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Como Mandetta se posiciona diante da atitude do chefe na pandemia

Pressionado a adotar discurso político, ministro da Saúde endossa falas de Bolsonaro, evita comentar estratégia defendida pelo presidente e pede união a governadores e prefeitos no combate ao novo coronavírus

    Depois de o presidente Jair Bolsonaro fazer um discurso minimizando a gravidade da pandemia do novo coronavírus e contrariando recomendações de autoridades sanitárias, na noite de terça-feira (24), o ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta ficou em situação complicada.

    A fala do presidente desencadeou uma crise entre governadores e outros políticos, que criticaram fortemente a atitude. Responsável pela condução da estratégia do governo federal de contenção da covid-19 no Brasil, Mandetta não se pronunciou sobre o discurso do chefe até o boletim diário de atualização de dados da doença, na tarde de quarta-feira (25). Na ocasião, endossou falas do presidente e evitou comentar os pontos mais contestados por especialistas, como a estratégia aventada por Bolsonaro de isolar apenas idosos do resto da população.

    Desde que a epidemia do coronavírus se mostrou uma ameaça ao redor do mundo, Mandetta vinha sendo elogiado por sua atuação na pasta, enquanto Bolsonaro minimizava a questão. Nos últimos dias, o discurso do ministro vem se tornando mais alinhado ao do presidente.

    Quem é o ministro da Saúde

    Luiz Henrique Mandetta, de 55 anos, é médico ortopedista. Foi secretário municipal de Saúde de Campo Grande, sua cidade natal, e deputado federal por dois mandatos, pelo DEM de Mato Grosso do Sul. Também presidiu a Unimed de Campo Grande entre 2001 e 2004.

    Foi na Câmara dos Deputados que Mandetta conheceu Bolsonaro. Os dois fizeram oposição ao governo da presidente Dilma Rousseff (PT). O atual ministro foi contra o programa Mais Médicos, cujo fim chegou a ser anunciado no governo Bolsonaro, mas que continua funcionando.

    Sua atuação no governo federal era discreta até a pandemia do novo coronavírus. O ministro previu 20 semanas extremamente duras" no Brasil contra a doença e chegou a dizer que o sistema de saúde entraria em colapso no final de abril caso o isolamento não fosse respeitado. Para o ministro, a curva de transmissão, com pico até junho, só teria queda brusca no país em setembro.

    Mandetta passou a ser elogiado por seu trabalho, o que incomodou Bolsonaro. O presidente ficou insatisfeito por ele ter aparecido em evento ao lado do governador de São Paulo, João Doria, seu adversário político, em 13 de março. Em 16 de março, o ministro também foi a uma reunião com o presidente do Supremo, Dias Toffoli, e os presidentes da Câmara e Senado, Rodrigo Maia e Davi Alcolumbre, respectivamente, para discutir ações contra o vírus, sem a presença de Bolsonaro.

    Uma pesquisa Datafolha divulgada em 23 de março mostrou que a aprovação de Mandetta em relação ao combate ao vírus (55% de bom e ótimo) era superior à de Bolsonaro (35% de bom e ótimo).

    As sucessivas manifestações do presidente têm contrariado as posições de Mandetta. O Ministério da Saúde recomenda o isolamento de pessoas – o protocolo prevê que elas fiquem 14 dias em casa caso tenham sintomas leves de gripe se estiverem em regiões com transmissão sustentada ou comunitária (sem que se saiba a origem da transmissão).

    Governadores e prefeitos ao redor do Brasil têm adotado medidas mais restritivas de quarentena para diminuir a circulação de pessoas e tentar conter a propagação do vírus, como fechamento de comércio não-essencial e proibição de aglomerações em locais públicos. A mensagem geral tem sido de que as pessoas devem ficar em casa o máximo que puderem.

    Essas medidas têm sido usadas por vários países na tentativa de conter a expansão da doença respiratória que mata de 3% a 4% dos infectados no mundo. A letalidade aumenta em pessoas com mais de 60 anos e que já possuem outras doenças, como diabetes e hipertensão.

    73%

    dos brasileiros consideram medidas duras como quarentenas necessárias e desejadas para conter o novo coronavírus, segundo pesquisa Datafolha de 23 de março

    Os atos do dia 15

    Um dos episódios mais simbólicos da confusão dentro do governo ocorreu em 15 de março, quando apoiadores do presidente foram às ruas de todo o país em protesto contra o Congresso e o Supremo Tribunal Federal. Bolsonaro havia incentivado os atos, mas dias antes chegou a recomendar em um pronunciamento que eles fossem repensados por conta da doença. Mesmo assim, quando a manifestação ocorreu, o presidente saiu às ruas e tirou fotos com apoiadores. Ele havia voltado de uma viagem aos Estados Unidos em que membros de sua comitiva tinham sido infectados.

    Mandetta já havia dito para que quem estivesse gripado não fosse aos protestos. No mesmo dia em que foram realizados, afirmou que a orientação do ministério era não realizar aglomerações. “Quem não está em transmissão sustentada hoje, daqui a uma semana pode estar, daqui a duas vai estar. Quanto mais rápido tiver transmissão, maior vai ser a necessidade de determinação de paralisação. É ilegal? Não. Mas a orientação é não. E continua sendo não para todo mundo”, afirmou em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo.

