Como a Índia fará a maior quarentena do mundo

Premiê Narendra Modi restringe movimentos no segundo país mais populosos do planeta. Com a medida extrema, um terço da população mundial está confinada

    O primeiro-ministro da Índia Narendra Modi decretou na terça-feira (24) o início de uma quarentena nacional que deve durar três semanas. A ordem coloca 1,3 bilhão de pessoas em casa, numa tentativa de conter a propagação do coronavírus no segundo país mais populoso do mundo.

    Com a adesão do país à medida, o mundo soma 2,6 bilhões de pessoas em quarentena, o que equivale a um terço da população do planeta.

    O anúncio de Modi foi feito enquanto os indianos ainda registram números baixos de contaminação. Até quarta-feira (25), o país contava dez mortos entre 562 casos confirmados. A preocupação do primeiro-ministro é com as projeções de crescimento rápido e com o tempo que a quarentena leva para surtir efeito na curva de propagação do vírus.

    Com a ordem do premiê, o país manterá escolas, creches e universidades fechadas em todo o seu território, além do comércio, com exceção de farmácias e supermercados. As viagens aéreas e terrestres não essenciais também estão proibidas.

    “A única maneira de nos salvarmos do coronavírus é não sairmos de casa. Aconteça o que acontecer, fiquem em casa. Todo distrito, toda rua, toda aldeia ficará em quarentena”

    Narendra Modi

    primeiro-ministro da Índia, em pronunciamento em cadeia de rádio e TV no dia 24 de março de 2020

    Após os registros de casos de contaminação em grandes cidades, médicos indianos começam a manifestar preocupação com o risco de infestação de pequenas cidades e vilarejos, onde o acesso às estruturas vitais de saúde é mais precário.

    Outro ponto de preocupação é a região de Punjab, no norte da Índia, para onde retornaram recentemente 90 mil indianos que estavam viajando por países nos quais há milhares de casos de contaminação. Esses indianos estavam passando férias e visitando parentes no exterior no momento em que a pandemia começou a acelerar.

    Tensão política no meio da pandemia

    Modi é o maior expoente do nacionalismo hindu na Índia, e seu governo é um dos que se alinham à extrema direita populista representada no Brasil por Jair Bolsonaro (com quem Modi reuniu-se em janeiro) e, nos EUA, por Donald Trump (com quem Modi reuniu-se em fevereiro).

    Desde sua reeleição, em maio de 2019, Modi radicalizou o discurso nacionalista, confrontando grupos muçulmanos minoritários e perseguindo professores universitários, jornalistas e políticos de oposição acusados por ele de serem, todos, ativistas de esquerda que se opõem ao seu governo.

    Ao tenso ambiente político no país, soma-se agora também o risco de que a pandemia se alastre. Uma das consequências imediatas da quarentena é a proibição de todas as reuniões e eventos públicos na Índia, o que inclui comícios políticos da oposição.

    No dia em que a quarentena foi decretada, a polícia dispersou uma concentração de opositores de Modi na capital, Nova Déli. O grupo estava acampado há meses no bairro de Shaheen Bagh para protestar contra a lei que dificulta a obtenção de nacionalidade indiana por membros da minoria muçulmana no país.

    Na cidade de Meerut, a polícia estava detendo pessoas que desobedeciam a quarentena. Após detidas, essas pessoas eram fotografadas na delegacia. Diante delas, eram colocados pequenos cartazes nos quais estava escrito: “Sou inimigo da sociedade. Sou amigo do coronavírus.”

    Três potências regionais

    A Índia é – assim como o Brasil, a Rússia e a África do Sul – um caso a ser acompanhado na propagação do vírus. Esses países, grandes e populosos, fazem parte de um grupo de potências regionais que integram o mesmo grupo, chamado Brics, nome cujo acrônimo é formado pelas iniciais dos países-membros.

    Como são nações grandes, populosas e influentes em seus entornos, a adoção de políticas sanitárias nacionais pode ter, nesses contextos, um poder irradiador para países do entorno. O desempenho de grandes países em desenvolvimento ao lidar com a crise também pode servir de laboratório para a onda da pandemia que deve atingir em breve o continente africano.

    Apesar das semelhanças políticas e demográficas entre os membros dos Brics, líderes desses países têm adotado posturas diferentes diante da pandemia. Bolsonaro, no Brasil, é um caso único. O presidente brasileiro defendeu na terça-feira (24) que as crianças voltem para a escola e que as empresas voltem a funcionar normalmente. O Brasil tinha 2.271 casos registrados até quarta-feira (25).

    Vladimir Putin, presidente da Rússia, país que tinha 658 casos registrados até quarta-feira (25), admitiu que a crise é grave e que o governo não tem uma ideia precisa do número de contaminados pelo vírus.

    Já a África do Sul corre contra o tempo para implementar medidas capazes de frear a expansão dos casos. O país lidera os registros em todo o continente africano, com 402 pessoas contaminadas, mas sem casos de morte.

    João Paulo Charleaux é repórter especial do Nexo e escreve de Paris

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