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Como as companhias aéreas vão atravessar a crise do coronavírus

Setor é um dos primeiros a sentir os impactos econômicos da pandemia. No Brasil, empresas e governo se mobilizam para evitar prejuízos maiores

    Os casos de coronavírus pelo mundo se multiplicaram rapidamente entre o início do surto da doença na China, em dezembro de 2019, e março de 2020. A pandemia, o mais grave dos três cenários infectológicos, levou a medidas restritivas, como a opção pelo distanciamento social e a limitação de viagens internacionais, com fechamento parcial ou total de fronteiras.

    Inseridas nesse quadro estão as empresas aéreas, que desde os primeiros momentos do surto do novo coronavírus sentem os golpes em suas atividades. Cada vez menos pessoas procuram os serviços de transporte aéreo e cada vez mais governos restringem voos.

    Tudo indica que a crise será forte e possivelmente duradoura para o setor: as previsões são de perdas bilionárias de receitas e valor de mercado das companhias. Operações de repatriação de turistas suscitadas pela pandemia não dão conta de preencher as atividades das empresas. Pelo mundo, diferentes governos lançam ou elaboram planos de socorro para o setor, e medidas já são tomadas também no Brasil.

    Abaixo, o Nexo traça o panorama da crise no setor aéreo brasileiro e mostra o que tem sido feito para minimizar o prejuízo.

    A crise do setor aéreo em números

    85%

    foi a queda na procura por voos internacionais entre 16 e 20 de março de 2020 em relação ao mesmo período do ano anterior

    50%

    foi a queda na procura por voos domésticos entre 16 e 20 de março de 2020 em relação ao mesmo período do ano anterior

    90%

    da frota da Gol está parada

    70%

    da frota da Latam está parada

    US$ 113 bilhões

    é a perda potencial de receitas para companhias aéreas do mundo inteiro em 2020, segundo a Associação Internacional de Transporte Aéreo. A estimativa foi feita antes dos EUA restringirem a entrada de voos vindos da Europa, da China e da Coreia do Sul

    80%

    é o tamanho aproximado das perdas no valor de mercado das companhias aéreas nas bolsas entre 1° de janeiro e 19 de março de 2020

    VALOR DE MERCADO EM QUEDA

    Variação na bolsa em relação ao início de 2020 - Gol, Latam e Azul.  Quedas de 80% em menos de três meses

    Os custos de uma companhia aérea

    Entre os custos de operação de uma companhia aérea estão o combustível, salários, compras de aeronaves e tarifas pagas aos aeroportos e governo. Muitos desses gastos estão atrelados ao dólar.

    Historicamente, a principal despesa das empresas do setor é aquela feita com combustível, ficando na casa de 30% dos gastos nos últimos anos com dados disponibilizados pela Associação Brasileira das Empresas Aéreas. Nos primeiros meses de 2020, o cenário para a compra de combustível para as companhias que operam no Brasil é influenciado por dois elementos centrais: a queda no preço internacional do petróleo – material usado para fabricar o combustível – e a desvalorização do real frente ao dólar. Os dois efeitos vão na direção contrária: se o petróleo fica mais barato em dólar, o dólar fica mais caro em real.

    O câmbio alto pode anular a queda no preço do barril ou até levar a um aumento no preço do combustível. Mas, independentemente do preço do combustível, a tendência é de que as companhias aéreas reduzam as compras do produto, uma vez que estão diminuindo o número de voos.

    Ao mesmo tempo, as empresas buscam cortar outros gastos, como, por exemplo, aquele com pessoal. As aéreas brasileiras anunciaram que irão diminuir jornadas de trabalho e salários para reduzir a sangria no momento de crise.

    Mas nem todos os custos são passíveis de redução. As companhias aéreas irão continuar pagando, por exemplo, a manutenção de aeronaves e o seguro dos aviões. Isso significa, portanto, que mesmo que tentem cortar gastos, as empresas aéreas não necessariamente conseguirão compensar as perdas enormes previstas para suas receitas.

    As ações do governo para o setor

    A perspectiva dramática para as empresas aéreas levou diversos governos a agir. Países como Nova Zelândia, EUA, Noruega e Finlândia já prepararam os primeiros esforços de ajuda, principalmente com oferecimento de pacotes de crédito para o setor.

    No Brasil, o governo publicou na quinta-feira (19) uma Medida Provisória que adia operações que exigem que as empresas aéreas tirem dinheiro de seus cofres e consigam manter uma parte em caixa. Em primeiro lugar, os reembolsos a clientes com viagens canceladas poderão ocorrer em até 12 meses, aliviando temporariamente a obrigação de devolver o dinheiro.

    Além disso, os aeroportos concedidos à iniciativa privada também poderão pagar as contribuições ao governo apenas no final de 2020. Essa medida pode reverberar para as empresas aéreas, com a redução nas cobranças de taxas pelas empresas que administram os aeroportos. O governo ainda irá adiar, por decreto, o prazo de pagamento das tarifas de navegação que são cobradas das empresas aéreas.

    Há ainda medidas que não são específicas ao setor aéreo, como a possibilidade de cortar até metade da jornada de trabalho e redução proporcional do salário. As aéreas já anunciaram que vão aderir às medidas de emergência.

