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A guinada na política britânica para lidar com o coronavírus

Governo muda de posição e passa a restringir comércio e movimento da população, por temor de colapso no sistema público de saúde

    O primeiro-ministro do Reino Unido, Boris Johnson, fez na segunda-feira (23) um pronunciamento em cadeia nacional anunciando uma mudança radical na política britânica de enfrentamento do coronavírus.

    Johnson proibiu reuniões de mais de duas pessoas e ordenou o fechamento de todo comércio não essencial – o que exclui apenas supermercados e farmácias. A quarentena, ou “lockdown”, como os britânicos chamam, deve durar pelo menos três semanas.

    “Dizendo de maneira simples: se muitas pessoas ficarem severamente doentes ao mesmo tempo, nosso sistema nacional de saúde não terá capacidade para lidar com isso. Mais pessoas morrerão – não apenas [por causa] do coronavírus, mas de outras doenças também”

    Boris Johnson

    Primeiro-ministro do Reino Unido, em pronunciamento feito no dia 23 de março de 2020

    O discurso do primeiro-ministro marcou uma mudança em relação ao que vinha sendo feito antes. Até então, o governo britânico apenas recomendava a quarentena para pessoas que apresentassem sintomas do coronavírus ou que tivessem mantido contato com pessoas contaminadas, além de maiores de 65 anos.

    A ideia inicial era restringir a movimentação apenas dos transmissores da doença e das pessoas mais vulneráveis, recomendando prudência ao restante da população, mas sem impor medidas restritivas de grande envergadura.

    O Reino Unido, assim como os Países Baixos, retardou ao máximo a tomada de medidas excepcionais. Mas cálculos que indicam o risco de saturação do sistema de saúde no curto prazo fizeram as autoridades mudarem de posição.

    Os holandeses proibiram eventos públicos até 1º de julho, mas ainda mantêm o comércio aberto, numa política menos rigorosa que no restante da Europa. Já os britânicos tentam correr contra o relógio para reverter possíveis estragos do tempo perdido.

    93%

    É o percentual dos britânicos que dizem apoiar as medidas restritivas anunciadas pelo premiê, segundo pesquisa You.gov

    É a posição do Reino Unido entre os países com maior número de pessoas contaminadas na Europa, segundo dados do Centro da União Europeia para Controle e Prevenção de Doenças

    281

    É o número de mortos pelo coronavírus no Reino Unido até 23 de março, segundo dados do Centro da União Europeia para Controle e Prevenção de Doenças

    5.683

    É o número de contaminados pelo coronavírus no Reino Unido até 23 de março, segundo dados do Centro da União Europeia para Controle e Prevenção de Doenças

    Imunidade de rebanho

    As autoridades britânicas mantiveram até esta segunda-feira (23) uma posição ambígua. Embora não negassem nem minimizassem abertamente a ameaça que a pandemia representa, alguns conselheiros científicos do governo tratavam as contaminações e mortes como algo inevitável, que terminaria por levar a uma equalização da doença no longo prazo.

    Quem mais abertamente explicava essa postura era o chefe da equipe de aconselhamento em saúde do governo britânico, Patrick Vallance. Ele considerou que, com 60% das pessoas tendo sido contaminadas, haveria naturalmente imunização total da população, pois o vírus não poderia passar para uma pessoa cujo organismo já tivesse criado defesa. Mas mesmo essa teoria não é aceita por todos os pesquisadores, e não há uma conclusão a respeito da possibilidade de uma pessoa ser contaminada mais de uma vez.

    Essa dinâmica é conhecida no meio médico como “imunidade de rebanho”, ou “herd immunity”, em inglês. “O ponto-chave do que temos de fazer é construir algum tipo de imunidade de rebanho por meio da qual as pessoas que fiquem imunes à doença terminem por reduzir a transmissão”, disse Vallance em entrevista à BBC Rádio 4, em 13 de março de 2020.

    Essa imunidade de rebanho é obtida normalmente quando a maioria da população está vacinada. Como não existe vacina para o coronavírus, a ideia é que as pessoas uma vez contaminadas produziriam os anticorpos. A teoria em si não é polêmica, mas sua aplicação no caso concreto desta pandemia traz problemas práticos que o governo britânico só assumiu agora.

    O mais evidente desses problemas é a saturação dos sistemas de saúde – especialmente o esgotamento dos leitos de UTI e de ventiladores pulmonares – quando um número muito grande de pessoas é contaminada ao mesmo tempo.

    Um estudo publicado por cientistas da London School of Hygiene diz que, no ritmo atual de propagação da doença, o sistema britânico entraria em colapso no final de março. O país tem 4.123 leitos de cuidado intensivo, mas o número de pacientes que precisam desse tipo de internação pode passar os 4.364 por dia, no pior dos cenários. O tempo de internação dos pacientes graves varia.

    O que os casos da Itália, da França e da Espanha – cujos prazos de quarentena vêm sendo estendidos depois de vencidos – demonstram é que mesmo políticas radicais de quarentena levam tempo para provocar uma alteração na curva de crescimento dos casos.

    Em caso de sucesso ou fracasso, o Reino Unido poderá servir como um laboratório – do que fazer e do que não fazer – para os que vinham apostando numa equalização natural da transmissão.

    João Paulo Charleaux é repórter especial do Nexo e escreve de Paris

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