Ir direto ao conteúdo

Por que o coronavírus também é um problema para os mais jovens

Apesar de ser mais perigosa e letal para idosos, a covid-19 também pode atingir e até matar pessoas com menos de 40 anos. OMS alerta para responsabilidade dos jovens na contenção da doença

    É um fato bem divulgado que os idosos são o grupo que corre maior risco com o novo coronavírus. Com um sistema imunológico menos resistente, pessoas acima de 65 anos têm mais chance de desenvolver os sintomas da covid-19, doença causada pelo vírus, e de morrer em consequência dela.

    Na Itália, o país mais atingido pela pandemia do coronavírus, 52% dos pacientes nas UTIs (Unidades de Terapia Intensiva) têm entre 51 e 70 anos, e 36%, mais de 70 anos. A faixa entre 19 e 50 anos é responsável por 12% dos internados.

    O presidente Jair Bolsonaro usou o país europeu como exemplo para afirmar que apenas os idosos deveriam se preocupar com a doença. “O que se passa no mundo tem mostrado que o grupo de risco é o das pessoas acima dos 60 anos, então por que fechar escolas? Raros são os casos fatais de pessoas sãs, com menos de 40 anos de idade. 90% de nós não teremos qualquer manifestação caso se contamine”, disse em pronunciamento na terça-feira (24).

    Para Bolsonaro, essa condição da doença é um argumento contra o estabelecimento de uma quarentena ampla entre a população, que inclui todas as faixas etárias. Segundo o raciocínio do presidente, o Brasil deveria adotar o chamado “isolamento vertical” em que só grupos de risco deveriam permanecer em casa.

    De acordo com o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), as pessoas com 65 anos de idade ou mais representavam 10,5% da população brasileira. São 21,8 milhões de pessoas.

    Internação de mais jovens

    A estratégia do isolamento vertical vai na contramão do que vem sendo recomendado pela OMS (Organização Mundial da Saúde), autoridades de saúde de dezenas de país e secretarias de saúde estaduais brasileiras.

    Além de questionamentos em relação à eficácia do modelo defendido por Bolsonaro, números de diversos países desmentem a ideia de que a covid-19 é um problema só para os idosos. Segundo dados do Ministério da Saúde divulgados na quinta-feira (26), é alto o número de pessoas entre 30 e 49 anos entre os casos graves registrados no país. São 110 ocorrências de um total de 391 casos, o que dá aproximadamente 28% do total.

    Cerca de 80 dos infectados em condição grave tinham entre 60 e 69 anos e 70, entre 70 e 79 anos. O país contabilizava 77 mortes e 2.915 casos na quinta-feira (26).

    Pessoas em idades mais jovens também correm risco. Em 21 de março, Gabriel Martinez, de 26 anos, morreu com suspeita de covid-19 no Rio de Janeiro. A mãe entrou em contato com diversos laboratórios na tentativa de realizar um teste para comprovar a doença, mas foi informada de que não havia kits disponíveis.

    “Só tenho forças para conversar com a imprensa porque quero alertar para que as pessoas saibam que o vírus não mata só os idosos ou as pessoas com doenças”, afirmou a mãe ao site G1.

    De acordo com Willem van Schaik, professor do Instituto de Microbiologia e Infecção da Universidade de Birmingham, no Reino Unido, em entrevista à BBC News Brasil, é “muito errado pensar que aqueles abaixo de 50 anos sempre vão ter sintomas leves: haverá indivíduos mais jovens e muito doentes também e eles vão precisar de tratamento”.

    Na sexta-feira (20), o diretor-geral da OMS, Tedros Ghebreyesus, afirmou em entrevista coletiva que os jovens não são “invencíveis” e que estão sujeitos à hospitalização e até morte por causa do novo coronavírus.

    Nos Estados Unidos, um levantamento do CDC (Centro de Controle e Prevenção de Doenças), do governo federal, mostrou que cerca de 20% das pessoas hospitalizadas com coronavírus nos Estados Unidos têm idades entre 20 e 44 anos. O CDC analisou 2.500 pacientes no país, dos quais 508 foram hospitalizados. Desse total ainda, 18% tinham entre 45 e 54 anos e 26%, entre 65 e 84.

    O que a Coreia ensina

    É da Coreia do Sul que vem a informação mais precisa sobre o alcance do novo coronavírus entre as populações de idade menor. O país asiático é o que mais testou pessoas para o vírus entre sua população. Nesta quinta-feira (26), segundo informações do KCDC (Centro da Coreia de Prevenção de Doenças), já haviam sido realizados mais de 364 mil testes.

    Graças à amplitude da testagem, é possível um retrato mais preciso do comportamento do coronavírus. Entre os 9.241 casos registrados no país, 27,14% tinham entre 20 e 29 anos (na Itália, que testou muito menos, eram 3,7% dos pacientes nessa faixa etária). Pessoas entre 30 e 39 anos infectadas na Coreia equivalem a 10,33%. Entre as idades de 50 e 79 anos, estavam 38% dos casos.

    No entanto, os jovens coreanos contaminados apresentaram letalidade quase nula. Dos zero aos 29 anos, não havia nenhum óbito registrado. Entre 30 e 49 anos, a letalidade foi de 0,76%. Nas duas décadas mais idosas, 70-79 e acima de 80, as taxas pulam para, respectivamente, 31,30% e 44,27%.

    Os números coreanos expõem um cenário em que jovens portam o novo coronavírus, mas sobrevivem a ele. São capazes, no entanto, de transmiti-lo a outros. O diretor-geral da OMS lembrou que, ainda que não exibam sintomas da covid-19, o comportamento dos jovens têm impacto na saúde pública. “Mesmo que não fique doente, as escolhas que faz sobre onde ir podem fazer a diferença sobre a vida ou a morte de outra pessoa”, afirmou.

    Os dados da Itália corroboram esse quadro. Entre os que morreram vítimas da doença na Itália, 83% tinha mais de 60 anos de idade. Por outro lado, a taxa de mortalidade entre 19 e 50 anos é de cerca de 1%.Todos os dados são do Ministério da Saúde italiano.

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.