    O panorama do mercado

    O mercado aéreo brasileiro é um mercado concentrado. Quatro empresas dominam praticamente todo o setor, respondendo por 99,6% das atividades aéreas. São elas: Gol, TAM, Azul e Avianca – sendo que a Avianca vive um momento crítico e teve participação de 3,7% no mercado em 2019.

    O QUADRO DE 2019

    Divisão do mercado aéreo brasileiro – voos domésticos. Domínio de Gol, TAM e Azul

    Antes da pandemia do novo coronavírus, o mercado brasileiro de aviação civil já havia passado por mudanças nos últimos anos da década de 2010. Desde o início de 2017, é permitida a cobrança pelo despacho de malas separada do valor da passagem. Em 2019, foi firmado um novo marco legal para o setor, permitindo que a participação de capital estrangeiro em empresas que operam no Brasil chegue a 100% do total da companhia. A ideia por trás da mudança é de aumentar a competição no segmento e facilitar a entrada de empresas de baixo custo no Brasil. Algumas empresas de baixo custo já operam no país.

    As perspectivas para o setor aéreo após a crise

    Para entender a atuação do governo na ajuda ao setor e compreender o que o período de crise reserva às companhias aéreas, o Nexo conversou com Fabio Falkenburger, sócio de infraestrutura do escritório Machado Meyer e especialista no setor aéreo.

    Faz sentido um auxílio direto para as aéreas? Isso não cria uma assimetria com outros setores com custos altos?

    Fabio Falkenburger Faz sentido porque é o setor que sofreu mais em menor tempo. Quando vemos o setor inteiro cancelando quase 100% dos voos internacionais e metade dos voos domésticos, com custos atrelados ao dólar (que está subindo) e sendo um serviço público (as empresas aéreas são concessionárias), cabe sim ao governo intervir para evitar uma quebra total do setor.

    Neste caso de uma crise sem precedentes, o governo vai ter mesmo que equilibrar pratos, socorrendo os setores na medida em que eles forem necessitando, para evitar uma ruptura geral da economia. O governo vai ter que ir ajustando na medida em que as urgências aparecerem. E a primeira, mesmo, foi do setor aéreo, porque com custo em dólar, sem receita e os custos operacionais que já são altos normalmente, se não houver uma ajuda do governo, elas [as companhias] não têm como aguentar.

    As empresas estão fazendo o que é possível. Já anunciaram a redução temporária dos salários, que é uma coisa que já é permitida, a readequação de pessoal, o cancelamento de rotas que não poderiam ser usadas ou sem sentido econômico, mantendo os voos que são viáveis. E torcendo e negociando com o governo para ter todo tipo de ajuda possível. Acho que ainda cabe uma redução tributária na compra de combustível e, até, em último caso, um financiamento do próprio governo para que as empresas continuem com fôlego para operar.

    Adicionaria que as medidas do governo valem também para os operadores aeroportuários. O que, de certa forma, também alivia as companhias aéreas. É um esforço conjunto, com todo mundo dando sua contribuição de sacrifício para o todo ficar em pé. É tudo uma cadeia.

    Passada a pandemia, com a reabertura de aeroportos e as pessoas voltando a viajar, o que será necessário para essas companhias voltarem a operar regularmente?

    Fabio Falkenburger Primeiro, a gente imagina que vai haver uma tendência não só no Brasil, como mundial, de consolidação. Aquelas companhias que tiverem mais caixa e saúde financeira tendem a eventualmente adquirir outras que ficarão em uma situação econômica mais frágil.

    Agora, o que se espera é que passada esta crise e a vida voltando ao normal, as pessoas voltem a viajar e voltem a utilizar o transporte aéreo, e nisso o setor retome [as atividades]. Mas não vai ser imediatamente. Ainda com toda a ajuda que se tem hoje do governo – e pode-se esperar talvez mais outras medidas daqui em diante –, mesmo assim o fato é que as companhias estão com um prejuízo altíssimo.

    Tudo vai passar por uma repactuação geral do setor; que vai envolver as empresas financiadoras, o governo e os tributos; vai envolver as próprias companhias aéreas acomodando os consumidores que hoje têm passagens e que não puderam voar. Então acho que é um momento de ceder um pouco para a coisa voltar ao normal um dia. E quando falo “um dia”, imagino meses depois de acabada a crise.

    Existe uma chance de a crise alterar o cenário de competição no mercado brasileiro?

    Fabio Falkenburger Não dá para dizer que qualquer uma das três [Gol, TAM e Azul] estão com risco iminente de insolvência. O que pode haver, dependendo de como cada um delas vai lidar com redução de frotas e redução de rotas nesta crise, é que talvez ali na frente quando a coisa voltar ao normal haja uma outra configuração de malha e de market share. É só uma conjectura, não dá para prever agora. Mas é possível.

    O ambiente regulatório já permite empresas controladas por capital estrangeiro operarem. E quem sabe as empresas com fôlego maior veem no final da crise um momento de entrar nesse mercado que vai retomar, com fôlego para competir de igual para igual com as empresas que já estão aqui operando. Essa é uma possibilidade.

    Antes da crise, tínhamos já a perspectiva de novas companhias querendo entrar no mercado. Não sabemos como vai ficar o apetite delas pós crise, mas num cenário em que elas ainda queiram e ainda possam investir no mercado brasileiro, certamente vai mudar a configuração do que temos hoje.

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