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O que é liquidez. E por que países agem para aumentá-la na crise

Vários governos, entre eles o do Brasil, têm agido para colocar mais dinheiro em circulação durante a pandemia de coronavírus. O ‘Nexo’ explica esse conceito central da economia e a sua importância neste momento

Em momentos de crise, uma palavra ecoa no noticiário, saindo da boca de ministros, chefes de bancos e especialistas em mercado financeiro: liquidez. O termo é um fator importante para entender as ações e decisões que estão sendo tomadas para combater os efeitos negativos da pandemia do novo coronavírus na economia brasileira nos primeiros meses de 2020.

Abaixo, o Nexo explica o que é liquidez e por que o conceito ganha importância em momentos de crise, além de reunir exemplos de atuação de autoridades monetárias para expandir a liquidez e tentar conter os efeitos econômicos da pandemia.

O que é liquidez

A liquidez é um conceito econômico que hierarquiza as diferentes formas que o patrimônio assume. Ela considera todos os ativos – os bens que formam um patrimônio – e os ordena de acordo com a facilidade para transformá-los em dinheiro.

O ativo mais líquido de todos é o próprio dinheiro. Ele permite comprar qualquer coisa que esteja à venda, seja um título público ou uma máquina agrícola.

Quanto menos líquido for um ativo, menor a facilidade e rapidez que você terá para transformá-lo em dinheiro. Um apartamento, por exemplo, leva tempo e esforço para vender – não é fácil achar um comprador, negociar o preço e concordar sobre o número de parcelas e a forma do pagamento. A mesma coisa vale para um carro ou uma máquina cara usada em uma indústria.

Por outro lado, há ativos mais líquidos, que podem ser convertidos em dinheiro mais rápida e facilmente. Por exemplo, se você tem dinheiro aplicado em uma carteira de ações e quiser usá-lo no seu dia a dia, você vai precisar antes vender essas ações – ou melhor, liquidá-las. Só depois irá conseguir usar o dinheiro. Mas essa operação costuma ser simples e dificilmente vai tomar grandes esforços e tempo.

A liquidez, portanto, é uma propriedade dos ativos.

O que acontece nos tempos de crise

Quando a economia está aquecida e crescendo, é normal que circule mais dinheiro entre as pessoas, empresas e governo. Mais gente está empregada, o que significa que as pessoas podem comprar mais coisas, mantendo um bom fluxo de receita para as empresas. Se os negócios vão bem, os empresários podem querer expandir operações, podendo recorrer aos bancos para conseguir crédito e assim bancar essa ampliação. Da mesma forma, pessoas que querem abrir novos negócios podem pegar empréstimos para investir e empreender.

Portanto, quando a economia está em alta, a liquidez geralmente é alta. Mais dinheiro tende a circular e há maior facilidade para obter crédito.

Mas, quando o momento é de crise – ou retração da economia –, a tendência é que ocorra o contrário. Menos dinheiro vai circular, e conseguir crédito vai se tornar mais difícil.

Se ocorre um evento negativo inesperado – como, por exemplo, uma pandemia –, a economia fica debilitada. As pessoas compram menos, e a receita que entra no caixa das empresas é menor. Isso, por sua vez, pode levar ao aumento no desemprego, levando a uma redução no consumo e gerando um efeito em espiral descendente.

Nesse cenário, as famílias ficam com menos dinheiro disponível para pagar as contas e gastar no dia a dia, e a mesma coisa acontece com as empresas. Ao mesmo tempo, quem pegou empréstimos antes da crise vai ter mais dificuldade de pagar as prestações e juros. Os bancos, portanto, também vão sentir os efeitos.

A diminuição dos depósitos em conta (afinal, quando alguém fica desempregado, deixa de depositar dinheiro no banco todo mês) e as possíveis dificuldades de pagamento de empréstimos reduzem a capacidade do banco de fazer novos empréstimos para pessoas e empresas. Ao mesmo tempo em que há menos dinheiro disponível para emprestar, o risco de ceder crédito durante a crise é mais alto. É mais difícil projetar bons retornos para um investimento em tempos instáveis e de desaceleração econômica.

