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Como Djonga se tornou um fenômeno do rap brasileiro

O ‘Nexo’ conversou com o rapper de 25 anos sobre sua carreira, a produção de seu novo álbum,  “Histórias da Minha Área”, e seu intenso ritmo de lançamentos

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    A imagem mostra uma viela de comunidade com nove figuras. Quatro estão em pé, vestidas com camisas de time de futebol. As mesmas quatro aparecem também caídas no chão, entre manchas de sangue, como se mortas. No meio, o rapper Djonga, sentado, sorridente.

    Quando a capa de seu novo álbum “Histórias da Minha Área” apareceu na internet como aperitivo do lançamento, a comoção nas redes sociais foi grande. No Instagram do rapper de Belo Horizonte a imagem ganhou 420 mil curtidas.

    Aos 25 anos, o mineiro Gustavo Pereira Marques, é um dos grandes fenômenos do rap brasileiro dos últimos anos. Seus números na internet comprovam seu alcance. Djonga tem 1,8 milhão de ouvintes mensais no Spotify (é quase o mesmo número que o veterano Emicida, que tem 1,9 milhão). No YouTube, seu canal tem 1,13 milhão de inscritos.

    No ano passado, a Apca (Associação Paulista dos Críticos de Arte) escolheu Djonga como “artista do ano” em sua eleição anual, graças ao impacto obtido por seu terceiro álbum, “Ladrão”, que saiu em março de 2019.

    O Nexo conversou com o rapper por telefone em 17 de março e lista abaixo alguns dos aspectos mais expressivos do trabalho de Djonga.

    As imagens das capas

    Na entrevista, Djonga não quer falar sobre o conteúdo ou o impacto da capa de “Histórias da Minha Área”. “Nunca falei sobre nenhuma capa minha, todas elas conversam sozinhas, falam por si só. Eu quero que vocês pensem aí”, desafiou. Para o rapper, é um dos elementos mais importantes da sua obra. “É o que chega primeiro, a imagem é o que alcança primeiro nosso cérebro, na velocidade da luz”.

    No disco anterior, “Ladrão”, outra imagem com camadas múltiplas de significado foi escolhida para a capa. O rapper aparece ensanguentado, com expressão algo maníaca, segurando um capuz da Ku Klux Klan, também encharcado de sangue. Ao lado, em um sofá, sua avó aparece sentada com ar sereno.

    O ritmo de lançamentos

    “Histórias da minha área” é o quarto álbum de Djonga. Desde 2017, o rapper lançou um álbum por ano. Começou com “Heresia”. Um ano depois, veio “O Menino que Queria Ser Deus”. Posteriormente, “Ladrão” e “Histórias da Minha Área”.

    Ao contrário de muitos compositores, Djonga não tem uma grande gaveta de músicas que permite manter esse cronograma anual de álbuns. “Vai acontecendo entre um ano e outro, e é muito importante que seja assim. Uma semana depois do lançamento de ‘Ladrão’, já decidi fazer o álbum novo”, afirmou. “Lanço todo dia 13 pra provar pra tu / Que um raio cai de novo no mesmo lugar”, decretou na música “Otro Patamá”, do novo álbum.

    Foto: Reprodução
    historias da minha area
    Capa do quarto álbum de Djonga

    O título surgiu quando percebeu que as letras estavam quase sempre abordando sua área e seus amigos. “Minha área é como a maioria das áreas do Brasil. É a Zona Leste de BH. Foi lá que vi o melhor jogador de futebol da minha vida, que vi vários músicos foda, pessoas inteligentes, a maioria não deu certo nessas coisas, infelizmente. A maioria é trabalhadora. É também onde eu mais vi rapaziada com disposição para as coisas erradas. Muitos fizeram sua passagem para outra vida mais jovens do que deveriam. Essa é a minha área”, conclui.

    Palavras fortes

    Djonga se destacou por temas e interpretações que obrigam o passante a parar e prestar atenção. Uma música sua de 2017, “Olho de Tigre”, gerou a frase-meme “Fogo nos Racistas”, trecho da letra. O vídeo da música contava com mais de 16 milhões de visualizações em março de 2020.

    Um título como “Ladrão” devolve a acusação a quem, historicamente, o usou para estereotipar e segregar. Na faixa “Hat Trick”, que abre o álbum de 2019, Djonga dispara “Desde pequeno geral te aponta o dedo / No olhar da madame eu consigo sentir o medo / Você cresce achando que é pior que eles / Irmão quem te roubou te chama de ladrão desde cedo / Ladrão / Então peguemos de volta o que nos foi tirado".

    Em “O Cara de Óculos”, que abre o novo disco, Djonga elenca referências de sua pré-adolescência. “Consciência social era roubar playboy / Dividir o lanche, dividir marola”, discorre. “Não Sei Rezar”, outra do mesmo álbum, recorda o “finado Joquinha”, que resolveu se vingar de um tapa que levou no rosto. “Então reuniu os mais brabo, o mano era sem palavra / Mas solução pra ter poder aqui é traficar (é foda)”.

    Assuntos da cabeça

    Como provam trabalhos de Emicida e Baco Exu do Blues, questões de saúde mental adentraram o repertório das letras de rap. A postura prevalente que sempre prevaleceu no gênero, de força e dureza, cedeu espaço para discursos de fragilidade e vulnerabilidade.

    Djonga também transita por esse terreno, mas não gosta das comparações (“eles têm as questões deles, eu tenho as minhas”). “É uma parada que eu vivo. Tenho síndrome do pânico, trato ela desde os 18 anos. Faz uma diferença grande na minha vida essa doença, de certa forma, por isso que eu falo disso”, explicou.

    “A música te ajuda a ter esperança”, fala sobre o papel que compor tem em seu bem-estar. Djonga também recebe reações de fãs sobre a influência positiva de sua obra. “Nos shows, sempre alguém vem falar ‘pô, seu som me tirou da depressão’, afirmou. Quando vai ao shopping, por exemplo, sempre é abordado por admiradores. “A galera que tá trabalhando, que veio de onde vim, a galera do corre, sempre vem falar, pedir para tirar foto”, disse.

    Posicionamento político

    Em novembro de 2019, durante um show no festival Cena 2K19, o rapper confrontou parte do público que xingava o presidente Jair Bolsonaro. “É isso mesmo… mas quem votou nele e está gritando ‘vai tomar no c*’ aqui, e eu descobrir, vou encher de porrada”, lançou.

    Ao Nexo, Djonga declarou que se posiciona principalmente por meio de suas letras e manifestações artísticas. Ele não acha que é um dever do artista encarar o discurso politizado, a não ser que seja espontâneo.

    “Eu pelo menos me sinto na obrigação de me posicionar, mas é delicado. Acho que a vida também não é só se posicionar. Tem hora que as pessoas querem estar de boa, trocar ideia sobre coisas amenas. Isso é um direito também”, disse. Sobre o funk, frequentemente acusado de alienado em comparação ao rap, Djonga relativizou: “Cada um, cada um, mas eu acho que quando o funk fala sobre sexualidade por exemplo, já é uma espécie de posicionamento.”

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