leitos que receberão doentes leves a partir de 1º de abril. A gestão do local ficará a cargo do hospital Albert Einstein, que contratou profissionais de saúde por um período inicial de três meses. O prazo pode ser prorrogado.

    Já no complexo do Anhembi, também em São Paulo, serão 1.800 leitos, sendo que os primeiros 300, de média e alta complexidade, deverão ser inaugurados em 6 de abril.

    A ideia é que o local receba pacientes com suspeita de covid-19 que tenham outras doenças, como diabetes e hipertensão. Cerca de 3.000 profissionais, sendo 600 médicos, devem ser contratados.

    Os pacientes serão encaminhados a esses hospitais provisórios após passar por prontos socorros e unidades básicas de saúde da cidade.

    No Rio de Janeiro, o governo anunciou hospitais de campanha no centro de convenções do Riocentro, no Parque dos Atletas, no antigo aeroclube de Nova Iguaçu, em São Gonçalo e no estádio do Maracanã. Serão ao todo cerca de 900 leitos, o que representa 53% dos leitos do estado.

    Em Boa Vista, devido à proximidade de Roraima com a Venezuela, país que convive com uma crise humanitária, o Exército montou uma hospital de campanha com 1.200 leitos. A corporação já realizava a operação Acolhida no estado, para receber refugiados do país vizinho.

    Na segunda-feira (30), segundo o Ministério da Saúde, o Brasil registrou 159 mortes e 4.579 casos confirmados. A maioria dos casos (1.517) e das mortes (113) se concentrava em São Paulo.

    Embora o presidente Jair Bolsonaro tenha se manifestado contra o isolamento social, a pasta diz que se pauta por critérios técnicos e orienta as pessoas a permanecerem em casa.

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