O manifesto de oposição que pede a renúncia de Bolsonaro

Texto assinado por nomes como Ciro Gomes, Fernando Haddad, Flávio Dino e Guilherme Boulos marca uma rara ação conjunta da esquerda após as eleições de 2018

    Líderes de partidos de oposição lançaram na segunda-feira (30) um manifesto que pede a renúncia imediata de Jair Bolsonaro, chamado de “um presidente irresponsável”.

    A carta é assinada por 14 políticos. Estão na lista os candidatos à presidência nas eleições de 2018 Fernando Haddad (PT), Guilherme Boulos (PSOL) e Ciro Gomes (PDT), além das candidatas a vice Manuela D'Ávila (PCdoB), da chapa de Haddad, e Sônia Guajajara (PSOL), da chapa de Boulos.

    Também são signatários o governador do Maranhão, Flávio Dino (PCdoB), o senador e ex-governador do Paraná Roberto Requião (MDB), o ex-governador do Rio Grande do Sul Tarso Genro (PT) e os presidentes do PT, deputada Gleisi Hoffmann (PR), do PSB, Carlos Siqueira, do PDT, Carlos Lupi, do PCB, Edmilson Costa, Juliano Medeiros, do PSOL, Luciana Santos, do PCdoB.

    Além do pedido de renúncia, algumas propostas foram apresentadas, como a manutenção do isolamento social, a suspensão da cobrança das tarifas de serviços básicos para os mais pobres durante a crise, a proibição de demissões e a regulamentação imediata de tributos sobre grandes fortunas, lucros e dividendos.

    O lançamento do manifesto ocorre num momento em que João Doria (PSDB), governador de São Paulo com pretensões presidenciais em 2022, está na linha de frente do enfrentamento ao presidente. E num contexto em que até bolsonaristas de carteirinha, como o governador de Goiás, Ronaldo Caiado (DEM), anunciam rompimento com o Palácio do Planalto.

    Mudança de atitude da oposição

    O texto marca uma mudança na atitude da oposição, que relutava em pedir publicamente a saída de Bolsonaro. No dia 16 de março, a deputada Jandira Feghali (PCdoB-RJ), líder da minoria na Câmara, afirmou ao jornal Valor Econômico que o momento para o impeachment não é propício, já que o pedido dificilmente teria andamento com Rodrigo Maia (DEM-RJ) no comando da Câmara.

    Quem também se manifestou de maneira contrária a um possível pedido de impeachment foi o líder do PT no Senado, Rogério Carvalho (PT-SE). Ele disse à revista Época que, apesar de Bolsonaro não respeitar a liturgia do cargo, impedi-lo neste momento seria algo “secundário”.

    A situação começou a mudar depois do pronunciamento do presidente em rede nacional de rádio e TV na terça-feira (24). Bolsonaro pediu que a população voltasse à normalidade, na contramão das recomendações das autoridades sanitárias pelo mundo.

    No dia seguinte, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que não assina o manifesto desta segunda-feira (30), defendeu a renúncia ou o impeachment de Bolsonaro.

    Queixas contra o presidente

    No texto, as lideranças afirmam que Bolsonaro é “o maior obstáculo à tomada de decisões urgentes para reduzir a evolução do contágio, salvar vidas e garantir a renda das famílias, o emprego e as empresas”.

    Em outro trecho, os políticos dizem que o presidente não tem condições de seguir governando o país. “Comete crimes, frauda informações, mente e incentiva o caos, aproveitando-se do desespero da população mais vulnerável. Precisamos de união e entendimento para enfrentar a pandemia, não de um presidente que contraria as autoridades de Saúde Pública e submete a vida de todos aos seus interesses políticos autoritários”.

    Após o discurso do dia 24 de março, quando incentivou a população a sair do confinamento e voltar ao trabalho, Bolsonaro dobrou a aposta e, na sexta-feira (27), divulgou uma campanha feita pelo Planalto, intitulada "O Brasil não pode parar".

    O vídeo foi retirado do ar após determinação da Justiça Federal do Rio de Janeiro. A Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República negou a existência de uma campanha e afirmou que o vídeo foi produzido em "caráter experimental".

    No manifesto, Bolsonaro é criticado por atentar contra a saúde pública, “desconsiderando determinações técnicas e as experiências de outros países”.

    No domingo (29), contrariando mais uma vez as recomendações do próprio Ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, e também da OMS (Organização Mundial da Saúde), Bolsonaro foi às ruas em Ceilândia e Taguatinga, ambas no Distrito Federal, para conversar com a população.

    Em reação a esse ato de domingo (29), sete partidos de oposição (PT, PDT, PSB, PCdoB, PSOL, Rede e PCB) decidiram ingressar com uma notícia-crime no Superior Tribunal Federal contra Bolsonaro, por ter colocado em risco a saúde da população.

    Por que renúncia, não impeachment

    Na carta, as lideranças pedem que o presidente renuncie ao cargo. Basta! Bolsonaro é mais que um problema político, tornou-se um problema de saúde pública. Falta a Bolsonaro grandeza. Deveria renunciar, que seria o gesto menos custoso para permitir uma saída democrática ao país.

    Impeachment é um longo processo político. Maia, responsável por dar sequência ou não a pedidos de impedimento, já afirmou que os trabalhos do Legislativo estão focados em medidas econômicas para conter a pandemia.

    A renúncia, ao contrário, é uma decisão que cabe única e exclusivamente ao presidente da República. Sem os trâmites no Legislativo, a mudança seria menos “custosa”, como assinala o manifesto.

    No Palácio da Alvorada, Bolsonaro fez referência nesta segunda (30) aos pedidos para que saia do cargo. Vamos enfrentar o problema? Ou o problema é o presidente? Tem que trocar de presidente e resolve tudo?, disse.

    Esquerda comemora ação conjunta

    O manifesto contrário a Bolsonaro sela também uma espécie de trégua entre os partidos de esquerda. Na carta, os políticos conclamam "a unidade das forças políticas populares e democráticas" para ajudar o Brasil contra o coronavírus.

    Progressistas unidos pelo Brasil. Chega de insanidade

    Fernando Haddad

    ex-prefeito de São Paulo e candiado do PT derrotado à Presidência em 2018

    Finalmente, a esquerda unida contra Bolsonaro!

    Guilherme Boulos

    candidato derrotado do PSOL derrotado à Presidência em 2018

    A união não aconteceu nem mesmo durante o segundo turno das eleições de 2018, quando Ciro Gomes decidiu não apoiar publicamente Fernando Haddad. A decisão significou um racha entre os partidos, algo explicitado com declarações contundentes posteriores.

    Logo após as eleições, Ciro disse ao jornal Folha de S.Paulo que fora miseravelmente traído pelo Lula, e que não faria mais campanha com o partido. Em maio de 2019, durante um evento partidário em Belo Horizonte, Ciro afirmou que Bolsonaro e o PT eram “faces da mesma moeda.

    Em novembro do mesmo ano, durante entrevista ao blog Nocaute, do jornalista Fernando Morais, Lula afirmou que Ciro era não era um homem do debate político e criticou a ida do pedetista a Paris durante o segundo turno das eleições.

    Já em dezembro de 2019, Carlos Siqueira, presidente nacional do PSB, afirmou ao jornal O Globo que entre o PT e o Brasil, o PT escolhe a si mesmo.

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.

    Já é assinante? x

    Entre aqui

    Continue sua leitura

    Inscreva-se abaixo no Boletim Coronavírus, uma newsletter diária do Nexo: