Os programas do SUS que são apostas contra a pandemia

Ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta promete destinar R$ 1 bilhão para iniciativas como os agentes comunitários e o Saúde da Família a fim de evitar disseminação de vírus em comunidades pobres

    Temas

    O ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, pediu na quinta-feira (19) para que os agentes comunitários de saúde de todo o país reforcem o monitoramento de idosos das comunidades em que atuam.

    Com isso, o governo mira a atenção básica em saúde, considerada a porta de entrada do SUS, para evitar que as transmissões se alastrem, especialmente em comunidades mais pobres, e para que os hospitais não entrem em colapso devido à pandemia do novo coronavírus.

    Mandetta chegou a classificar os agentes comunitários como uma “infantaria”. “Vocês estão no front do combate. Os sistemas que centralizaram o atendimento no hospital foram os que colapsaram mais rápido. É erro centralizar atendimento no hospital”, afirmou.

    Por isso, o ministro prometeu a liberação de R$ 1 bilhão para os programas de agentes comunitários de saúde e para o Saúde da Família. As duas iniciativas são dois dos mais bem-sucedidos programas em atenção primária surgidos logo nos primeiros anos após a criação do SUS (Sistema Único de Saúde), em 1988.

    A atenção básica, que é um atendimento inicial que visa orientar e prevenir doenças, acaba funcionando como um filtro que organiza o fluxo de serviços nas redes de saúde pública.

    Os dois programas

    Agentes comunitários de saúde

    Foi criado em 1991, com base em experiências realizadas no Nordeste nos anos 1980. Formados pela e para a própria comunidade em que atuam, os agentes comunitários de saúde têm como função visitar casas, acompanhar o crescimento de crianças, esclarecer dúvidas e encaminhar pessoas a postos de saúde ou a serviços especializados. Sua importância está no fato de planejarem ações de promoção de saúde e prevenção de doenças e monitorarem situações de risco. Até 2018, o país contava com 263 mil agentes, em 98% dos municípios.

    Saúde da Família

    Implantado oficialmente em 1994, o Saúde da Família surgiu por conta do sucesso do programa dos agentes comunitários, por pressão dos secretários municipais de saúde que queriam expandir a iniciativa a outros profissionais. As equipes do Saúde da Família, que trabalham em Unidades Básicas de Saúde, são formadas por um médico generalista, um enfermeiro, um auxiliar ou técnico de enfermagem e agentes comunitários. Cada equipe acompanha de cem a 250 famílias e atendem a um máximo de 750 pessoas. Segundo o Ministério da Saúde, existem mais de 45 mil equipes no país atualmente.

    A fala do ministro

    Durante uma entrevista na quinta-feira (19), Mandetta afirmou que os agentes e os médicos de saúde da família eram fundamentais no enfrentamento à covid-19, doença causada pelo novo coronavírus.

    "Agentes comunitários, façam as listas, vocês sabem onde estão os idosos. (...) Monitorem todo mundo. Vocês têm os telefones dessas pessoas, vocês conhecem elas por nome. Tenham as listas das pessoas com nome, dentro da sua unidade, vocês conhecem todas as comunidades. Isso pode ser fundamental nas comunidades mais carentes, por exemplo, do Rio de Janeiro."

    Luiz Henrique Mandetta

    ministro da Saúde

    Ele pediu para que os profissionais se organizem em pequenos grupos, responsáveis por conjuntos de casas, para auxiliar rapidamente quem tem sintoma.

    Segundo o ministro, será preciso pensar uma forma de garantir o isolamento de pessoas em habitações "muito concentradas de gente". Ele reconheceu que há áreas descobertas pelos programas, mas afirmou que os profissionais serão reorganizados "na medida do possível".

    “Organizem fortemente a atenção primária. Não deixem as pessoas. Abram as unidades básicas para que as pessoas não tenham que ir para UPAs [Unidades de Pronto-Atendimento] e pronto-socorro, tirem elas de lá. O pior lugar para uma pessoa é uma sala de espera superlotada”

    Luiz Henrique Mandetta

    ministro da Saúde

    Uma análise sobre o trabalho dos agentes

    Para entender o papel dos agentes em meio à pandemia, o Nexo ouviu José Jailson da Silva, que começou em 2005 como agente comunitário de saúde no Jardim Ângela, em São Paulo, e hoje preside o Sindicato dos Agentes Comunitários de Saúde do Estado de São Paulo. Segundo ele, apenas na capital paulista, existem cerca de 9.000 profissionais.

    Qual a importância dos agentes comunitários nesse momento?

