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A influência de Manu Dibango, o decano da música africana

Saxofonista camaronês morreu aos 86 anos em Paris, vítima da covid-19. O ‘Nexo’ selecionou cinco canções para conhecer o instrumentalista, que fez parte da vanguarda do continente 

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    O músico camaronês Manu Dibango morreu vítima do coronavírus nesta terça-feira (24), aos 86 anos. Ele se encontrava hospitalizado em Paris, onde morava desde a década de 1960.

    Dibango foi um dos músicos africanos mais influentes da música pop. Seu clássico “Soul Makossa”, de 1972, teve trechos do vocal reproduzidos em “Wanna Be Startin’ Somethin”, de Michael Jackson, de seu álbum “Thriller”. A música também influenciou “Samba Makossa”, de Chico Science & Nação Zumbi.

    Dibango tocava diversos instrumentos, mas era mais conhecido como saxofonista. Sua obra funde sonoridades do oeste da África, como afrobeat e highlife, com jazz, funk e reggae. Esse tipo de ponte é evidenciada no título de “Soul Makossa”, que faz referência ao soul, estilo americano de música negra, e à makossa, estilo camaronês de música urbana dançante.

    Origens e evolução

    De família protestante, Dibango frequentou corais de igreja em Camarões quando criança que eram “exatamente como nos Estados Unidos, com protestantes, batistas… tínhamos as mesmas músicas”, conforme contou em entrevista ao site Qwest, do produtor americano Quincy Jones. Quando teve contato com o jazz pela primeira vez, a música lhe soou familiar.

    “Essencialmente, [o jazz] se trata de harmonias ocidentais ao estilo de Bach e Handel. Como tocamos isso na África, em nossa língua, e temos a impressão que nos pertencem”, explicou em uma entrevista. “Daí, você vai para França aos 15 anos e ouve jazz no rádio, em uma língua diferente, e parece familiar e distante ao mesmo tempo. Tudo que Louis Armstrong cantava era familiar para mim, especialmente gospel, quando eu era um camaronês numa vila francesa [a maior parte do país foi colônia francesa até 1960].”

    Em 1965, Dibango se estabeleceu em Paris e iniciou uma prolífica carreira internacional, com dezenas de álbuns lançados. Ao lado do nigeriano Fela Kuti e do sul-africano Hugh Masekela, o saxofonista camaronês se tornou um dos responsáveis por tornar as sonoridades musicais africanas mais conhecidas na Europa e nos Estados Unidos.

    Vanguarda africana

    Nas décadas de 1970 e 1980, Paris se tornou um centro de produção e divulgação de música de artistas do continente africano, especialmente aqueles vindos da África francófona, formada por ex-colônias francesas como Costa do Marfim, Senegal, Guiné e Camarões. Segundo Dibango, nesse período a capital francesa era a sede da “vanguarda da música africana”.

    Considerado um decano da música africana, Dibango realizou inúmeras parcerias ao longo dos anos, incluindo gravações com músicos como o jazzista americano Herbie Hancock, os músicos e produtores jamaicanos Sly & Robbie, o músico inglês Peter Gabriel, a cantora beninense Angélique Kidjo e a super-banda de salsa Fania All-Stars.

    Em 1985, o músico lançou “Electric Africa”, outro ponto alto de sua carreira. Produzido pelo americano Bill Laswell, o trabalho revestiu a sonoridade de Dibango com uma produção eletrônica e dub moderna para a época.

    O grande hit 'Soul Makossa'

    Um dos impulsos iniciais para o sucesso do seu maior hit, “Soul Makossa”, em 1972, foi o desempenho da música nas casas noturnas de Nova York. Era o início da era disco e as seleções dos DJs começavam a exercer influência nas paradas de sucesso, que até então eram formadas basicamente por músicas com boa execução radiofônica.

    Foi assim que um desconhecido músico de Camarões, sem gravadora nos Estados Unidos, acabou com um hit americano. Quando finalmente lançado oficialmente no país, o álbum de Dibango foi ao número 35 da parada americana.

    Na época, o músico foi convidado para se apresentar no teatro Apollo, no Harlem, templo da música negra dos Estados Unidos. “Era a primeira vez que uma banda africana tocava lá. O público levou pandeiros, maracas, eles fizeram o ritmo do salão”, afirmou Dibango.

    Quando um trecho da faixa apareceu no álbum milionário de Michael Jackson, sem autorização prévia, Dibango entrou na Justiça e ganhou. Em 2009, foi a vez de Rihanna usar a mesma parte em “Don’t’ Stop the Music” – e de mais um processo e um acordo em favor do camaronês. O site WhoSampled lista 58 músicas que pegam emprestado de “Soul Makossa”, incluindo obras de Kanye West, Jay-Z e Will Smith.

    O Nexo selecionou cinco músicas para conhecer a obra de Manu Dibango.

    Soul Makossa

    Hibiscus

    Big Blow

    Reggae Makossa

    Pata Piya

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