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O pacote trilionário dos EUA para combater a crise do coronavírus

Senadores chegam a acordo para injetar mais de US$ 2 trilhões na economia americana. Medidas incluem transferência de renda para famílias e aumento dos benefícios para desempregados

    Senadores dos partidos Republicano e Democrata e membros da equipe do presidente americano, Donald Trump, chegaram a um acordo nas primeiras horas da quarta-feira (25) para lançar o maior pacote de estímulos econômicos da história dos EUA. O valor total é consideravelmente maior que o do esforço de 2009, quando o governo injetou aproximadamente US$ 800 bilhões na economia durante a crise financeira. No câmbio atual, o montante apresentado em 2020 pelo governo americano é maior que o PIB brasileiro, que em 2019 foi de R$ 7,3 trilhões.

    US$ 2 trilhões

    é o tamanho do pacote de estímulos acordado no Congresso americano para enfrentar a crise do coronavírus. Pela cotação do dólar de 25 de março de 2020, esse valor equivale e R$ 10,14 trilhões.

    A expectativa do governo americano é de que a medida tenha efeitos consideráveis, gerando mais de US$ 4 trilhões em atividade econômica. O pacote tem diversas vertentes de atuação, que o Nexo destrincha abaixo.

    O que está no pacote

    O pacote, cujo texto ainda não havia sido finalizado e apresentado na manhã de quarta, tem como objetivo ajudar empresas, famílias, o sistema de saúde e os governos locais durante a crise decorrente da pandemia do novo coronavírus.

    Segundo a agência de notícias Reuters, cerca de US$ 500 bilhões seriam destinados a milhões de famílias americanas. Seriam transferidos US$ 1.200 por família, com adicionais de US$ 500 por filho; o limite do benefício seria de até US$ 3.000. O jornal New York Times afirmou que o principal alvo da medida seriam famílias de baixa renda, com rendimentos de até US$ 99 mil por ano.

    Outros US$ 250 bilhões seriam usados para ampliar benefícios aos desempregados. Uma mudança de regras passaria a abrigar profissionais autônomos nos programas – motoristas de aplicativo e trabalhadores freelancers, por exemplo, entram na lista de beneficiários.

    A ideia é que o tempo de duração do seguro-desemprego seja estendido em 13 semanas. Nos EUA, o valor é semanal e, na maioria dos estados, dura por até 26 semanas. O valor semanal do benefício também seria elevado em US$ 600 durante quatro meses.

    Os governos locais também estão abarcados nas medidas, recebendo aportes de cerca de US$ 150 bilhões para o combate à pandemia, no que configura uma mudança no discurso de Trump. Em 16 de março de 2020, o presidente havia orientado os governadores a buscarem equipamento médico por conta própria.

    Saúde e pequenas empresas

    Para as pequenas empresas, a ideia é criar programas de crédito com condições favoráveis e que estimulem a manutenção de postos de trabalho. Serão injetados US$ 350 bilhões nesses negócios na forma de empréstimos. As empresas que mantiverem seus funcionários na folha de pagamentos durante a crise poderão ter as dívidas com o governo perdoadas.

    A ideia dessa medida é garantir a liquidez das empresas menores, mantendo dinheiro circulando por meio de empréstimos com bons termos. Ao mesmo tempo, o governo incentiva a manutenção de empregos, garantindo que as pessoas tenham renda e consigam se manter durante o período de dificuldades da crise. Nos EUA, os pequenos negócios são responsáveis por cerca de metade dos postos de emprego da economia.

    Além das pequenas empresas, o sistema de saúde também é um dos alvos mais importantes do auxílio do governo. De acordo com o líder da minoria democrata no Senado, Chuck Schumer, serão mais de US$ 100 bilhões destinados a hospitais e sistemas de saúde pelos EUA. Além disso, outros bilhões de dólares seriam usados para comprar material médico e hospitalar e também para ampliar o equipamento usado em testes de detecção do novo coronavírus. A agência Reuters fala em um montante de US$ 150 bilhões indo para a saúde ao todo.

    As negociações no Senado

    O pacote ainda prevê a criação de um fundo de US$ 500 bilhões junto ao Federal Reserve, o Banco Central americano, para ajudar as empresas afetadas pela crise. Dentro desse total, US$ 75 bilhões teriam que ir para setores específicos mais atingidos, como transporte aéreo e hotelaria.

