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O papel dos filhos de Bolsonaro na radicalização do discurso do pai

Em disputa por narrativa própria, Flávio, Carlos e Eduardo engrossam coro contra isolamento social pelo país. Irmãos têm divulgado vídeos e notícias fora de contexto

    Os três filhos do presidente Jair Bolsonaro que exercem cargos políticos intensificaram sua atuação junto ao pai durante a pandemia do novo coronavírus. Flávio, Carlos e Eduardo têm, a exemplo do presidente, radicalizado o discurso que tenta minimizar os impactos da doença.

    O principal ponto levantado pelo grupo é o impacto econômico das quarentenas decretadas por governadores pelo país. O Ministério da Economia, que inicialmente previa um crescimento de 2,1% do PIB (Produto Interno Bruto) em 2020, refez as contas e zerou a expectativa de crescimento para 0,02%. Mas há quem projete perdas de até 4,4%.

    Na tentativa de firmar uma narrativa própria, Bolsonaro e os filhos vêm culpando os governadores e a imprensa pelo que chamam de clima de “histeria” no Brasil. Num pronunciamento elaborado com participação do filho Carlos, segundo a agenda oficial, o presidente pediu na terça-feira (24) que o país voltasse à normalidade. Os governadores se reuniram, ignoraram seu discurso e mantiveram as medidas de fechamento de escolas e de parte do comércio considerado não-essencial.

    Enquanto o presidente e seus filhos buscam mobilizar suas redes em defesa do governo, Bolsonaro vem perdendo apoio de antigos aliados como o governador de Goiás, Ronaldo Caiado, e a deputada estadual por São Paulo, Janaina Paschoal, além de enfrentar panelaços diários em bairros ricos das capitais, regiões onde venceu as eleições de 2018.

    Flávio e as informações fora de contexto

    O senador e filho mais velho do presidente, que é investigado no Rio de Janeiro sob suspeita de desvio de recursos em seu gabinete quando era deputado estadual, ficou com sua conta no Twitter paralisada por 12 horas por publicar um vídeo antigo do médico Drauzio Varella e violar as regras da empresa.

    O material havia sido divulgado originalmente em 30 de janeiro para acalmar a população sobre os perigos da covid-19. Na época, o Brasil não registrava nenhum caso da doença, e a situação ainda não havia recebido a definição de pandemia pela OMS. Drauzio posteriormente gravou outros dois vídeos alertando sobre a gravidade do surto da doença. Mesmo assim, o senador Flávio Bolsonaro publicou apenas o primeiro vídeo, fora de contexto, minimizando os riscos do vírus. O Twitter apagou a publicação em 23 de março. Na quinta-feira (26), o Youtube também tirou do ar o mesmo vídeo replicado por Flávio.

    Em seus esforços para atacar as quarentenas decretadas pelos estados, o senador também reproduziu um vídeo do empresário Marcelo de Carvalho, dono da RedeTV!, que pede que a medida seja suspensa para não prejudicar a economia brasileira. Flávio tem ironizado ainda a rede Globo, que modificou a programação para incluir programas e campanhas de conscientização sobre as recomendações de autoridades sanitárias, como ficar em casa sempre que possível para evitar a disseminação da doença.

    Em 17 de março, dois dias após o presidente Bolsonaro desrespeitar recomendações do Ministério da Saúde e participar de protestos de apoiadores, Flávio também atacou o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia. Escreveu: "Cabe confirmar com o TSE se Rodrigo Maia foi eleito deputado federal ou presidente do Brasil. Seus ataques diários ao Executivo são uma afronta à democracia, geram instabilidade política, dificultam investimentos e geração de empregos no país". Ao final, falou que o momento era de "união". Maia havia chamado de "atentado à saúde pública" a participação do presidente nos protestos do dia 15 de março.

    Carlos e o 'gabinete do ódio'

    Único entre os irmãos políticos que não exerce cargo público em Brasília, Carlos Bolsonaro, que é vereador no Rio de Janeiro, foi fotografado em reuniões na segunda (23) e terça-feira (24) entre integrantes do governo federal e governadores.

