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Coronavírus: os perigos de usar remédios sem supervisão

Após Trump e Bolsonaro mencionarem medicamento usado em estudos iniciais sobre o tratamento da covid-19, houve corrida para as farmácias. Efeitos colaterais, no entanto, podem ser graves

    O presidente Jair Bolsonaro declarou no sábado (21) que o Exército iria “imediatamente” expandir a produção de cloroquina em seus laboratórios como parte da estratégia de enfrentamento da pandemia do novo coronavírus.

    Na quinta-feira (19), seu colega americano, Donald Trump, em entrevista coletiva, havia declarado que o medicamento poderia “virar o jogo” no combate ao novo vírus. Dois dias depois, no Twitter, Trump se mostrou ainda mais entusiasmado, afirmando que a hidroxicloroquina e a azitromicina “se tomadas juntas têm a chance de se tornarem um dos maiores trunfos na história da medicina”.

    A cloroquina, e sua variação menos tóxica, a hidroxicloroquina, entraram no debate depois que pesquisas indicaram uma possível eficácia dessas drogas contra o vírus. Inicialmente, uma pesquisa chinesa publicada em 18 de fevereiro demonstrou que a cloroquina conseguiu barrar a infecção pelo coronavírus em uma simulação de laboratório.

    Depois, um teste em pacientes realizado na França também mostrou uma redução na carga viral ao longo de um período de seis dias. Em alguns desses testes, ela foi administrado junto com um antibiótico chamado azitromicina, citado no tuíte de Trump.

    No Brasil, o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, comunicou na sexta (20) que o Brasil havia começado a testar cloroquina em pacientes com covid-19 em condição mais grave.

    Todas as pesquisas sobre o uso de cloroquina e hidroxicloroquina no tratamento do covid-19, no Brasil e no exterior, ainda são preliminares. Os testes em pessoas ainda são incipientes e sua eficácia não foi comprovada.

    Empolgação perigosa

    As falas dos dois chefes de Estado contribuíram para que os remédios rapidamente sumissem das prateleiras de farmácias em diversas cidades brasileiras.

    O problema é que cloroquina e hidroxicloroquina são remédios utilizados no tratamento de artrite, lúpus e malária. Reportagens publicadas na imprensa trouxeram relatos de pessoas com essas condições tendo problemas em conseguir os medicamentos, esgotados em várias farmácias.

    Em resposta, a Anvisa decretou que os dois remédios passarão a ser medicamentos de controle especial, o que torna necessária receita médica na hora da compra. Farmácias e drogarias são obrigadas a anotar todas as entradas e saídas do medicamento e seu estoque, além de registrar os dados dos compradores.

    Com a nova categorização, se um farmacêutico vender qualquer dos dois remédios sem receita responderá por infração grave. “O uso sem supervisão médica também pode representar um alto risco à saúde das pessoas”, afirmou a Anvisa em comunicado.

    Efeitos colaterais

    A cloroquina e a hidroxicloroquina ainda não foram testadas adequadamente para tratamento de covid-19. Na mesma coletiva de Trump, Stephen Hahn, diretor da FDA (equivalente nos EUA à Anvisa - Agência de Vigilância Sanitária), adotou um tom bem menos empolgado que seu chefe. Hahn declarou que a droga ainda teria que iniciar um programa de testes para avaliar se ela tem algum efeito em pacientes com coronavírus.

    No Brasil, o ministro Mandetta enfatizou que a substância tem fortes efeitos colaterais e que, caso a eficácia contra a covid-19 seja comprovada, ela será aplicada em ocorrências mais graves da doença.

    Entre vários possíveis efeitos colaterais, a automedicação com cloroquina e hidroxicloroquina pode levar até à morte. Nos EUA, um homem morreu e sua esposa foi parar na UTI na segunda-feira (23) depois de ambos tomarem fosfato de cloroquina sem orientação médica. Segundo a esposa, em entrevista à rede americana NBC, o casal ouviu falar da cloroquina por meio da coletiva de Trump. Eles ingeriram a substância, presente em um produto para matar parasitas em aquários que tinham em casa, “porque tinham medo de ficar doentes”.

    De acordo com o hospital que os atendeu, em Phoenix, “cerca de 30 minutos depois da ingestão [do remédio], o casal sentiu efeitos imediatos e precisou dar entrada no hospital”. O casal estava na faixa dos 60 anos.

    Um estudo do Instituto de Virologia de Wuhan, na China, epicentro inicial do surto de coronavírus, mostrou que uma dosagem de 2 gramas do remédio pode matar um adulto. Esse total é o dobro da quantidade diária indicada para tratamento.

    Entre possíveis efeitos colaterais da cloroquina e hidroxicloroquina estão ainda a retinopatia (lesão na retina ocular), dores de cabeça, vômitos, diarreia e até problemas cardíacos.

    Centenas de pesquisadores de vários países vêm pesquisando remédios existentes à procura de fármacos que possam ser redirecionados para o tratamento da covid-19. Há sinais iniciais promissores em cerca de 70 drogas, de acordo com um estudo publicado no site bioRxiv.

    O caminho para aprovar um remédio

    O Nexo conversou com Luciana Costa, diretora-adjunta do Instituto de Microbiologia da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), sobre o processo de desenvolvimento de tratamentos.

    No Brasil, o que é preciso para um remédio ser aprovado para uso em um tratamento específico? Isso pode ser acelerado de alguma maneira diante de uma emergência?

    LUCIANA COSTA Primeiro, tem de comprovar a eficácia dele em células infectadas no laboratório para mostrar que ele bloqueia a replicação do vírus, em qual concentração isso acontece, e qual concentração é tóxica para células. Depois, é preciso fazer um teste de toxicidade, para ver se o remédio é tóxico para as pessoas e em qual concentração. Depois, fazer o teste clínico em pessoas doentes. No caso da covid-19, por exemplo, isso seria em pessoas não hospitalizadas e com sintomas leves. Aí você precisa ter um grupo que vai receber e outro que não vai receber o medicamento, e verificar se no grupo que recebeu o remédio os sintomas foram eliminados mais rapidamente, se houve melhora etc. Esses testes podem demorar alguns anos, é necessário acompanhar por um tempo e fazer todos os testes de análise estatística. Não é uma coisa que se resolve em alguns meses.

    Por que é importante que o remédio passe por esse processo antes de as pessoas o tomarem?

    LUCIANA COSTA É importante que o remédio passe por todo esse processo primeiramente por causa dos efeitos colaterais; se eles existem e se eles vão ser mais prejudiciais para o paciente do que a própria doença com a qual ele está. A princípio todo remédio tem efeito colateral, mas o efeito colateral de um remédio pode ser menor que o efeito benéfico dele para curar doenças. Depois, é preciso saber se de fato ele tem potencial contra essa doença. Esses testes são necessários para prever os possíveis efeitos colaterais, para saber se de fato ele é eficaz para curar a doença e para saber se esse efeito colateral possível ainda vale a pena diante da eficácia do medicamento de curar a doença.

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