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O chef japonês que desenhou as suas refeições durante 32 anos

Tigelas de lámen, ensopados de curry e marmitas aparecem em mais de 1.000 ilustrações de Itsuo Kobayashi, que ganhou exposição no Japão e nos EUA

    Temas

    Muito antes do Instagram, o japonês Itsuo Kobayashi já registrava todas as refeições que fazia. Desde os anos 1980, ex-chef de cozinha mantém uma coleção de caderninhos nos quais desenha tigelas de lámen, ensopados de curry e os mais variados tipos de bentô (marmitinhas de arroz, legumes e carne). As ilustrações hoje somam mais de 1.000 peças.

    Os desenhos se tornaram exposição no Japão e nos EUA. Para o curador da exibição japonesa, Nobumasa Kushino, a perspectiva aérea que Kobayashi usa em seus desenhos permite enxergar em detalhes os pratos e seus ingredientes.

    Ao lado de cada ilustração, o artista escreve em japonês os nomes, preços, logos dos restaurantes e opiniões dos pratos e temperos. A ideia, de acordo com o curador, é que Kobayashi pudesse relembrar a sensação que teve ao comer as iguarias. Para quem contempla as obras, as descrições podem servir para despertar a imaginação gustativa.

    Quem é Itsuo Kobayashi

    Nascido em 1962, Itsuo Kobayashi escreve sobre as refeições que comia desde pequeno. Aos 20 anos, começou a acompanhar as descrições com desenhos.

    O trabalho também contribuiu para alimentar a paixão. Até os 46 anos de idade, ele atuou como chef de cozinha e ajudando em um centro de fornecimento de alimentos para escolas do noroeste de Tóquio.

    Foto: Divulgação/Kushino Terrace
    Bentô com arroz, sushi e outros aperitivos. A ilustração é de toda marmita com a tampa aberta
    Ilustração de uma marmita por Itsuo Kobayashi

    Teve que abandonar as funções quando passou a ter dificuldades para andar devido a uma neuropatia alcoólica, que é causada pelo consumo excessivo de álcool. A condição compromete os nervos periféricos e o obrigou a ficar recluso em casa.

    Foi então que começou a aperfeiçoar as ilustrações, usando a arte como aliada contra a solidão, e também para manter os neurônios sempre em atividade. Também passou a depender mais de entregas de comida de restaurantes e da mãe e, por isso, as marmitas começaram a povoar mais os traços do artista.

    Depois de quase três décadas criando peças diárias, Kobayashi foi descoberto pelo curador da galeria Kushino Terrace em 2014 em uma pequena exibição que reuniu artistas com deficiência. Agora, depois de 32 anos, as obras chegaram aos EUA, onde foram vendidas por até US$ 3.000 na feira Outsider Art, realizada em Nova York.

    Nos últimos anos, Kobayashi passou também a desenvolver cartões pop-up, aqueles em que as figuras levantam e parecem saltar aos olhos do observador ao abrir uma página.

    A arte japonesa de arrumar pratos de comida

    Parte da beleza das composições de Kobayashi se deve também à arrumação dos próprios pratos de comida. No Japão, essa é uma tradição antiga que recebe o nome de moritsuke (do japonês, “servir”).

    As técnicas remontam ao século 17, quando surgiram as primeiras escolas de etiqueta voltadas especialmente para preparação e apresentação da comida. No Japão moderno, as regras já estão tão enraizadas na cultura que a intuição guia a montagem dos pratos.

    Um dos principais conceitos é o de potencializar o uso de espaços vazios. A regra geral é que nenhum prato esteja completamente coberto por comida.

    Os arranjos também são pensados de acordo com o propósito da refeição, a época do ano ou pelas imagens que se quer evocar. Por exemplo, o cozinheiro pode posicionar a comida no canto da tigela, simulando uma montanha envolta por nuvens; dispor fatias de peixe em formato de ventilador, sugerindo o movimento de ondas no mar; ou equilibrar pirâmides de sushi, insinuando pilhas de pedra de rituais.

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