    De todos os pontos do pacote, o socorro às grandes empresas foi onde os parlamentares mais tiveram dificuldades de chegar a um acordo. Isso porque a crise de 2008 veio à tona: tanto senadores republicanos como democratas afirmaram que o pacote feito para ajudar as empresas à época beneficiou corporações sem contrapartidas para trabalhadores e famílias americanas.

    A pressão, vinda principalmente do lado Democrata da mesa, levou à criação de uma comissão de representantes para fiscalizar o fundo de US$ 500 bilhões e os empréstimos feitos. Além disso, os democratas conseguiram incluir uma cláusula para que nenhum membro do governo possa receber auxílio pelo fundo. Isso inclui os empreendimentos do presidente do país, o empresário Donald Trump.

    Incluídas as exigências dos opositores do governo, o líder da maioria republicana no Senado anunciou a finalização das negociações, na quarta-feira (25).

    “Finalmente, temos um acordo. Em efeito, este é um investimento de nível de tempos de guerra na nossa nação”

    Mitch McConnell

    senador por Kentucky e líder da maioria republicana no Senado, após o término das negociações

    A ideia é que o pacote seja aprovado rapidamente no Congresso americano. Primeiro, o texto passará pelo Senado e depois pela Câmara, antes de ir para sanção do presidente Trump.

    A covid-19 nos EUA

    Nos EUA, o número de casos confirmados de pessoas infectadas pelo novo coronavírus ultrapassou 50 mil na terça-feira (24), com mais de 700 mortes registradas. Os novos casos já são superiores a 10 mil por dia, e o sistema de saúde começa a dar sinais de sobrecarga.

    O local mais atingido pela doença nos EUA é a cidade de Nova York e seus arredores, onde mais de 25 mil casos haviam sido registrados até terça. A região é responsável por cerca de metade dos diagnósticos em solo americano. O governador do estado de Nova York, o democrata Andrew Cuomo, ordenou o fechamento de estabelecimentos que não trabalham com bens e serviços essenciais e pediu ajuda ao governo federal para a compra de materiais médicos e hospitalares.

    Com a rápida disseminação do vírus nos EUA, a OMS (Organização Mundial da Saúde) disse que o país pode se tornar o novo epicentro da pandemia. Em 13 de março de 2020, o epicentro deixou de ser a China e passou a ser a Europa, mas isso pode mudar se os casos continuarem acelerando nos Estados Unidos. Segundo a OMS, entre os novos registros de infectados, 85% estão na Europa ou nos EUA.

    A comparação com o Brasil

    No Brasil, onde o vírus chegou depois dos EUA, os novos casos de pessoas com covid-19 aumentam diariamente. Os registros mostram menos infectados que nos EUA – até 24 de março o número oficial era de 2.281 casos no Brasil –, mas a contaminação se dá a uma taxa alta. Nos dois países, o número de casos confirmados são provavelmente menores do que os reais, devido aos limites da capacidade de testes.

    Enquanto a doença se espalha e o presidente Jair Bolsonaro contesta as orientações das autoridades sanitárias, o governo se mobiliza para oferecer suporte à economia.

    Por um lado, o Banco Central e os bancos públicos tomam ações para aumentar a liquidez da economia. Isso significa que há esforços para expandir a disponibilidade de dinheiro nos mercados, o que é importante em um momento de crise. O Banco Central, por exemplo, anunciou um pacote que pode aumentar a liquidez em até R$ 1,2 trilhão. O principal canal de ação é o crédito, com ampliação dos recursos disponíveis para os bancos emprestarem às empresas e à população.

    Mas as medidas de liquidez não garantem que a economia será aquecida, apenas que há mais dinheiro ao alcance dos agentes econômicos.

    Outras ações do governo incluem a liberação de R$ 90 bilhões aos estados, o adiamento no recolhimento de contribuições de empresas e o repasse de R$ 5,1 bilhões para a área de saúde. Além disso, o ministro Paulo Guedes fala em criar um voucher de R$ 200 para trabalhadores informais, o que ainda não foi detalhado ou oficializado. Por fim, R$ 20 bilhões serão transferidos das contas dos beneficiários do PIS/Pasep (Programa de Integração Social e Programa de Formação do Patrimônio do Servidor Público), que são semelhantes e costumam ser tratados conjuntamente ao FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço), permitindo o saque pela população.

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