Guerra, guerrilha ou resiliência: 3 visões sobre a pandemia

Políticos recorrem a vocabulário bélico para se referir ao esforço contra coronavírus, mas há quem veja a questão por um prisma mais pacifista

    Ao ouvir as estratégias de enfrentamento da pandemia de coronavírus em todo o mundo, é comum que apareçam termos próprios do vocabulário bélico: “estamos em guerra”, é preciso fazer um “esforço de guerra” e passaremos por uma “economia de guerra” são as mais comuns.

    O número de infectados – mais de meio milhão na sexta-feira (27) – contribui para a sensação de estarmos em guerra. As medidas de exceção também, como quarentena e toque de recolher em alguns países.

    Por fim, a mobilização das forças de segurança e das Forças Armadas também dá essa sensação, seja quando militares montam hospitais de campanha, como na França, ou quando impõem medidas de restrição de liberdades civis, como no Chile.

    Dessa forma, o discurso de guerra vem sendo usado por governantes em várias partes do mundo, seja para criar coesão dos cidadãos diante das privações, seja para justificar a aprovação de medidas que ampliam o poder do Executivo em situações de crise, como é o caso da pandemia em curso.

    Entretanto, alguns acadêmicos – das áreas de ciência política e da medicina sobretudo – têm rechaçado a ideia de combate e de enfrentamento em relação a um vírus que se desenvolve dentro do organismo humano e ao qual não se pode sequer atribuir uma intenção destrutiva.

    O debate não tem nenhum efeito prático. Ele ocorre no campo simbólico. Mesmo assim, está longe de ser desimportante. Com grande parte da população mundial confinada e temerosa, passando por uma situação extrema de pressão psicológica, o entendimento do fenômeno que estamos vivendo ganha importância crescente.

    O argumento da guerra

    Líderes de três das maiores potências mundiais fizeram referências à palavra “guerra” em seus pronunciamentos – o presidente dos EUA, Donald Trump; o presidente da França, Emmanuel Macron; e a chanceler da Alemanha, Angela Merkel.

    Trump classificou a si mesmo como “um presidente em tempo de guerra” e prometeu conduzir o país “à vitória total contra o vírus”. Ao ser perguntado sobre o uso do termo, por um jornalista, em entrevista na Casa Branca, no dia 19 de março, ele respondeu assertivamente: “estamos em guerra”.

    O presidente americano disse também que o coronavírus é um “inimigo invisível”, e que os inimigos invisíveis “são os mais duros dos inimigos”. Porém, Trump também se refere ao vírus como “vírus chinês”, por ele ter sido registrado pela primeira vez na província de Hubei, na China, em 2019.

    O cruzamento das figuras de linguagem bélicas com as repetidas menções nominais à China agregam um elemento particular ao uso que Trump faz da ideia de guerra. Entre todos os líderes, ele é o único que sobrepõe – ainda que indiretamente – a palavra “guerra” à menção nominal a um país, o que desgasta ainda mais a relação entre as duas potências.

    Na França, em contraste, a menção feita por Macron foi mais voltada para a necessidade de coesão nacional e sacrifício. “Nós estamos em guerra”, disse o presidente francês em seu pronunciamento de 17 de março, ao decretar o confinamento dos franceses por pelo menos 15 dias.

    Assim como Trump, Macron também falou na luta contra “um inimigo invisível”, que demandava uma “mobilização nacional”. De acordo com ele, “jamais a França tomou essas decisões em tempos de paz”.

    Dos três, Merkel foi a mais leve. Ela preferiu falar em “tarefa” e “desafio”, em vez de falar em “guerra”. O termo bélico só apareceu, ainda assim sutilmente, quando Merkel disse: “desde a Reunificação, ou melhor, desde a Segunda Guerra Mundial, nosso país não enfrentava um desafio que colocasse à prova de tal maneira a nossa ação solidária coletiva.”

    A menção à Segunda Guerra, no caso da Alemanha, é especialmente importante, pois o país, então sob comando de Adolf Hitler, saiu derrotado e humilhado do conflito, amargando um dos períodos econômicos mais difíceis de sua história, marcado também por uma unânime condenação moral.

