Ir direto ao conteúdo

A reação das redes e de políticos ao pronunciamento de Bolsonaro

Críticas dominaram resposta, segundo monitoramento de mensagens. Fala do presidente foi na contramão das recomendações de isolamento social para conter o coronavírus

    O presidente Jair Bolsonaro fez um pronunciamento em rede nacional de rádio e TV na noite de terça-feira (24).

    A fala minimizou, mais uma vez, a crise causada pela pandemia do novo coronavírus. Em seu discurso, o presidente criticou as medidas de isolamento social, recomendadas por autoridades sanitárias e adotadas por iniciativa de estados e municípios ao redor do país.

    “Algumas poucas autoridades estaduais e municipais devem abandonar o conceito de terra arrasada, a proibição de transportes, o fechamento do comércio e o confinamento em massa”, disse o presidente.

    Na sequência, Bolsonaro defendeu o retorno das aulas em escolas. “O que se passa no mundo tem mostrado que o grupo de risco é o das pessoas acima dos 60 anos. Então, por que fechar escolas?”, questionou.

    A comunidade médica demonstra, com evidências, que o isolamento social é uma medida efetiva para evitar que o vírus chegue até as populações mais vulneráveis. Apesar de a covid-19 não ter uma alta taxa de letalidade na população geral, ela pode chegar a 15% entre os mais velhos. O vírus é transmitido facilmente, o que sobrecarrega os sistemas de saúde públicos e privados.

    Posicionamento reforçado

    Na manhã de quarta-feira (25), Bolsonaro reforçou seu posicionamento, em entrevista concedida na saída do Palácio da Alvorada.

    O presidente afirmou que vai propor um “isolamento social vertical”, o que manteria em quarentena apenas pessoas do grupo de risco – idosos e indivíduos com doenças crônicas. Disse também que tais medidas não teriam participação efetiva do governo.

    “Eu tenho o poder de pegar cada idoso e levar para um lugar? É a família dele que tem que cuidar dele num primeiro lugar. O povo tem que parar de deixar tudo nas costas do poder público. Aqui não é uma ditadura, é uma democracia”, disse.

    Bolsonaro voltou a dizer que medidas generalizadas de isolamento social prejudicam a economia do país, direcionando críticas a João Doria (PSDB), governador de São Paulo, e Wilson Witzel (PSC), governador do Rio de Janeiro. Em uma videoconferência com governadores do Sudeste na manhã de quarta, voltou a atacá-los por suas medidas.

    Também na manhã de quarta-feira, Bolsonaro publicou em suas redes sociais um áudio, cuja autoria é desconhecida, de alguém que afirma estar em um pronunciamento feito pelo presidente americano Donald Trump na terça-feira (24). O áudio reforça a ideia de que deve-se manter a vida normal durante a pandemia para proteger a economia do país.

    A Secom (Secretaria Especial de Comunicação Social da Presidência da República) abraçou a ideia em suas redes sociais, divulgando a hashtag #OBrasilNãoPodeParar.

    A autoria do pronunciamento

    De acordo com informações de bastidores publicadas na imprensa, o pronunciamento de Bolsonaro não foi escrito junto ao corpo ministerial do presidente, mas sim com o auxílio do chamado “gabinete do ódio”.

    O gabinete do ódio é um núcleo próximo a Bolsonaro que defende que o presidente assuma uma postura mais ideológica e polarizada, a fim de engajar seus apoiadores mais ferrenhos.

    Segundo a Folha de S.Paulo, o vereador Carlos Bolsonaro (PSC-RJ), um dos filhos do presidente, se reuniu com o pai na tarde de terça e teve influência na redação do pronunciamento. O presidente disse que escreveu o texto sozinho.

    O jornal afirma que o tom adotado por Bolsonaro em sua fala é reflexo direto de uma desmobilização de perfis de direita nas redes sociais, que nos últimos dias estariam defendendo menos o presidente de ataques de opositores.

    A ideia do pronunciamento – e do tom sarcástico, especialmente nos ataques à imprensa e aos governos estaduais – seria municiar a base apoiadora de Bolsonaro, que passaria a ter alvos claros para ataques nas redes sociais.

    De acordo com levantamento da Sala de Democracia Digital da Fundação Getulio Vargas, grupos pró-Bolsonaro tiveram um baixo índice de interações nas discussões sobre o coronavírus entre os dias 2 e 24 de março, oscilando entre 6% e 8% de presença nos debates sobre o tema, que foram dominados pela oposição e pelo centro.

    A reportagem da Folha também diz que membros do núcleo militar do governo pediram que Bolsonaro deixasse de lado o tom mais radical, avaliando que a fala poderia fortalecer os discursos dos governos estaduais e desmobilizar ainda mais os apoiadores do presidente.

    Na saída do Palácio da Alvorada na quarta-feira (25), Bolsonaro afirmou que não está preocupado com sua popularidade.

    A resposta nas redes sociais

    No Facebook, Bolsonaro recebeu cinco vezes mais críticas do que apoio por causa do pronunciamento, segundo um levantamento divulgado pelo Monitor do Debate Político. A análise observou as 100 publicações sobre o tema mais compartilhadas na rede social.

    Entre elas, 45% dos compartilhamentos categorizaram o pronunciamento como irresponsável e, em alguns casos, criminoso; enquanto 9% dos compartilhamentos declararam apoio completo aos argumentos de Bolsonaro.

    Na noite de terça-feira (24), as hashtags #BolsonaroGenocida e #ForaBolsonaro chegaram ao topo dos assuntos mais comentados mundialmente no Twitter.

    Mensagens de apoio também foram publicadas por eleitores do presidente após o discurso. “Falou exatamente o que tinha que ser feito”, escreveu um apoiador no Twitter. “Me orgulho do meu voto”, afirmou outro.

    Na manhã de quarta-feira (25), a hashtag #BolsonaroTemRazao começou a se espalhar pelo Twitter, atraindo apoiadores do presidente. Contudo, horas depois, uma parcela significativa das publicações era de opositores, produzindo sátiras e memes relacionados ao pronunciamento.

    Durante o pronunciamento na noite de terça, parte da sociedade civil fez panelaços para se manifestar contra a fala de Bolsonaro. Os protestos se fizeram presentes em cidades de todas as regiões do Brasil. Manifestações desse tipo já vinham ocorrendo desde 17 de março.

    As reações de bolsonaristas

    O pronunciamento mobilizou parte das figuras políticas que apoiam o presidente.

    O deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), um dos filhos do presidente, compartilhou no Twitter uma frase de Trump. “Nós não podemos deixar que a cura seja pior que o problema em si”, afirmou o republicano endossado pelo parlamentar brasileiro, defendendo a ideia de que o isolamento social pode prejudicar a economia.

    Bibo Nunes, deputado gaúcho do PSL, também usou o Twitter para defender a fala de Bolsonaro. “Presidente foi firme na sua fala na TV e passou segurança para todos”, afirmou.

    Na mesma rede social, o deputado Carlos Jordy (PSL-RJ) declarou apoio a Bolsonaro e afirmou que o presidente expôs um suposto pânico coletivo criado pela mídia.

    Também no Twitter, o deputado Marco Feliciano (PSC-SP) apoiou Bolsonaro. “Quando a Inglaterra via em silêncio o avanço nazista, um discordou: [Winston] Churchill; quando a França de [Philippe] Pétain se entregou para o Reich [nazista], um discordou: [Charles] De Gaulle. Quando o sul escravocrata rachou os EUA, um discordou: [Abraham] Lincoln. Ser estadista é ter coragem de tomar o lado certo. Parabéns, presidente”, escreveu Feliciano.

    As condenações

    O presidente do Senado Davi Alcolumbre (DEM-AP) divulgou nota oficial cerca de uma hora após o pronunciamento do presidente, na noite de terça (24). Neste momento grave, o país precisa de uma liderança séria, responsável e comprometida com a vida e a saúde da sua população. Consideramos grave a posição externada pelo presidente da República hoje, em cadeia nacional, de ataque às medidas de contenção ao Covid-19, afirmou Alcolumbre.

    Já o presidente da Câmara Rodrigo Maia (DEM-RJ) usou o Twitter para se posicionar. “Desde o início desta crise venho pedindo sensatez, equilíbrio e união. O pronunciamento do presidente foi equivocado ao atacar a imprensa, os governadores e especialistas em saúde pública”, afirmou.

    Entre os que se posicionaram contra o discurso estão alguns apoiadores de Bolsonaro ou que romperam recentemente com o presidente.

    “Devo minha eleição à força do Bolsonaro, mas ser aliado não é ser alienado. Essa manifestação do Bolsonaro em rede nacional sobre o coronavírus e os impactos para o Brasil foi um verdadeiro desastre”, disse o senador Major Olímpio (PSL-SP) em declaração publicada pela revista Veja.

    “Não tem mais diálogo com esse homem. As coisas têm que ter um ponto final”, afirmou o governador de Goiás, Ronaldo Caiado (DEM), que apoiou Bolsonaro desde a campanha eleitoral e que indicou o médico Luiz Henrique Mandetta para o Ministério da Saúde.

    “O Brasil precisa de um líder com sanidade mental”, escreveu a deputada Joice Hasselmann (PSL-SP) no Twitter. “Irresponsável e oportunista” foram os adjetivos usados pelo deputado Kim Kataguiri (DEM-SP) para definir o pronunciamento de Bolsonaro.

    As medidas de isolamento social

    Todos os estados do país impuseram medidas de restrição para incentivar o isolamento social.

    Em São Paulo desde terça-feira (24), o comércio de todo o estado está fechado, salvo estabelecimentos e serviços essenciais, como farmácias e supermercados. Restaurantes podem operar, mas somente com o serviço de delivery. No Rio de Janeiro, desde sábado (21), estão suspensos os transportes públicos intermunicipais.

    Houve também medidas de nível municipal. A prefeitura de Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul, restringiu a circulação de idosos nas ruas. Pessoas com mais de 60 anos que forem flagradas nas vias públicas pela Guarda Municipal terão de pagar multa de R$ 429.

    A decisão entra em vigor na sexta-feira (26), e a circulação dessas pessoas só é permitida para deslocamentos essenciais, como compras de supermercado e consultas médicas.

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.