Coronavírus: por que número de casos é maior do que o registrado

Ministério da Saúde reconhece que não é possível conhecer todos os casos existentes. Alta transmissibilidade do vírus, falta de testagem em massa e disparidades regionais são obstáculos à precisão dos números

Diariamente, o Ministério da Saúde divulga um boletim com os números de casos suspeitos, confirmados e fatais da covid-19. O balanço é importante para o planejamento das medidas sanitárias que serão recomendadas ou mesmo impostas à população. Também servem para a conscientização social da alta transmissibilidade do coronavírus.

Os números registrados no governo federal, porém, podem estar abaixo do número real. Foi o que explicou o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta. Em entrevista coletiva (virtual), ele destacou que é bastante provável que muitas pessoas estejam infectadas mas não saibam.

Na mesma linha, Sidney Klajner, presidente do hospital Einstein, que realiza testes da covid-19 em São Paulo, estima que para cada paciente diagnosticado haja outros 15 casos não rastreados no Brasil.

Com a subnotificação dos casos, o engajamento social na quarentena voluntária é cada vez mais necessário, na medida em que o controle da disseminação da doença se torna cada vez mais difícil.

As dificuldades para um número mais preciso

A existência do SUS (Sistema Único de Saúde) no Brasil, como reconhece o ministro Mandetta, é um fator que coloca o país à frente de muitas outras nações no enfrentamento de epidemias. É um sistema único que permite o compartilhamento dos dados sobre a doença e a articulação entre governos estaduais e municipais por todo o território nacional.

Mesmo assim, o sistema encontra obstáculos, já esperados, para detectar os casos de infecção da população. Uma das razões para isso é a ausência da testagem em massa. As redes pública e privada estão restringindo as possibilidades de exame laboratorial aos casos mais graves, na medida em que não há testes suficientes para toda a população, e que a demanda pelos insumos necessários ao kit de exame está alta no mundo todo.

Existe também a possibilidade de diagnóstico por amostragem, pelos quais a notificação é feita pela inferência do nexo causal entre os sintomas clínicos dos pacientes e da situação de epidemia local. Apenas nessas situações os diagnósticos não precisam ser individuais.

Até recentemente, porém, esse tipo de diagnóstico era restrito às localidades onde houvesse concentração significativa de casos ou transmissão comunitária, como na cidade de São Paulo. Em 20 de março, o estado de transmissão comunitária foi reconhecido pelo ministério da Saúde no Brasil como um todo, o que deve ampliar o uso da metodologia.

Em cenários de ausência de testagem massiva como o que se tem por enquanto, experiências em outros países apontam que o distanciamento social por meio de restrições à circulação de pessoas, incluindo o fechamento de locais públicos, pode não ser suficiente para uma desaceleração intensa da transmissão viral. Isso ocorre porque indivíduos contaminados mas assintomáticos, sem saberem que têm o vírus, não realizam o isolamento total, mesmo que permaneçam em casa na maior parte do tempo.

Dessa forma, é bastante provável que, no Brasil, pessoas infectadas, por não saberem disso, estejam mantendo contato com outras pessoas e disseminando o vírus, especialmente para aqueles com quem se divide a residência.

No país, mesmo em cidades e estados que já determinaram a suspensão de escolas e universidades, comércio e outros serviços tidos como não urgentes, a população ainda pode frequentar, por exemplo, farmácias, mercados, bancos, postos de combustíveis e transporte coletivo, serviços essenciais para o funcionamento local.

Além disso, nem todas as localidades contam com uma infraestrutura de saúde preparada para diagnósticos rápidos, o que inclui disponibilidade nas redes pública e particular de testes, laboratórios bem equipados e profissionais treinados para o enfrentamento da pandemia.

Nos municípios carentes de todo esse aparato, os testes têm de ser encaminhados para outras localidades, aumentando o tempo necessário para o diagnóstico e, consequentemente, o tempo de registro do caso no Ministério da Saúde.

No início da crise os testes da rede pública estavam sendo feitos apenas nos laboratórios de referência da Fundação Oswaldo Cruz (Rio de Janeiro), do Instituto Adolfo Lutz (São Paulo), e do Instituto Evandro Chagas (Pará).

Por outro lado, a cidade de São Paulo, por exemplo, além de ter hospitais e laboratórios públicos e privados com capacidade de fazer os testes, criou um centro de contingenciamento para monitorar a pandemia e seus números na região. Essa estrutura, somada ao fato de a capital paulista receber muitas pessoas de viagens aos exterior (o que aumenta a chance de casos), permitiu que a cidade fosse a primeira a reportar casos confirmados ao Ministério da Saúde.

A diferença para outras pandemias

A dificuldade de contagem dos casos é característica de qualquer pandemia, o que explica a imprecisão dos números relacionados às crises de saúde pública. No caso da gripe suína que atingiu o mundo em 2009, por exemplo, as estimativas de vítimas fatais do vírus variam de 151 mil a mais de 575 mil pessoas.

Essa dificuldade de registro agrava-se no caso do novo coronavírus. Isso se deve à sua transmissibilidade, que se dá em ritmo muito mais veloz do que a de epidemias gripais, por exemplo.

Em entrevista à revista Saúde, o virologista Paolo Zanotto atribuiu essa facilidade de transmissão ao fato de que o SARS-CoV-2 combina transmissão respiratória com transmissão oral-fecal (infecção do intestino, com liberação de partículas infecciosas nas fezes), o que eleva a probabilidade de contaminação de ambientes compartilhados.

"Os fatos mostram que não é que nem um vírus de gripe. É muito pior. Primeiro por causa dessa dupla modalidade de transmissão, pegando o pior de vírus entéricos [que infectam o intestino], que geralmente causam surtos avassaladores em espaços confinados, com o de um vírus respiratório"

Paulo Zanotto

virologista, em entrevista à Saúde, em 21 de março de 2020

Além das vias de transmissão, outros fatores que explicam a alta disseminação de um vírus e que estão sendo estudados no caso do coronavírus são sua capacidade de se adaptar a um novo hospedeiro, onde costuma ficar concentrado no corpo humano, o tempo que sobrevive suspenso no ar e sua velocidade de replicação.

O caso da Prevent Senior

O primeiro caso de morte pela covid-19 no Brasil revelou outra dificuldade de registro eficiente dos casos de infecção no Brasil: a necessidade de atualização, conforme o estágio da epidemia na localidade, dos formulários federais usados por hospitais para reportar casos suspeitos.

Nesse primeiro caso, a vítima do coronavírus, de São Paulo, sequer constava na lista de casos suspeitos do Ministério da Saúde. Segundo sua operadora de saúde, a Prevent Senior, isso aconteceu porque a plataforma federal não permitia a notificação de pessoas sem histórico de viagem ou relato de contato com caso suspeito ou confirmado, apesar da existência de transmissão comunitária (quando não é mais possível traçar a rota de transmissão do vírus) na capital paulista.

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