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Como Trump mudou seu discurso sobre o coronavírus

Presidente dos EUA deixa de referir-se à pandemia como ‘uma gripe’ e orienta americanos a seguirem as autoridades sanitárias, que pregam quarentena mais longa

    O presidente dos EUA, Donald Trump, voltou atrás, no domingo (29), na ideia de liberar os americanos da quarentena até o feriado de Páscoa, em 12 de abril, e disse que a política de isolamento social no país deve durar até pelo menos 1º de junho.

    O discurso marca uma mudança na postura do presidente americano, que, no dia 26 de fevereiro, referiu-se à pandemia como “uma gripe”, e garantiu que o número de casos nos EUA estava “caindo substancialmente, não aumentando”.

    Apenas um mês depois disso, em 26 de março, os EUA ultrapassaram a China em número de pessoas contaminadas, com mais de 80 mil casos acumulados. Na segunda-feira (30) esse número havia saltado para mais de 143 mil, colocando os americanos no topo da lista dos países com maior número de pessoas detectadas com o vírus em todo o mundo.

    A rápida propagação da doença era prevista, embora as projeções fossem tratadas por Trump como um complô dos rivais democratas e da imprensa americana

    Ainda em fevereiro, os exemplos da Itália e da Espanha já demonstravam que, mesmo 15 dias depois de decretada uma quarentena, os números não baixam. Ambos os países seguem batendo recordes de número de contaminados e mortos. Mas nem o exemplo trágico dos países europeus foi suficiente para convencer Trump a seguir o parecer dos especialistas.

    27,5 milhões

    é o número estimado de americanos que não podem pagar por saúde privada nos EUA, onde não há saúde universal gratuita

    Foi preciso que as emissoras de televisão transmitissem imagens de hospitais superlotados em Nova York, com corpos de vítimas do coronavírus enfileirados em sacos plásticos, para que o presidente dos EUA falasse em aumentar o período de confinamento.

    Essa mudança, no entanto, não foi repentina. Trump veio adaptando o discurso à medida que os modelos estatísticos se tornavam mais sombrios a cada dia. A seriedade do momento fez com que ele parasse de se referir ao coronavírus como “vírus chinês”, e passasse a discutir a colaboração com o governo da China, como têm feito os países europeus.

    Trump impressionado com as imagens

    No pronunciamento de domingo (29), em que falou sobre o prolongamento da quarentena, Trump referiu-se às cenas que viu nos noticiários na véspera, e pareceu mais impactado com as imagens do que com a realidade que os gráficos já projetavam há meses.

    “Eu tenho visto na TV na última semana sacos com corpos pelos corredores [dos hospitais]. Vejo eles [os médicos] trazerem [os corpos] em caminhões, em caminhões frigoríficos, porque eles não conseguem dar conta dos corpos. Há tantos deles. Essa é essencialmente minha comunidade, o Queens, em Nova York. Eu tenho visto coisas que eu nunca vi antes”, disse o presidente americano.

    As cenas devem não apenas se repetir, mas também piorar. Diversos estados americanos projetam um transbordamento de suas capacidades no curto prazo, caso a curva de contaminação não seja atenuada pelas medidas de confinamento.

    Em New Orleans, as autoridades disseram que se a curva não for atenuada, não haverá ventiladores para garantir a respiração artificial dos pacientes a partir de 4 de abril, e os leitos serão insuficientes a partir de 10 de abril.

    O uso de máscaras pelo pessoal médico do estado de Nova York pulou de 10 mil para 300 mil por semana, de acordo com o presidente americano, que usou o exemplo para manifestar a suspeita de que governadores democratas possam estar inflando números para prejudicar sua administração.

    Assim como o Brasil, os EUA também têm uma estrutura política que confere alto grau de autonomia aos estados. Essa estrutura descentralizadas às vezes joga a favor das políticas sanitárias – como quando governadores adotam medidas sugeridas pelos especialistas em saúde pública, mesmo contrariando o presidente –, mas às vezes também cria desencontros na hora de oferecer uma resposta nacional articulada.

    A pandemia pegou os EUA no meio das primárias democratas de 2020. Os americanos deveriam decidir até o meio do ano quem seria o adversário de Trump na corrida à Casa Branca, mas a explosão de casos do coronavírus e a recomendação do distanciamento social tornaram incerto o cenário eleitoral de agora até o dia da eleição, 3 de novembro.

    Previsões cada vez mais sombrias

    Os números de pessoas contaminadas nos EUA já é o mais alto do mundo, e vai seguir piorando. A doença ainda não atingiu seu pico, e continuará se manifestando mesmo durante a quarentena, por causa do tempo de incubação, ao redor de 15 dias.

    Com a multiplicação dos casos, crescem as projeções de superlotação dos hospitais, e de falta de respiradores artificiais e leitos, além de médicos e de enfermeiras.

    Anthony Fauci, chefe da comissão de especialistas que assessoram a Casa Branca durante a pandemia, disse no domingo (29), em entrevista à CNN, que o número de mortos no país pode chegar, numa estimativa conservadora, a “entre 100 mil e 200 mil”, mas “não é impossível” que chegue a 2 milhões, embora seja “muito, muito improvável”.

    As projeções de catástrofe nacional, somadas às imagens mostradas na imprensa, com hospitais de Nova York lidando com corpos de vítimas do coronavírus, estão entre os fatores que influenciaram a decisão de Trump. Ao falar das imagens dos corpos nos hospitais, ele afirmou que aquela região de Nova York era o bairro de sua infância. “Eu só via essas coisas em países distantes, nunca no nosso país”, disse Trump.

    “Durante este período, é muito importante que todos sigam estritamente as instruções. É preciso seguir as instruções”, afirmou Trump no pronunciamento de domingo (29), mesmo dia em que o presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, declarado fã do presidente americano, passeava pelas ruas do Distrito Federal, estimulando as pessoas a saírem às ruas – em vídeos que foram removidos pelo Twitter antes do fim do dia.

    Ainda no dia 20 de março, o site Aos Fatos fez um levantamento extensivo das declarações de Trump e de Bolsonaro sobre o coronavírus, mostrando como o presidente brasileiro buscava se aproximar das posições do presidente americano. Com o passar do tempo, no entanto, essas posições foram se distanciando, à medida que Trump cedia aos conselhos de seus assessores e Bolsonaro radicalizava em diretrizes que se chocavam com as orientações do Ministério da Saúde.

    A cartilha que ambos seguiram até certo ponto incluía minimizar o tamanho da crise, culpar adversários e acusar a China pela pandemia. Após o pronunciamento de domingo (29) na Casa Branca, no entanto, a posição de Bolsonaro foi se tornando singular no mundo.

    Hoje, a maior parte dos EUA está sob quarentena, mas, ao contrário do que ocorre em países europeus como Itália, França e Espanha, não há previsão de multa ou prisão para quem sair às ruas, na maioria dos EUA.

    João Paulo Charleaux é repórter especial do Nexo e escreve de Paris

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