No cenário de crise, portanto, a liquidez é baixa. Há menos dinheiro para pagar as contas, e as pessoas podem precisar vender ativos menos líquidos, como carros e apartamentos, para sobreviver. O cenário pandêmico dos primeiros meses de 2020 é um exemplo de período em que a liquidez da economia diminui.

A importância de aumentar a liquidez na crise

A falta de liquidez que se instala em uma crise ajuda a manter e até aprofundar o momento ruim da economia. É difícil imaginar os mercados se reerguendo quando há menos dinheiro circulando e menos dinheiro em caixa.

Mas esse cenário não é intocável. O governo pode intervir para tentar aumentar a liquidez da economia. Ele pode fazer isso pelo próprio Banco Central, a autoridade monetária do país, ou incentivando os bancos a liberar mais recursos via empréstimos.

As autoridades monetárias têm diversos instrumentos que podem usar para tentar aumentar a liquidez da economia. Um deles é a taxa de juros, que pode ser reduzida para incentivar novos empréstimos.

Outra forma de o Banco Central aumentar a liquidez é comprando títulos – geralmente públicos – que estão nos bancos, deixando mais dinheiro à disposição das instituições financeiras para empréstimos. Títulos públicos são papéis emitidos pelo governo com promessas de pagamento. Quando o governo vende esses títulos no mercado, ele está, na prática, pegando dinheiro emprestado e prometendo pagar depois.

Da mesma forma, o Banco Central pode diminuir a taxa de depósitos compulsórios, que são um mínimo de dinheiro que tem que ficar retido nos bancos para dar segurança ao sistema financeiro. Se essa taxa diminui, uma parte desses compulsórios é liberada para circular na economia.

Em todas essas medidas, o principal canal usado pelo Banco Central é o crédito. Se o custo do crédito é mais baixo ou há mais recursos disponíveis para os bancos emprestarem, a tendência é que mais pessoas peguem empréstimos e haja mais dinheiro para circular na economia.

Por trás dessas intervenções do governo está a tentativa de evitar que as pessoas precisem diminuir a atividade econômica ou vender ativos menos líquidos para se manter. Se uma empresa, por exemplo, conseguir um empréstimo com condições vantajosas em um momento de crise, ela pode deixar de demitir ou fechar uma loja. Com isso, alguns funcionários que poderiam ter sido demitidos continuam empregados, mantêm uma fonte de renda e conseguem consumir. É um passo, portanto, para manter a economia mais aquecida.

Qual a atuação brasileira na crise do novo coronavírus

No Brasil e no mundo, o início de 2020 está sendo marcado pela pandemia do novo coronavírus, cujo contágio avança em ritmo alto na população. Além dos problemas que a covid-19 traz para a saúde das pessoas e para o sistema de saúde brasileiro, ela também ajuda a derrubar a economia. A orientação pelo distanciamento social faz as pessoas saírem menos de casa. Isso, por sua vez, reduz o consumo, diminui as receitas das empresas e aumenta o desemprego. O cenário, portanto, é semelhante ao cenário de crise descrito acima.

O momento da economia é de pouca liquidez há pouco dinheiro circulando. Diante disso, o governo brasileiro apresentou medidas para aumentar a liquidez da economia.

O Banco Central

O Banco Central do Brasil lançou na segunda-feira (23) um pacote de medidas para aumentar a liquidez da economia brasileira em até R$ 1,2 trilhão. Entre as ações contidas no pacote está a redução da taxa de depósitos compulsórios de 25% para 17%, o que deve liberar R$ 68 bilhões para os bancos emprestarem.

