O impacto da campanha ‘Brasil não pode parar’ de Bolsonaro

Carreatas pelo país pedem reabertura do comércio, e deputados tentam barrar propaganda no Supremo. Ao 'Nexo', professores Pablo Ortellado e Guilherme Casarões analisam a estratégia do presidente

    O governo do presidente Jair Bolsonaro decidiu lançar uma campanha publicitária que contraria as recomendações das principais autoridades sanitárias do mundo e defende o afrouxamento das medidas de isolamento social adotadas no país para conter o novo coronavírus.

    A campanha, que tem como slogan a frase “o Brasil não pode parar”, foi lançada dois dias depois de o presidente minimizar os riscos da doença durante um pronunciamento em rede nacional, na terça-feira (24). Ele questionou o fechamento de escolas e pediu para que o país retornasse à normalidade. Os vídeos da campanha começaram a circular na noite de quinta-feira (26) em contas do governo e de filhos do presidente.

    No sábado (28), a Justiça Federal do Rio de Janeiro determinou, em caráter liminar (temporário), que o governo pare de veicular a campanha em veículos de comunicação como "rádio, televisão, jornais, revistas, sites ou qualquer outro meio, físico ou digital". O pedido foi feito pelo Ministério Público Federal e acatado pela juíza Laura Bastos Carvalho.

    A Secretaria Especial da Comunicação Social da Presidência da República, que havia feito postagens com os materiais em seus perfis oficiais no Twitter e no Instagram, deletou os posts e divulgou, no sábado de manhã, uma nota negando a existência de peças publicitárias com o slogan.

    No material que chegou a ser publicado, um narrador cita várias categorias profissionais e diz que o país não pode parar por elas. “Para quem defende a vida dos brasileiros e as condições para que todos vivam com qualidade, saúde e dignidade, o Brasil não pode parar. Para todos os demais, distanciamento, atenção redobrada e muita responsabilidade. Vamos, com cuidado e consciência, voltar à normalidade”, diz trecho da peça.

    A campanha defende o chamado isolamento vertical, em que apenas os grupos de risco, como maiores de 60 anos e pessoas que já possuem outras doenças, ficariam em quarentena. A eficácia do método, porém, não é comprovada cientificamente. Para a Organização Mundial da Saúde, em recomendação seguida pelo próprio Ministério da Saúde, o isolamento social é a melhor maneira de frear a disseminação do vírus.

    Segundo a revista Época, o governo alegou urgência e contratou uma agência de comunicação sem licitação para produzir a campanha, com um gasto de R$ 4,8 milhões. A Secom (Secretaria Especial de Comunicação) nega que tenha gasto o valor na campanha. E diz que o vídeo que está circulando foi “produzido em caráter experimental, portanto, a custo zero e sem avaliação e aprovação da Secom”.

    A comunicação do governo passou a ser conduzida informalmente pelo vereador do Rio Carlos Bolsonaro, filho do presidente, desde que o chefe da Secom (Secretaria Especial de Comunicação), Fábio Wajngarten, se afastou do cargo depois de ter contraído a Covid-19, doença causada pelo novo coronavírus.

    Os efeitos do posicionamento

    O prefeito do Rio, Marcelo Crivella (Republicanos), que é aliado do presidente, foi um dos primeiros a abrandar o isolamento. Depois do pronunciamento de Bolsonaro, ele anunciou que, a partir de sexta-feira (27), alguns comércios seriam reabertos gradualmente, começando por lojas de material de construção e de conveniência.

    Mudanças também ocorreram em estados como o Mato Grosso, onde o governador Mauro Mendes (DEM) editou um decreto na quinta-feira (26) permitindo o funcionamento do comércio e do transporte coletivo. O prefeito de Cuiabá, Emanuel Pinheiro (MDB), criticou a medida e disse que não abrandaria o isolamento na cidade.

    Em Rondônia e Santa Catarina, ambos governados pelo PSL, partido que elegeu Bolsonaro mas com o qual ele rompeu posteriormente, também anunciaram medidas para retomar o comércio. O prefeito de Porto Velho, Hildon Chaves (PSDB), seguiu o governo do estado e decidiu flexibilizar as restrições. Na capital catarinense, o prefeito, Gean Loureiro (DEM), afirmou que a cidade vai manter a quarentena pelo menos até 8 de abril.

    Em São Paulo e em ao menos outras sete cidades, apoiadores do presidente fizeram carreatas para protestar contra as quarentenas. Na capital paulista, manifestantes pediram a saída do governador do estado, João Doria (PSDB), que se tornou o maior adversário político de Bolsonaro no atual embate do presidente com os governos estaduais.