    Ao ser questionado sobre o episódio específico envolvendo o presidente, o ministro desconversou e disse apenas que era uma orientação que não era cumprida por todos ao mesmo tempo. “Eu não determino a proibição”, disse.

    O pronunciamento do presidente

    No pronunciamento de terça-feira (24), Bolsonaro chamou de histeria as medidas tomadas no país para conter a pandemia do novo coronavírus, atacou os governadores e a imprensa pela situação, questionou o fechamento de escolas e pediu uma volta à normalidade. Também voltou a classificar a covid-19 como uma gripezinha".

    A fala de Bolsonaro na terça-feira (24), que pediu para que o país voltasse à normalidade, causou reação de políticos. Entre os mais duros em suas críticas está o governador de Goiás, Ronaldo Caiado, que é médico e era um dos principais apoiadores de Bolsonaro. Ele decidiu romper com o presidente após o pronunciamento. As decisões do presidente da República, no que diz respeito à saúde pública, não alcançarão Goiás! No momento em que o mundo pede socorro, se une ao combate contra o coronavírus, vem em rede nacional lavar as mãos, responsabilizar outras pessoas por eventual colapso em nosso país", disse em sua conta no Twitter.

    Caiado, que pertence ao DEM, foi quem indicou o nome de Mandetta, seu colega de partido, para o Ministério da Saúde. Durante o dia, acreditou-se que o ministro deixaria a pasta.

    Em entrevista na tarde de quarta-feira (25), Mandetta disse que só sairia do cargo se fosse demitido, se ficasse doente ou se achasse que não seria mais útil no combate ao coronavírus.

    Ele assumiu uma posição dúbia em relação ao pronunciamento de Bolsonaro. Elogiou o presidente por ter alertado que era preciso pensar na economia". Reafirmou que o ministério continuará se pautando por critérios técnicos e pela ciência. Mas criticou as quarentenas impostas por governadores, dizendo que elas foram precipitadas, tomadas cedo demais e que deveriam ser feitas de maneira mais organizada.

    Ele defendeu critérios de quarentena baseados em patamares de números de casos de cada estado. As medidas seriam tomadas de acordo com o avanço da doença. Antes de adotar o fecha tudo, existe a possibilidade de trabalhar por bairro, existe a possibilidade de fazer redução em determinados aparelhos", disse. O ministro chegou a defender a abertura de igrejas, mas sem aglomerações.

    De manhã, Bolsonaro havia dito que conversaria com Mandetta para estabelecer o isolamento vertical, quando apenas pessoas que se enquadram nos grupos de risco ficam isoladas, enquanto as demais seguem a vida normalmente. A estratégia é contestada por epidemiologistas pelas dificuldades de implementação e incerteza da sua eficácia para conter o vírus. O ministro chegou a comentar diferentes estratégias de isolamento, citando a proposta do presidente, mas não a defendeu nem a recomendou diretamente.

    2.433

    casos da doença foram registrados no Brasil em 25 de março

    57

    era o número de mortes na mesma data, segundo o Ministério da Saúde

    2,4%

    era a taxa de letalidade da covid-19 no país

    Discurso político

    Após os atos de 15 de março, Bolsonaro já vinha cobrando que seu ministro adotasse um discurso político e mais alinhado ao Planalto. Há temor de que os efeitos econômicos de medidas restritivas de isolamento possam prejudicar as pretensões de Bolsonaro ao tentar se reeleger nas eleições de 2022.

    Na terça-feira (24), Mandetta já havia declarado que o travamento completo do país seria péssimo para a saúde. Eu continuo precisando de pré-natal. Tem médico fechando consultório. Daqui a pouco, eu estou lá cuidando de um vírus e cadê o meu pré-natal? Cadê o cara que está fazendo a quimioterapia? Cadê o pessoal que está precisando fazer o diagnóstico? Cadê as clínicas de ultrassom?", afirmou.

    “Vimos muitas tomadas de decisões em âmbitos municipais que não guardam nenhuma correlação com o momento que a cidade está passando. Vimos prefeitos que falaram: ʽVou interromper o sistema de ônibus'. Aí os profissionais de saúde não conseguiram chegar. Vimos alguns lugares: ʽInterrompa, faz quarentena'. Mas a fábrica que faz o ventilador não consegue que o trabalhador chegue”

    Luiz Henrique Mandetta

    ministro da Saúde, em entrevista no domingo (22)

    O uso da cloroquina

    A utilização da cloroquina e de um derivado, a hidroxicloroquina, no tratamento aos doentes da covid-19 tem sido defendida por Bolsonaro mesmo sem confirmação científica de sua eficácia. Há riscos por conta dos efeitos colaterais do remédio, que é usado para outras doenças, como a malária.

    No domingo (22), um dia depois de Bolsonaro defender o tratamento em vídeo, o Ministério da Saúde recomendou que a população brasileira não usasse o medicamento.

    Bolsonaro voltou a defender o remédio no pronunciamento de terça-feira (24). No dia seguinte, o Ministério da Saúde afirmou que o tratamento ficaria a disposição de médicos para pacientes graves. A pasta irá distribuir 3,4 milhões de unidades do medicamento para os estados, como uma alternativa. Mas manteve o alerta para que as pessoas não usassem a droga fora do ambiente hospitalar, por não ser seguro.

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