    Ele tem se sentado junto a ministros de Estado durante as discussões sobre as medidas tomadas no combate ao coronavírus. O governo não comenta o seu papel. Segundo o jornal O Globo, como o chefe da Secom (Secretaria Especial de Comunicação), Fábio Wajngarten, está afastado, cumprindo quarentena por ter pego a covid-19, Carlos acabou ocupando sua função. Ele trabalharia ao lado do chamado gabinete do ódio, uma equipe de assessores do Planalto conhecidos por promover ataques virtuais a adversários políticos.

    O pronunciamento de Bolsonaro feito na terça-feira (24), em que ele chama a doença de “gripezinha” e ataca os governadores, foi discutido com Carlos e o tal gabinete antes de ir ao ar, segundo a agenda oficial. O presidente disse, depois, ter escrito sozinho o discurso.

    Carlos e seus irmãos também elaboraram um vídeo divulgado no sábado (21) em que Bolsonaro anuncia a ampliação da produção de cloroquina, medicamento usado contra a malária, por laboratórios do Exército. O remédio está ainda sendo testado em estudos preliminares como possível tratamento contra a covid-19 e não pode ser usado fora dos hospitais sem supervisão médica. Sua eficácia em doentes do novo coronavírus não é comprovada.

    Também é atribuída ao vereador a mudança no discurso do ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta. Elogiado inicialmente por seu trabalho técnico na pasta, por recomendar o isolamento social em casos de sintomas de gripe e condenar aglomerações, o ministro passou a adotar um discurso mais político após pressão de Bolsonaro. Ele passou a criticar os isolamentos impostos pelos estados, chamando-os de precipitados.

    Segundo o jornal O Globo, Carlos teve uma conversa informal com Mandetta para alinhar a comunicação do governo. Depois disso, o ministro passou a sinalizar maior sintonia com o discurso de Bolsonaro.

    Eduardo e a crise com a China

    Cogitado em 2019 pelo presidente e pai como possível indicado ao cargo de embaixador do Brasil em Washington, o deputado federal Eduardo Bolsonaro criou uma crise diplomática com a China ao culpar o país pela pandemia, em 18 de março. A Embaixada da China respondeu chamando as mensagens do filho do presidente de "irresponsáveis", "preconceituosas" e "absurdas".

    Ele negou que tenha ofendido o povo chinês, mas não pediu desculpas pelas mensagens, como exigiu a embaixada chinesa. O presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, desculpou-se em nome dos deputados.

    O vice-presidente Hamilton Mourão, que se mantinha distante depois de ter discutido com Carlos Bolsonaro em 2019, rompeu o silêncio para dizer que as manifestações de Eduardo não representavam a posição do governo.

    "O Eduardo Bolsonaro é um deputado. Se o sobrenome dele fosse Eduardo Bananinha não era problema nenhum. Só por causa do sobrenome. Ele não representa o governo. Não é a opinião do governo. Ele tem algum cargo no governo?", questionou.

    Para contornar a crise, o presidente ligou para o mandatário chinês, Xi Jinping. "Em ligação telefônica com o presidente da China, Xi Jinping, reafirmamos nossos laços de amizade, troca de informações e ações sobre a covid-19, e a ampliação de nossos laços comerciais”, afirmou Bolsonaro no Twitter.

    O deputado tem também publicado notícias descontextualizadas para defender o fim do isolamento social. Na quarta-feira (25), divulgou um texto velho do site El País Brasil que dizia que a Itália havia mudado de estratégia contra o coronavírus. "De olho na economia Itália muda estratégia contra o alarmismo", escreveu.

    O texto, porém, foi publicado em 28 de fevereiro, quando o país europeu tinha apenas 17 mortes. O governo italiano estava preocupado, na época, com a economia do país e, por isso, afrouxou as regras de isolamento. Como os casos explodiram, o país voltou atrás, e endureceu novamente as medidas. Eduardo descontextualizou a informação para defender sua posição anti-quarentena. Quando usuários começaram a reclamar de sua publicação, ele a apagou.

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