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A importância da obra de Albert Uderzo, cocriador de ‘Asterix’

HQs do desenhista francês, que morreu aos 92 anos, ajudaram a definir a identidade de seu país no mundo dos quadrinhos

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    Morreu nesta terça-feira (24) o desenhista francês Albert Uderzo, cocriador do personagem Asterix.

    Uderzo tinha 92 anos e morreu em decorrência de um ataque cardíaco. Em comunicado oficial, sua família disse que o artista já vinha demonstrando fraqueza e cansaço há algumas semanas.

    Albert Uderzo começou a carreira em 1945, publicando as tirinhas cômicas de Flamberge, um velhinho azarado na França que vence os infortúnios de sua vida cotidiana.

    Seis anos depois, Uderzo conheceu seu principal parceiro criativo: o roteirista René Goscinny. Eles foram apresentados um ao outro em 1951 e, em 1958, começaram a primeira empreitada profissional juntos: “Humpá-pá”.

    Os quadrinhos de “Humpá-pá” começaram a ser publicados na revista Le Journal de Tintin, dedicada à publicação de quadrinhos infanto-juvenis, tendo como carro-chefe a série “As aventuras de Tintim”, do quadrinista belga Hergé.

    “Humpá-pá” conta a história das aventuras cômicas do personagem que dá título à série, um nativo americano na época da colonização francesa nos EUA no século 18.

    Um ano depois do surgimento de Humpá-pá, Uderzo e Goscinny criaram a obra pela qual ficaram marcados: Asterix, o Gaulês.

    Asterix: um ícone europeu

    O gaulês Asterix surgiu em 1959 nas páginas da revista de quadrinhos Pilote, que tinha Uderzo como diretor artístico e Goscinny como editor.

    As histórias de Asterix se passam na Gália, região da França que foi ocupada pelo Império Romano no século 1 a.C.

    A Gália era ocupada pelos gauleses, um povo celta, e as HQs são ambientadas numa pequena aldeia, a única a não ser ocupada pelas tropas de Júlio César, que resiste à presença do inimigo.

    Asterix, o herói da história, é um guerreiro baixinho e bigodudo. Seu poder é a super-força, que surge no momento em que ele bebe uma poção mágica feita pelo mago Panoramix.

    Seu melhor amigo, o enorme Obelix, tem a super-força de forma permanente, já que caiu num caldeirão cheio da poção quando ainda era criança.

    Foi nesse cenário que Goscinny e Uderzo criaram as histórias de Asterix, aventuras cômicas que satirizavam a sociedade europeia da época com piadas e tiravam sarro da cultura e da situação sociopolítica do continente.

    Na revista Pilote, as histórias de Asterix eram publicadas em fascículos. Em 1961, Goscinny e Uderzo decidiram migrar para o formato livro, com cada edição trazendo uma história completa do início ao fim.

    A ideia deu certo: o primeiro volume vendeu 300 mil cópias no mercado francês, e os livros de Asterix se tornaram uma tradição anual. Entre 1961 e 1976, a dupla produziu 23 livros com as histórias do personagem, com Goscinny nos roteiros e Uderzo nos desenhos.

    No ano de 1977, Goscinny morreu aos 51 anos, em decorrência de um ataque cardíaco enquanto fazia um teste de esforço no consultório de seu cardiologista. O último livro da dupla foi “Asterix entre os belgas”, publicado dois anos após a morte do roteirista.

    A partir de 1980, Uderzo, além dos desenhos, passou a escrever os roteiros das aventuras de Asterix. Ele produziu mais 10 livros, que já não tinham mais a frequência anual.

    O último livro de Asterix produzido por Uderzo foi “O aniversário de Asterix e Obelix”, edição comemorativa dos 50 anos do personagem, lançada em 2009 com uma série de histórias curtas.

    Em 2013, o roteirista Jean-Yves Ferri e o desenhista Didier Conrad assumiram as histórias de Asterix, lançando o livro “Asterix e os pictos”. O livro mais recente do gaulês, “A filha de Vercingetórix”, foi lançado em 2019.

    Apesar de Ferri e Conrad produzirem as histórias de Asterix atualmente, os livros ainda são creditados a Goscinny e Uderzo.

    Ao lado de Tintim, Asterix é o maior ícone dos quadrinhos franco-belgas e se tornou parte da cultura pop europeia. O personagem protagonizou 13 filmes – nove deles em animação, e quatro em live-action –, 32 videogames e um parque de diversões, localizado a cerca de 40 km de Paris. O “Parc Astérix” é o segundo parque temático mais visitado na França, perdendo apenas para a Disneyland.

    Um legado que passa pela identidade de um país

    A morte de Uderzo repercutiu entre artistas do mundo todo. “Obrigado por todas as horas de risos e de sonhos, senhor Uderzo”, escreveu o quadrinista francês Christophe Chabouté em seu Instagram.

    “Eu acho que poucas pessoas me deram o prazer que ele [Uderzo] me deu”, afirmou o comediante e roteirista britânico Chris Addison em seu perfil no Twitter.

    “Uma das minhas maiores influências”, disse o quadrinista brasileiro Rafael Albuquerque também no Twitter. “Aprendi expressividade com ele, mais do que com qualquer outro. Obrigado, mestre.”

    Para Sérgio Codespoti, um dos editores do site especializado Universo HQ, a expressividade dos desenhos de Uderzo é a principal qualidade de sua obra artística.

    “Era um traço muito engraçado, com muito movimento, muita vida”, disse Codespoti ao Nexo. “Uderzo conseguia dar mais graça à ideia que estava no roteiro. Ele conseguia extrair humor com as linhas, muita emoção. Passa muito ao leitor. Era impressionante”, afirmou.

    Em 1985, Uderzo recebeu a medalha da Ordem Nacional da Legião da Honra, condecoração máxima da França. Segundo Codespoti, o artista, ao lado de Goscinny, é responsável por ajudar na criação da identidade francesa nas histórias em quadrinhos.

    “Tem uma série de elementos da cultura e da história francesa no personagem, como a resistência da Gália aos romanos. São várias características do povo francês que estão presentes na obra. Na França, Uderzo é quase um herói nacional. O legado dele tem proporções descomunais”, afirmou.

    Mesmo tendo algumas décadas de idade, as histórias de Asterix ainda continuam extremamente populares na Europa. Além dos novos livros, os antigos são reimpressos frequentemente, em novas edições.

    No ano de 2013, quando Ferri e Conrad estrearam em Asterix e os pictos, as vendas na França chegaram a 2 milhões de unidades em uma única semana. Para se ter uma noção de escala, no Brasil, os quadrinhos best-sellers da Turma da Mônica Jovem contam com cerca de 220 mil unidades impressas por mês, segundo dados divulgados em 2016.

    Matthew Screech, doutor em literatura francesa pela Universidade de Liverpool, também vê em “Asterix” a criação de uma identidade para a França nos quadrinhos.

    “Tintim, Gaston [Lagaffe, personagem criado em 1957 pelo quadrinista belga André Franquin] e Asterix, juntos, formam um forte senso coletivo, de uma identidade franco-belga, heróis que se comportam de maneira muito diferente dos super-heróis dos quadrinhos americanos”, afirmou Screech no livro “Mestres da nona arte”, publicado pela Universidade de Liverpool em 2005.

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