    Líderes de caminhoneiros que participaram da greve de 2018 também divulgaram vídeos criticando as restrições em São Paulo e o fechamento de restaurantes à beira das estradas. Eles ameaçaram parar as atividades de abastecimento e criticaram Doria.

    A reação à campanha oficial

    Um grupo de deputados anunciou na sexta-feira (27) que entraria com uma ação no Supremo Tribunal Federal pedindo a suspensão da campanha do governo. No final da tarde, a Justiça Federal suspendeu de forma liminar (temporária) medidas do governo federal contrárias ao isolamento social como prevenção ao novo coronavírus, como a liberação do funcionamento de igrejas e lotéricas.

    A Frente Nacional de Prefeitos criticou as mensagens do governo federal chamando-as de dúbias, já que o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, que defendia medidas de isolamento, afirmou que as quarentenas tinham sido desorganizadas.

    Em entrevista na sexta-feira (27), Doria chamou a campanha do governo federal de desinformativa e irresponsável. “Mais de 50 países estão em quarentena. O mundo inteiro está errado e o único certo é o presidente Jair Bolsonaro?”, questionou.

    Ele lembrou o caso da Itália, que tentou reativar o comércio, mas voltou atrás após aumento no número de infectados e mortos. Ele também afirmou que o dinheiro gasto na campanha federal deveria estar sendo usado na compra de materiais para os profissionais de saúde.

    Segundo um estudo feito por 30 cientistas do Imperial College de Londres, adotar estratégias radicais de isolamento social pode salvar mais de 1 milhão de vidas no Brasil. Sem medidas de isolamento, o Brasil pode ter até 1,15 milhão de mortes pelo coronavírus, segundo o estudo. No cenário de restrições mais drásticas e precoces, as mortes seriam 44 mil.

    O caso italiano

    Campanhas semelhantes à de Bolsonaro, que tentaram minimizar os perigos da Covid-19 em detrimento da economia, foram usadas em países como a Itália. O prefeito de Milão, Giuseppe Sala, chegou a admitir que errou ao apoiar a campanha “Milão não para”, que incentivou os moradores a continuar com suas atividades normais no final de fevereiro.

    Na época, a Lombardia, região onde Milão está localizada, contava com apenas 250 pessoas infectadas e 12 mortes. Na sexta-feira (27), os números chegavam a 37.298 infectados e 5.402 mortes. Na Itália como um todo, eram 17 mortes em 28 de fevereiro. Um mês depois, o país soma mais de 9.000 mortes e mais de 86 mil casos de infecção contabilizados até sexta. O país tem o maior número de mortos no mundo.

    “Muitos se referem àquele vídeo que circulava com o título #MilãoNãoPara. Era 27 de fevereiro, o vídeo estava explodindo nas redes, e todos o divulgaram, inclusive eu. Certo ou errado? Provavelmente errado (...). Ninguém ainda havia entendido a virulência do vírus, e aquele era o espírito. Trabalho sete dias por semana para fazer minha parte, e aceito as críticas”, afirmou recentemente o prefeito italiano.

    Duas análises sobre a estratégia de Bolsonaro

    O Nexo conversou com dois professores para entender as consequências da campanha do presidente brasileiro contra o isolamento social adotado pelos estados e municípios.

    • Pablo Ortellado, professor do curso de gestão de políticas públicas da USP (Universidade de São Paulo).
    • Guilherme Casarões, professor de ciência política e relações internacionais da FGV (Fundação Getulio Vargas).

    O discurso do presidente tem chances de pegar?

    PABLO ORTELLADO Acho que ele está fazendo uma estratégia bem desenhada. Se pegarmos a pesquisa Datafolha [publicada em 22 de março para avaliar a opinião da população sobre ações de contenção do vírus], dá pra ver que tem uma medida que divide o Brasil que é o fechamento do comércio [46% se dizem favoráveis]. Todas as outras, como fechar as escolas e trabalhar de casa têm de 80% pra cima [de apoio], quase todas elas, com exceção do fechamento do comércio. Isso não fica claro pelo fato de a pergunta falar do comércio em geral e as pessoas não saberem se aplica-se a supermercados e farmácias ou se, de fato, o Brasil está dividido a respeito do fechamento do comércio. E é justamente essa a ênfase da campanha, que é voltada para os grupos mais pobres, que são os grupos onde o descontentamento, a insatisfação com o fechamento do comércio é mais forte.

