Pronunciamento de Bolsonaro na TV: o contexto e as contestações

Presidente ataca governadores e a imprensa e pede que brasileiros voltem à normalidade em meio à pandemia do novo coronavírus. Classe política rechaça discurso que confronta orientações de autoridades sanitárias

O presidente Jair Bolsonaro fez nesta terça-feira (24) à noite um pronunciamento em rede nacional de rádio e TV no qual pediu que a população volte à normalidade, mesmo em meio à pandemia do novo coronavírus. No momento em que falava, o Brasil registrava 2.201 casos confirmados de contaminação e 46 mortes em decorrência do vírus.

Contrariando as recomendações sanitárias para o distanciamento social, Bolsonaro criticou o fechamento das escolas e as restrições de abertura de comércio impostas por governos estaduais e municipais. Tais medidas visam evitar a concentração de infecções num curto espaço de tempo, algo que pode colapsar o sistema de saúde.

O presidente voltou a falar em “histeria”, criticou a imprensa e disse que é preciso “abandonar o conceito de terra arrasada”. Também minimizou os efeitos do coronavírus, que pode levar à pneumonia severa e à morte. “No meu caso em particular, pelo meu histórico de atleta, caso fosse contaminado pelo vírus, não precisaria me preocupar”, disse.

Gonzalo Vecina Neto, professor da Faculdade de Saúde Pública da USP, ex-presidente da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) e ex-secretário municipal de Saúde de São Paulo, disse ao Nexo que o pronunciamento presidencial “ignora o conhecimento”.

O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), divulgou uma nota em que classificou como “grave a posição externada pelo presidente”. Disse que o Brasil precisa de uma liderança séria. Ele lembrou ainda que a posição de Bolsonaro “está na contramão das ações adotadas em outros países e sugeridas pela própria Organização Mundial da Saúde”.

Já o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), tuitou: “Desde o início desta crise venho pedindo sensatez, equilíbrio e união. O pronunciamento do presidente foi equivocado ao atacar a imprensa, os governadores e especialistas em saúde pública”.

Governadores ouvidos pelo jornal Folha de S.Paulo disseram que, após o pronunciamento, o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, perdeu legitimidade no governo. Alguns já falam em impeachment de Bolsonaro.

Durante a fala presidencial em rádio e TV, houve novo panelaço em grandes cidades. Foi a oitava manifestação seguida do gênero contra Bolsonaro em meio à crise da pandemia.

Reportagens de bastidores publicadas pela imprensa dizem que, ao radicalizar o discurso, o presidente estaria tentando reavivar sua militância e engajá-la na defesa do governo num momento de dificuldade. A ideia de adotar o tom de confronto teria saído do chamado “gabinete do ódio”, um grupo ideológico que atua dentro do Palácio do Planalto, segundo o jornal O Estado de S.Paulo.

Leia abaixo o pronunciamento de Bolsonaro – seu terceiro em cadeia de rádio e TV –, com contextualizações das afirmações feitas pelo presidente, trecho a trecho. Em seguida, o Nexo traz uma breve entrevista com Gonzalo Vecina Neto.

Resgate dos brasileiros na China

“Desde quando resgatamos nossos irmãos em Wuhan, na China, numa operação coordenada pelos ministérios da Defesa e Relações Exteriores, surgiu para nós o sinal amarelo. Começamos a nos preparar para enfrentar o coronavírus, pois sabíamos que, mais cedo ou mais tarde, ele chegaria ao Brasil.”

Contexto

Em fevereiro, Bolsonaro relutou em buscar os brasileiros que estavam em Wuhan, cidade chinesa que foi o epicentro inicial do novo coronavírus. O presidente chegou a dizer que “não seria oportuno” repatriá-los. Os brasileiros, então, fizeram um apelo em vídeo. No fim, o grupo de 34 pessoas foi trazido por aeronaves da Força Aérea Brasileira. Ficou em quarentena em Anápolis (GO) e acabou liberado sem contaminações. Na época, Bolsonaro repercutia os impactos do alastramento do coronavírus pelo mundo na economia.

Elogio a Mandetta e ‘histeria’

“Nosso ministro da Saúde reuniu-se com quase todos os secretários de saúde dos estados para que o planejamento estratégico de enfrentamento ao vírus fosse construído. E, desde então, o doutor Henrique Mandetta vem desempenhando um excelente trabalho de esclarecimento e preparação do SUS para atendimento de possíveis vítimas. Mas o que tínhamos que conter naquele momento era o pânico, a histeria e, ao mesmo tempo, traçar a estratégia para salvar vidas e evitar o desemprego em massa. Assim fizemos, quase contra tudo e contra todos.”

Contexto

Bolsonaro atuou de forma descolada de seu ministro da Saúde durante quase todo o mês de março, após a confirmação do primeiro caso da doença no Brasil. Enquanto Luiz Henrique Mandetta fazia alertas à população quanto ao risco do coronavírus, o presidente afirmava se tratar de uma “histeria”, e priorizava a atividade econômica.