Além disso, o Banco Central prevê uma linha temporária de empréstimos para os bancos, tendo como garantias debêntures, que são uma espécie de títulos de dívida emitidos por empresas privadas. Essa linha pode liberar até R$ 91 bilhões para os bancos.

A maior parte do pacote consiste em um empréstimo para os bancos tendo como lastro letras financeiras garantidas por operações de crédito. Traduzindo do economês, isso significa que os bancos, que têm carteiras de crédito, vão poder emitir títulos com base nessas carteiras. Esses papéis servirão de garantia para que os bancos peguem empréstimos no Banco Central, em uma operação que deve disponibilizar R$ 670 bilhões.

O pacote veio poucos dias após o Copom (Comitê de Política Monetária) – órgão formado pelo alto escalão do Banco Central – reduzir a meta dos juros básicos brasileiros para 3,75% ao ano. Antes do anúncio do pacote, o Banco Central também havia divulgado outras medidas para aumento da liquidez em R$ 135 bilhões e anunciado a compra de títulos de dívida externa, colocando US$ 3 bilhões no mercado.

Os bancos públicos

Os bancos públicos brasileiros também estão fazendo esforços para aumentar os empréstimos e manter mais dinheiro circulando na economia. Ao contrário dos bancos privados, o governo pode orientar os bancos públicos a expandir o crédito ou tomar outras medidas de expansão da liquidez.

O BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) anunciou no domingo (22) medidas de auxílio que totalizam R$ 55 bilhões. Elas incluem a suspensão de cobranças de empréstimos de setores mais afetados pela crise, adiando o recolhimento de R$ 30 bilhões em seis meses. Outros R$ 5 bilhões em crédito serão disponibilizados para pequenas empresas.

Por fim, R$ 20 bilhões serão transferidos das contas dos beneficiários do PIS/Pasep (Programa de Integração Social e Programa de Formação do Patrimônio do Servidor Público), que são semelhantes e costumam ser tratados conjuntamente ao FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço), permitindo o saque pela população. Esta última medida já havia sido anunciada pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, em 16 de março de 2020.

A Caixa Econômica Federal reduziu taxas de juros para empréstimos e suspendeu em 60 dias o pagamento de parcelas por pessoas físicas e jurídicas. A Caixa também falou em disponibilizar R$ 75 bilhões, com R$ 40 bilhões sendo destinados ao capital de giro – o dinheiro necessário para o funcionamento das empresas no dia a dia – e R$ 30 bilhões sendo usados para comprar linhas de crédito de bancos pequenos e médios. Os outros R$ 5 bilhões seriam usados para empréstimos no setor agrícola.

Medidas de liquidez em outros países

A maior parte dos países pelo mundo está agindo para ampliar a liquidez de suas economias em meio à pandemia. Diversos governos e Bancos Centrais estão fazendo esforços para colocar mais dinheiro em circulação. O Japão, por exemplo, está comprando títulos públicos, enquanto a União Europeia age para expandir a capacidade de crédito e garantir liquidez a pequenas e médias empresas.

Nos EUA, a medida foi mais agressiva. O Federal Reserve, o Banco Central americano, irá comprar títulos do Tesouro americano e títulos hipotecários em escala massiva, injetando mais de US$ 500 bilhões na economia. As compras de títulos para dar liquidez estão sendo tratadas basicamente como ilimitadas. Também serão criadas novas linhas de crédito do Federal Reserve para o sistema financeiro americano.

Muitos países também estão lançando pacotes de estímulo fiscal para acompanhar as medidas de liquidez. As medidas fiscais têm atuação mais direta para estimular a demanda da economia. Se nas medidas de expansão de liquidez o governo geralmente aparece como um credor, nas medidas de estímulo fiscal ele é um comprador. Uma coisa é o governo gastar para construir uma ponte; outra situação diferente é o governo ampliar os canais de crédito para que, eventualmente, uma empresa tome dinheiro emprestado para construir a mesma ponte.

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