    Acho que ele está fazendo uma campanha orientada nesse tema e no do fechamento dos templos religiosos, que são duas medidas que têm um pouco menos de apoio, e particularmente entre os mais pobres. Pode ser eficaz. Ele pode aproveitar que, no caso do fechamento das igrejas, um quarto das pessoas não concordam com essa medida, no caso do comércio, dependendo de como a gente interpreta o dado da pesquisa, pode até ser a metade disso. Ele está pegando esses dois pontos e tentando organizar essa insatisfação para ver se cresce a partir daí. Acho que está bem desenhado do ponto de vista estratégico dele. Se vai dar certo ou não, não sei dizer. Mas ele pegou dois pontos que não foram ao acaso.

    GUILHERME CASARÕES O discurso de Bolsonaro tem chance de pegar, sim, sobretudo entre empresários e trabalhadores autônomos e informais. De fato, o lockdown [quarentena forçada] é uma medida dramática, do ponto de vista social e econômico, e não foi anunciada com a devida explicação, seja por desleixo dos governantes ou pela pressa com que a decisão foi tomada. Ainda assim, é a medida que está sendo usada nos grandes focos da doença para conter o contágio rápido e não sobrecarregar os sistemas de saúde.

    A maioria das pessoas que está perdendo dinheiro — sejam investidores, grandes empresários varejistas, mas sobretudo o dono do bar de bairro e o pequeno prestador de serviços — começou a sentir agora, duas semanas depois, os efeitos mais dramáticos do fechamento das atividades. Entendo, portanto, que a demanda pela "volta à normalidade" é legítima.

    Mas fica claro que houve um problema de coerência na ação do governo. No início, o lockdown, ou distanciamento social absoluto, foi uma política recomendada pelas autoridades nacionais de saúde e muitos governadores e prefeitos decidiram adotá-la. Mas ela só faz sentido com o Estado garantindo uma rede de proteção social para amparar trabalhadores e pequenos empresários. Portanto, a ação perdeu força na medida em que o presidente a ignorou e passou a pregar outra coisa. Tudo indica que Bolsonaro tenha sido pressionado pelos grandes empresários que o apoiam e aproveitou a oportunidade para jogar o povo mais vulnerável contra os governadores, principalmente em São Paulo e Rio.

    Qual o cálculo de Bolsonaro ao afrontar as autoridades sanitárias?

    PABLO ORTELLADO Eu fico com a impressão de que ele realmente acha que a coisa não é grave. O que está predominando em setores mais intelectualizados do bolsonarismo, que a gente vê nos sites que discutem mais doutrina e estratégia, é a ideia do vírus chinês. Que o vírus é uma espécie de artifício para a China ganhar vantagem comercial. Essa tese está amplamente disseminada nos círculos bolsonaristas. Se for mesmo isso que está orientando a estratégia, a ideia é justamente a gente diminuir o impacto econômico para não deixar China ter essa vantagem econômica que ela tem.

    Esse discurso diz que a China espalhou esse vírus, essa histeria, com o objetivo de segurar o desenvolvimento do resto do mundo enquanto ela vai dar um salto no desenvolvimento econômico aproveitando o vácuo do resto do mundo que estaria travado. E o Brasil e os Estados Unidos, também nessa leitura, ao terem uma atitude anti-isolamento social, estariam meio que se protegendo contra essa passada de perna dos chineses. Eu acho que é isso que está orientando essa política que parece irracional do presidente. No momento em que o número de mortes começar a escalar, vai ser inevitável reconhecer os fatos. Mas, até lá, no caso brasileiro, a gente ainda tem uns 10 ou 15 dias antes do desastre se impor. Até lá a gente vai ter uma guerra do bolsonarismo lutando contra os fatos, tentando convencer governadores aliados, prefeitos aliados, a romper com a política de isolamento.

    GUILHERME CASARÕES Bolsonaro está utilizando estratégias provenientes do manual do populismo de Trump. Minimizou o problema, para transparecer uma aura de normalidade (e contrapor-se à "histeria" de governadores e imprensa); acusou indiretamente a China, por meio de seus porta-vozes mais radicais, para se eximir de responsabilidade por ações mais rápidas; propôs, antes da hora, uma promessa de cura à covid-19 (a cloroquina), estimulando a população a seguir acreditando que a mídia e a oposição estão tentando desestabilizar o país. Aposta sempre na lógica divisiva do nós contra eles, só que, dessa vez, brinca com uma crise sanitária sem precedentes. Quanto mais fica clara sua incompetência para lidar com a crise, aumenta o tom contra seus inimigos, sempre colocando-se como o benfeitor que quer ajudar o Brasil.

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