Por que as redes sociais estão removendo posts de Bolsonaro

Decisão está alinhada com política de empresas para combater propagação de desinformação acerca do novo coronavírus

No domingo (29), Jair Bolsonaro teve dois vídeos removidos de sua conta no Twitter. Na segunda (30), foi a vez de Facebook e Instagram apagarem posts do presidente.

O material mostrava Bolsonaro em um passeio pelo Distrito Federal, conversando com um vendedor de espetinhos que relata que o período de isolamento social causado pela pandemia do novo coronavírus prejudicou sua renda familiar.

Um segundo vídeo trazia a coletiva de Bolsonaro na saída do Palácio do Alvorada. Na fala, o presidente, mais uma vez, se posicionou contra as recomendações de isolamento social do seu próprio Ministério da Saúde, ressaltando novamente os efeitos econômicos que serão causados pela epidemia.

“Devemos tomar os devidos cuidados com os mais velhos, com as pessoas do grupo de risco. Agora, o emprego é essencial”, afirmou. “Essa é uma realidade, o vírus tá aí. Vamos ter que enfrentá-lo, mas enfrentar como homem, porra. Não como um moleque. Vamos enfrentar o vírus com a realidade. É a vida. Tomos nós iremos morrer um dia”, disse.

Na quarta-feira (25), o senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ) e Ricardo Salles, ministro do Meio Ambiente, também tiveram publicações deletadas do Twitter.

Ambos postaram um vídeo em que o médico Drauzio Varella dizia que não havia motivo para pânico em relação ao coronavírus. O vídeo, porém, foi gravado em janeiro, quando a crise ainda estava em fase inicial no mundo e as informações a respeito do vírus eram mais incipientes do que as disponíveis hoje.

Além de deletar as publicações, o filho mais velho do presidente e o ministro tiveram suas contas na rede social congeladas por 12 horas.

Em comunicado enviado ao G1, o Twitter afirmou que a decisão está alinhada com as políticas anunciadas na primeira quinzena de março para combater a desinformação sobre o novo coronavírus na plataforma.

Facebook e Instagram justificaram as medidas de apagarem os posts presidenciais dizendo eles criavam desinformação que pode causar danos reais às pessoas”.

As declarações de Bolsonaro pedindo a volta da normalidade e defendendo a reabertura do comércio não-essencial no Brasil confronta recomendações de autoridades sanitárias, como a OMS (Organização Mundial de Saúde), segundo as quais é preciso adotar medidas de distanciamento social a fim de não colapsar os sistemas de saúde.

Ações das redes sociais

Redes sociais apostaram em ações para combater a desinformação nos tempos de coronavírus. O Nexo lista as principais abaixo:

Twitter

A partir da política anunciada em março, o Twitter também está removendo boatos e notícias falsas sinalizadas por usuários ou autoridades, e direcionando aqueles que buscam informações à página do Ministério da Saúde. Além disso, a plataforma remove publicações que trazem indicações contrárias às das autoridades de saúde, caso da coletiva presidencial.

“Conheça os fatos. Para garantir que você tenha as melhores informações sobre o coronavírus (covid-19), recursos do Ministério da Saúde estão disponíveis”, diz a mensagem que aparece para os usuários que buscam informações sobre a pandemia.

Facebook

No Brasil, o Facebook, maior rede social do mundo, tem removido conteúdos falsos divulgados sobre o coronavírus e tem direcionado os usuários que buscam notícias sobre a pandemia ao site do Ministério da Saúde. “Procurando informações sobre o coronavírus? Veja as informações mais atualizadas do Ministério da Saúde do Brasil para você se prevenir e ajudar a evitar a disseminação do vírus”, diz a mensagem que aparece para os usuários na busca.

“Estamos removendo notícias falsas e teorias da conspiração que foram sinalizadas por organizações de saúde do mundo todo e que podem ser nocivas para as pessoas que acreditam nelas”, disse Steve Hatch, diretor do Facebook no Reino Unido, em comunicado oficial. Boatos são sinalizados pelos usuários, e a empresa faz a checagem de informações como forma de verificação.

No WhatsApp, aplicativo de propriedade do Facebook, a coibição da propagação se torna mais difícil, já que as conversas são criptografadas. Assim, a checagem dos fatos depende da capacidade e da boa vontade de cada usuário.

Instagram

O Instagram, de propriedade do Facebook, diz remover conteúdos falsos sobre o novo coronavírus, mas direciona os usuários para a página da OMS de maneira mais discreta: em vez de mostrar uma mensagem direta sobre a busca de informação qualificada, a plataforma apresenta o perfil da organização no topo dos resultados.

YouTube

O YouTube lançou uma página inteira dedicada ao coronavírus, onde fornece informações de contato para as principais autoridades sanitárias do mundo e explica suas medidas para combater a desinformação sobre a pandemia.

A plataforma de vídeos está removendo conteúdos que foram sinalizados pela comunidade e que trazem informações falsas sobre o coronavírus.

Além disso, a plataforma não está permitindo a monetização de vídeos sobre o assunto, exceto em canais que são verificados. Nos conteúdos que tratam do tema, a plataforma também incluiu um link para a página da OMS.

A eficácia das medidas e a responsabilização pela divulgação

Para Casey Newton, jornalista especializado em política digital e colunista do site The Verge, as medidas das empresas são pequenas no contexto maior da pandemia, mas são um primeiro passo para combater a disseminação das fake news que colocam em risco a saúde pública. “É um progresso, e eu vou aceitar”, disse em coluna publicada no dia 5 de março.

Renee DiResta, gerente de pesquisas do Observatório de Internet da Universidade de Stanford, nos EUA, apoiou a checagem de publicações sinalizadas. “Essas plataformas certamente devem colocar a checagem de fatos para funcionar”, disse ao jornal The Washington Post.

DiResta também sugeriu a diminuição do alcance de publicações com teorias da conspiração. Por esse mecanismo, esse tipo de postagem pode até ser publicada, mas não chega até a timeline dos usuários.

Em termos de responsabilização pela publicação, nada está sendo feito. Nos EUA, a seção 230 do Ato de Decência nas Comunicações prevê que sites não podem ser responsabilizados mesmo que um de seus usuários faça a publicação de conteúdo considerado ilegal.

No Brasil, divulgar fake news só é considerado crime passível de punição se o ato ocorrer em contexto eleitoral. A pena é de dois a oito anos de prisão. A lei foi sancionada em novembro de 2019.

Além da falta de dispositivos legais mais específicos, a responsabilização pela divulgação de fake news – mesmo em casos em que as informações ameaçam a saúde pública – é dificultada pelo fato de que pode ser difícil encontrar os autores originais dos boatos, que muitas vezes usam contas falsas e outras ferramentas para mascarar a própria identidade.

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