    JOSÉ JAILSON DA SILVA São importantes, principalmente, para orientar as famílias visitadas diariamente. Nós visitamos de uma forma até diferente agora, para não contaminar. Temos que manter uma certa distância. Usualmente, o agente entra na casa das famílias. O momento, agora, é de orientar da porta pra fora, por duas razões: para proteger as pessoas em suas casas e também para protegermos a nossa saúde. A orientação deve acontecer, mas seguindo os protocolos diferentes do habitual.

    Os agentes tiveram treinamento para lidar com essa nova situação?

    JOSÉ JAILSON DA SILVA Houve um treinamento para os profissionais da saúde como um todo. Esse treinamento foi dado para as pessoas técnicas, que ficaram com a missão de repassar para os agentes comunitários de saúde. Aqui na cidade de São Paulo a gente acompanha o que a Secretaria municipal de Saúde informa oficialmente. Uma das cobranças que o sindicato fez foi essa orientação adequada para que os profissionais possam atuar em segurança. Algumas orientações foram passadas pela secretaria para as OSs [organizações sociais] que gerenciam as Unidades Básicas com Saúde da Família na cidade. O protocolo é fazer uma visita mais segura, não entrar mais nas residências e respeitar uma distância. Em algumas regiões, é exigida a assinatura do usuário no relatório de visita. A pedido de sindicato, isso foi suspenso, até para não compartilhar canetas. Talvez os agentes não tenham recebido o treinamento com a qualidade necessária, até porque o Brasil não se preparou com uma antecedência necessária para o que está acontecendo hoje, tudo foi em cima da hora. Mas, minimamente, esses profissionais estão tendo as orientações básicas por parte da secretaria e das OSs.

    Cada agente consegue ter esse controle que o ministro defende?

    JOSÉ JAILSON DA SILVA Os agentes têm as suas visitas domiciliares. Eles anotam e repassam para o sistema de atenção pública praticamente todas as informações que ele encontra nos domicílios. Inclusive, os idosos têm programas específicos, já que muitos trazem algumas doenças como diabetes e hipertensão. Eles são um seguimento na saúde da família que é prioridade. Esses dados existem não apenas para os agentes de saúde, porque eles até fazem pouco uso desses dados. Ele não é um profissional técnico, mas alimenta toda a unidade, a secretaria e o ministério com o número de idosos no bairro. Eles têm muitas informações, formulários e planilhas próprias que contêm essas informações e alimentam as unidades de saúde com essas informações.

    Os agentes podem evitar que os hospitais entrem em colapso?

    JOSÉ JAILSON DA SILVA O ministro tem razão. Nesse momento, o que vem na mente da população? Medo, pânico e desespero. E esses profissionais, bem orientados, bem capacitados, com certeza prestarão um grande serviço. Não é lá na Unidade Básica enfrentando as pessoas com sintomas. É na própria comunidade. É nas casas, pedindo para que as pessoas se cuidem ainda mais, que tomem as medidas orientadas pela Organização Mundial de Saúde, pelo Ministério da Saúde, pelas secretarias estadual e municipal, reforçando que não se aglomerem, não saiam se puderem, que busquem o equipamento de saúde em caso de extrema necessidade, porque a ideia é que quem tenha algo que possa esperar, fique em casa, para que a gente possa ter o controle dessa contaminação comunitária, estágio em que estamos no Brasil. Os agentes são importantíssimos para que a comunidade seja bem informada. Se todo mundo correr para os hospitais com qualquer problema de saúde, é um foco de contaminados que pode propagar o vírus em massa. A estrutura de saúde pública e privada não está preparada para receber milhares de contaminados de uma só vez. Nós faremos, sim, a diferença. E é a população idosa que mais precisa ser orientada para ficar isolada dentro de casa. Se os agentes conseguirem chegar às famílias e elas aceitarem as orientações e cuidarem de seus idosos, com certeza o país terá uma estatística muito menos traumática do que os países lá fora.

    Como fazer as pessoas em comunidades pobres e periféricas, que precisam se deslocar para o trabalho em regiões centrais, a ficar em casa?

    JOSÉ JAILSON DA SILVA Isso vai depender de como o governo e os empresários se comportarem. Pelo o que a gente está percebendo, muitos postos de serviços terão o horário reduzido ou até mesmo serão fechados. Muitas vezes as populações das periferias não terão a opção de ficar em casa. Nunca é opção do trabalhador de baixa renda ficar em casa. Não tem como exigir. Só vai ficar mesmo em casa se a empresa deixar de funcionar.

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