    Não guerra, mas guerrilha

    “Mais que uma guerra, é uma guerrilha”, disse Sylvie Briand, diretora do Departamento de Preparação Mundial para Riscos Infecciosos da OMS (Organização Mundial da Saúde) em entrevista publicada no dia 19 de março – na sequência, portanto, das falas de Trump, Macron e Merkel.

    No mesmo dia em que, em Washington, Trump prometia uma “vitória total contra o vírus”, Briand dizia, em Genebra, que “é impossível parar a transmissão”, a não ser em zonas geográficas muito restritas.

    “Nós não somos um exército”, disse Briand em relação à OMS ao explicar para o entrevistador do jornal francês Le Monde a razão pela qual a organização não impunha suas determinações aos diferentes países do mundo. “Não podemos obrigar todos a marchar juntos.”

    Ela considera que os diferentes países devem adotar uma estratégia de guerrilha e não de guerra porque é preciso “ser leve, tomar decisões rapidamente e ser capaz também de mudar de estratégia muito rápido assim que percebermos que algo não funciona”.

    Nem guerra, nem guerrilha

    Pelo menos dois artigos de pessoas muito menos conhecidas que os presidentes dos EUA, da França e da Alemanha, ou mesmo que a diretora da OMS, refutaram com relativo destaque a ideia belicista que a pandemia inspira.

    Como ocorre frequentemente nas redes sociais, essas postagens “viralizaram” em tempos de pandemia, oferecendo uma visão alternativa para os tempos que estamos vivendo.

    Um deles é da médica francesa chamada Sophie Mainguy, que escreveu um texto rebatendo diretamente o discurso “de guerra” usado por seu presidente, Emmanuel Macron.

    Como médica, Mainguy considerou as medidas anunciadas por Macron “perfeitamente adaptadas” à necessidade do contexto, mas ela refutou a necessidade de colocar tudo sob “um prisma de defesa e de dominação”.

    “Não existe um inimigo. Há um outro organismo em pleno fluxo migratório e nós temos de nos deter a fim de que nossos cursos não se choquem mais adiante”, disse Mainguy. “Estamos na faixa de pedestres, mas o sinal está vermelho para nós”.

    “As formas de vida que não servem a nossos interesses – e quem poderá dizer? – não são nossas inimigas. Os humanos não são a única força deste planeta”, ponderou a médica francesa. “Não é uma guerra. É uma lição de humildade, de interação e de solidariedade.”

    No Brasil, Acácio Augusto, doutor em ciência política e professor de relações internacionais na Universidade Federal de São Paulo, também apresentou argumentos contra a ideia de que a pandemia merita uma “guerra”.

    Citando o filósofo francês Michel Foucault (1926-1984), Augusto argumentou que o uso da lógica da guerra “justifica o controle total da circulação de pessoas como forma de contenção da contaminação e a necessidade de sacrifício coletivo”. De acordo com ele, “ao insistir na metáfora da guerra, perde-se de saída. Por dois motivos: um ‘técnico’, pois pressupõe que o vírus está fora, quando está dentro. Logo, como conter a ‘invasão’ de algo que já está entre nós e que habita invisível e virtualmente cada um dos corpos?”

    O outro motivo elencado por ele é “ético-político: médicos e demais trabalhadores não são soldados. Mas ao insistir na metáfora da guerra contra um não inimigo (o vírus é invisível e não declarou guerra a ninguém) a conflituosidade social aumenta, fazendo das pessoas reais e visíveis, os reais inimigos.

    O professor considera que ao difundir uma lógica conflitiva para justificar uma mobilização nacional contra um inimigo que, na verdade, não existe, abre-se uma brecha para que as forças do Estado ocupem o espaço repressivo próprio de períodos de exceção, aumentando o risco de que essa força seja dirigida de maneira discricionária contra inimigos de ocasião, sob aprovação de uma população amedrontada e mobilizada pelo medo.

    João Paulo Charleaux é repórter especial do Nexo e escreve de Paris

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