Nestes últimos dias de março, o discurso de Mandetta tem se aproximado do discurso presidencial. Na terça-feira (24), o ministro disse que o travamento do país é “péssimo para a saúde”. “Não dá para chegar e dizer o que é essencial. Se precisar de um mecânico para consertar uma ambulância, ele é o mais essencial naquele momento”, afirmou o ministro.

Crítica à imprensa

“Grande parte dos meios de comunicação foram na contramão. Espalharam exatamente a sensação de pavor, tendo como carro-chefe o anúncio do grande número de vítimas na Itália. Um país com grande número de idosos e com clima totalmente diferente do nosso. O cenário perfeito potencializado pela mídia para que uma verdadeira histeria se espalhasse pelo nosso país. Contudo, percebe-se que, de ontem para hoje, parte da imprensa mudou seu editorial. Pedem calma e tranquilidade. Isso é muito bom. Parabéns imprensa brasileira! É essencial que o equilíbrio e a verdade prevaleçam entre nós.”

Contexto

Bolsonaro usou o pronunciamento para reforçar seus ataques à imprensa, algo recorrente em seu mandato. A Itália é o epicentro do coronavírus na Europa e seu alto índice de mortalidade (7% diante 2,9% em Wuhan, cidade chinesa) é atribuído não apenas à idade avançada da população (23% é idosa) mas também ao fato de estratégias preventivas terem sido implementadas mais tardiamente e com menos rigor do que na China.

Com medidas preventivas mais frouxas, inclusive de isolamento, a Itália acabou registrando um número maior de casos, proporcionalmente em relação à população. Independentemente do clima brasileiro, em uma situação de pandemia o espalhamento da doença pode ocorrer pelo fato de o coronavírus ser novo e não encontrar barreira imunológica na população.

Voltar à normalidade

“O vírus chegou. Está sendo enfrentado por nós e, brevemente, passará. Nossa vida tem que continuar, os empregos devem ser mantidos, os sustentos das famílias devem ser preservados. Devemos, sim, voltar a normalidade. Algumas poucas autoridades estaduais e municipais devem abandonar o conceito de terra arrasada, a proibição de transporte, o fechamento de comércio e o confinamento em massa.”

Contexto

As medidas de afastamento social são recomendadas por autoridades sanitárias pelo mundo, e estão sendo adotadas por diversos países. A ideia é que não haja uma concentração de infecções num curto espaço de tempo a fim de que o sistema de saúde não fique sobrecarregado. O ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, afirmou que o pico do coronavírus no país deve ocorrer em abril.

Nas últimas semanas, governadores vêm decretando medidas restritivas de circulação e fechamento de comércio. Em São Paulo, por exemplo, começou a vigorar na terça-feira (24) uma quarentena de 15 dias que determina o fechamento de todos os estabelecimentos que não prestem serviços ou vendam produtos essenciais. Bolsonaro chegou a chamar o governador João Doria de “lunático”, mas depois começou um movimento de aproximação com os chefes de Executivos estaduais. O pronunciamento na TV, portanto, destoa do que o presidente vinha fazendo nos últimos dias.

Contra o fechamento de escolas

“O que se passa no mundo têm mostrado que o grupo de risco é o das pessoas acima dos 60 anos, então por que fechar escolas? Raros são os casos fatais de pessoas sãs, com menos de 40 anos de idade. 90% de nós não teremos qualquer manifestação caso se contamine. Devemos, sim, é ter extrema preocupação em não transmitir o vírus para os outros, em especial aos nossos queridos pais e avós, respeitando as orientações do Ministério da Saúde.”

Contexto

Embora o coronavírus tenha uma taxa de letalidade maior entre pessoas mais velhas, dados de diversas regiões do mundo, segundo a OMS, apontam que os menores de 50 anos são uma parcela significativa dos pacientes internados por complicações da doença.

Nos Estados Unidos, 40% dos hospitalizados têm entre 20 e 54 anos. A principal preocupação em relação aos mais novos, no entanto, é que eles funcionem como vetores de contaminação para pessoas de grupos de risco. Segundo especialistas, medidas de distanciamento social que evitam a circulação de pessoas nas cidades são necessárias para conter a disseminação do vírus e evitar que ele chegue a quem mais corre risco de morrer da doença.

‘Gripezinha’

“No meu caso em particular, pelo meu histórico de atleta, caso fosse contaminado pelo vírus, não precisaria me preocupar. Nada sentiria ou seria, quando muito, acometido de uma gripezinha ou resfriadinho, como bem disse aquele conhecido médico daquela conhecida televisão.”

Contexto

Mais de 20 pessoas que tiveram contato com Bolsonaro em viagem oficial aos Estados Unidos estão infectadas com o coronavírus. O presidente afirma que já fez dois exames para identificar se está infectado e que ambos deram negativo, mas se recusa a divulgar o resultado dos testes, alegando que a informação é sigilosa. A Justiça do Distrito Federal chegou a determinar que os laudos fossem publicados.

