A abordagem contraditória do México para o coronavírus

Presidente estimula mexicanos a sair e consumir, enquanto autoridades de saúde tentam implementar quarentena contra a pandemia

    O México anunciou na quinta-feira (26) a suspensão de todas as ações governamentais consideradas não essenciais. Os funcionários públicos foram orientados a trabalhar de casa, e os chefes de cada repartição pública decidirão o esquema de trabalho de suas respectivas equipes.

    Na segunda-feira (23), o governo já havia lançado uma estratégia para o setor privado e o restante da sociedade, batizada de Jornada Nacional da Distância Saudável. O período de quarentena no país deve durar 28 dias, até 19 de abril, mas as medidas de distanciamento social são apenas sugeridas e recomendadas, não impostas por meio de multas e penas de prisão.

    Ao contrário do que fazem países como Itália e Espanha – os dois líderes mundiais em número de mortes – os mexicanos preferiram adotar uma estratégia intermediária, de interdição minimalista, na tentativa de combater o vírus alterando o mínimo possível o funcionamento da economia e da vida da população.

    A estratégia é calibrada em função dos números atuais, que são relativamente baixos. Mas o que a experiência europeia e chinesa sugerem é que os números, mesmo baixos no início, podem esconder um crescimento exponencial num curto espaço de tempo.

    Até quinta-feira (26), o país registrava seis mortes entre 475 contaminados, ocupando o oitavo lugar em número de casos nas Américas, atrás de EUA, Brasil, Canadá, Equador, Chile, Panamá e Peru.

    Mesmo adotando manobras emergenciais de maneira paulatina, o governo mexicano mostra uma trajetória de mudança gradual em sua atitude, assim como aconteceu nos casos do Reino Unido e dos Países Baixos, que trocaram uma postura mais relaxada por medidas mais estritas.

    A incredulidade de AMLO

    Apenas uma semana antes do início da quarentena, o presidente do México, Andrés Manuel López Obrador, conhecido pela sigla AMLO, desdenhava da pandemia em discursos públicos nos quais abraçava e beijava apoiadores, e recomendava ao povo “seguir a vida normalmente”.

    Enquanto AMLO se esforçava para passar uma impressão de serenidade, o subsecretário de Prevenção e Promoção da Saúde do governo do México, Hugo López-Gatell, debatia-se com as dificuldades concretas de incutir um comportamento responsável na população.

    Estou surpreso de que a mensagem para ficar em casa não tenha sido assimilada, mas que não haja dúvida: a meta é que a maioria das pessoas estejam fora do espaço público para achatar a curva epidêmica do covid-19”, disse López-Gatell na quinta-feira (26).

    O peso do populismo latino-americano

    O vaivém mexicano é em muitos sentidos semelhante ao que ocorre no Brasil, onde diferentes autoridades do governo passam mensagens contraditórias a respeito da estratégia oficial de enfrentamento do coronavírus.

    O presidente Jair Bolsonaro ora aparece com máscara, ora sem máscara na televisão. No pronunciamento de terça-feira (24), falou que a reação dos governadores dos estados tem sido pautada pela “histeria”. No dia seguinte, quarta-feira (25), o vice, Hamilton Mourão, disse que “o presidente se expressou mal” e que “o isolamento e o distanciamento social são importantes”.

    AMLO e Bolsonaro são expoentes do populismo latino-americano. Na ciência política, populistas são definidos assim por duas características principais.

    A primeira delas é a de “apresentar a sociedade dividida em dois grupos: uma elite má, perversa e corrupta; e um povo puro, intacto e bom”, explicou ao Nexo, em 2018, o chileno Cristoval Rovira Kaltwasser, coautor do livro “Populismo: Uma Muito Breve Introdução”. Kaltwasser, que é doutor em ciência política, também explicou que, o que líderes populistas fazem, é “dizer que eles falam por essa grande maioria pura que tem sido silenciada por essas elites”.

    A segunda característica, disse ao Nexo também em 2018 a italiana Nadia Urbinati, autora do livro “Eu, o Povo: Como o Populismo Muda a Democracia”, é a de que o populista “usa os partidos políticos como instrumentos para atingir cargos, fazendo uso de uma linguagem, um estilo, um tipo de propaganda que tem a intenção de ir além dos partidos, alcançando as pessoas das quais eles querem se tornar líderes”.

    Bolsonaro, de extrema direita, foi eleito pelo pequeno PSL, do qual hoje é desfiliado. AMLO, de esquerda, elegeu-se em 2018 pela sigla Morena (Movimento Regeneração Nacional), criado sete anos antes.

    Não deixem de sair. Ainda estamos na primeira fase. Eu os direi quando não for para sair”, disse AMLO diante de uma mesa farta, num restaurante da capital, Cidade do México, em um vídeo no qual tentou passar clima de tranquilidade à população.

    “Nós, mexicanos, somos, por nossa cultura, muito resistentes a todas as calamidades. Nós sempre seguimos adiante. E, nesta ocasião, nós vamos seguir adiante. Nosso povo é herdeiro de culturas milenares, de grandes civilizações, e nisso está nossa fortaleza, não em ‘panicarmo-nos’. Vamos adiante. Não deixem de sair”, conclamou o presidente no vídeo publicado dia 22, apenas um dia antes do início da chamada Jornada Nacional da Distância Saudável.

    João Paulo Charleaux é repórter especial do Nexo e escreve de Paris

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