Em seu pronunciamento, Bolsonaro fez uma alusão ao médico Drauzio Varella, que publicou um vídeo que comparava a covid-19 a uma gripe no fim de janeiro, época em que o Brasil ainda não tinha casos confirmados da doença. No último fim de semana, o filho do presidente e senador Flávio Bolsonaro e o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, compartilharam o vídeo em suas redes sociais como se fosse atual. No domingo (22), Dráuzio Varella se pronunciou no Fantástico, da Rede Globo, condenando a ação e alertando para a gravidade da pandemia hoje.

Tratamento da doença

“Enquanto estou falando, o mundo busca um tratamento para a doença. O FDA americano [agência federal de saúde] e o hospital Albert Einsten, em São Paulo, buscam a comprovação da eficácia da cloroquina no tratamento da Covid 19. Nosso governo tem recebido notícias positivas sobre esse remédio fabricado no Brasil, largamente utilizado no combate à malária, ao lúpus e à artrite.”

Contexto

Pesquisas que testam a cloroquina como possível tratamento para a covid-19 estão em andamento em diversos países. No entanto, todos os estudos são preliminares – os testes em pessoas ainda são incipientes e sua eficácia não foi comprovada. Análises clínicas do tipo podem demorar anos, segundo especialistas. Embora haja instituições ao redor do mundo correndo contra o tempo para desenvolver um tratamento e uma vacina para a covid-19, a tendência é que os resultados mais concretos ainda demorem para sair.

Encerramento

Bolsonaro encerrou o discurso da seguinte forma: “Acredito em Deus, que capacitará cientistas e pesquisadores do Brasil e do mundo, na cura dessa doença. Aproveito para render minha homenagem a todos os profissionais de saúde, médico, enfermeiros, técnicos e colaboradores, que na linha de frente nos recebem nos hospitais, nos tratam e nos confortam, sem pânico ou histeria, como venho falando desde o princípio. Venceremos o vírus e nos orgulharemos de estar vivendo nesse novo Brasil, que tem tudo, sim, para ser uma grande nação. Estamos juntos, cada vez mais unidos. Deus abençoe nossa pátria querida.

Uma visão sobre o discurso

O Nexo conversou com Gonzalo Vecina Neto, professor da Faculdade de Saúde Pública da USP, ex-presidente da Anvisa e ex-secretário da Saúde da cidade de São Paulo, sobre o conteúdo do pronunciamento do presidente.

Como avalia o discurso de Bolsonaro?

GONZALO VECINA NETO É um discurso que ignora o conhecimento, totalmente obtuso e ignorante. Impressionante a capacidade que o nosso presidente tem de ignorar a realidade que é expressa por fatos comprovados pelo conhecimento humano. Não falo da ciência, porque que ele não acredita nisso. Chega a ser ininteligível.

Em quais pontos específicos ele confronta autoridades sanitárias?

GONZALO VECINA NETO Ele não acredita que nós estamos vivendo uma emergência sanitária. Bolsonaro fala que não pode parar a economia do país. O que nós não podemos esquecer é que são os desastres sanitários que geram os desastres econômicos. Está todo mundo preocupado com o equilíbrio fiscal e não com a saúde pública. Se você ficar preocupado com o equilíbrio, vamos ter um punhado de mortos. Agora, se nos preocupamos com o desastre sanitário e deixamos o equilíbrio fiscal, teremos gente viva e, portanto, algum futuro. O Bolsonaro ignora essa questão. Ele também fala sobre o confinamento. Hoje, temos uma clareza muito grande de que a quarentena é fundamental. Falta definir quanto tempo. Nós sabemos que 14 dias é suficiente, mas daqui a pouco vamos começar a ter que discutir essa questão. Agora, sem quarentena, não tem solução, exceto permitir que muita gente morra.

Qual a consequência de um pronunciamento assim para o combate ao vírus?

GONZALO VECINA NETO Quando ele diz que é “atleta”, está falando é que ele não é um idoso, um velho. Eu tenho 67 anos e não me considero velho. O velho é um sujeito improdutivo. Agora, do ponto de vista biológico e imunológico, eu sou um idoso, assim como o Bolsonaro [que tem 65 anos]. Somos mais suscetíveis a sofrer as consequências desses vírus a partir do padrão que foi diagnosticado. Esse vírus mata muito mais velhos. Entre 0 e 40 anos ele mata 2 em 1.000. Acima de 80 anos, mata 15 em 1.000. Isso é uma calamidade pública. Quando ele fala para as pessoas deixarem o confinamento, está automaticamente matando os velhos deste país. O exemplo que o Bolsonaro dá à sociedade brasileira, com a visibilidade dele, é terrível.

Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.

Já é assinante? x

Entre aqui

Continue sua leitura

Inscreva-se abaixo no Boletim Coronavírus, uma newsletter diária do Nexo: