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Qual a situação do coronavírus no continente africano

Apesar de registrar poucas contaminações, projeções indicam problemas à frente. OMS pede que autoridades ‘acordem’ o quanto antes

    Os países africanos estavam até sexta-feira (20) entre os menos afetados do mundo pela pandemia do coronavírus. Apenas 0,33% dos casos mundiais foram registrados em 35 dos 54 países do continente.

    Esse cenário, entretanto, pode mudar. Especialistas da OMS (Organização Mundial da Saúde) estão preocupados com os efeitos que a expansão do vírus pode vir a ter em países onde a rede de saúde é precária, as possibilidades de aplicação de quarentena são mais estritas e a rede de proteção social, mais frágil.

    No mundo todo, o vírus levou três meses para atingir 100 mil pessoas, mas a partir daí, em apenas 12 dias, dobrou o número de infectados para 200 mil, com a barreira dos 10 mil mortos sendo ultrapassada na sexta-feira (20).

    Desde o início da contagem dos casos, em 31 de dezembro de 2019, a África permanece relativamente preservada, enquanto o surto fez a China e, em seguida, a Europa se alternarem na condição de epicentro da doença.

    No continente africano, a maioria dos casos foram registrados no Egito (196 casos) e na África do Sul (116), de acordo com dados disponibilizados até quinta-feira (19) pela Agência da União Europeia para Controle e Prevenção de Doenças, um dos órgãos que vêm sistematizando dados sobre a pandemia no mundo.

    Depois de Egito e África do Sul, vêm dois países da região do Magreb: Argélia (73) e Marrocos (54). A preocupação maior é com o que pode acontecer com os países da região chamada de África subsaariana, onde as condições econômicas e sanitárias são ainda mais precárias, em comparação com esses países do norte do continente.

    Coronavírus na África até 20 de março de 2020

    Gráfico mostra casos de coronavírus em 10 países africanos

    A primeira morte por coronavírus na região subsaariana foi reportada em Burkina Faso na quarta-feira (18), disparando o alarme na OMS. O etíope Thedros Adhanom, diretor-geral da OMS, disse em Genebra: “A África precisa acordar porque nós vimos em outros países como a propagação do vírus se acelera a partir de um certo ponto.”

    Ele reconhece que o continente deve ter um número alto de subnotificações. Vários países africanos têm ligações importantes com a China, que realiza algumas das maiores obras de infraestrutura no continente. Esse intercâmbio com o epicentro original da doença pode ter disseminado o vírus.

    Para Adhanom, os africanos devem estar “preparados para o pior” nos próximos dias. Em Burkina Faso, os casos passaram de 7 para 27 em 24 horas. A vítima fatal foi uma mulher de 62 anos que era diabética.

    Mapa Sahel

    Burkina Faso é um dos países que fazem parte da região do Sahel, onde uma força multinacional, com apoio da França, combate grupos extremistas islâmicos. O contexto de insegurança é mais um empecilho para o trânsito dos médicos e das agências humanitárias caso o surto se avolume, como é esperado.

    Terceira onda preocupa

    Especialistas em ajuda humanitária temem a ocorrência de uma “terceira onda” da doença nos países mais pobres e periféricos, depois que o pico tiver baixado na Ásia e na Europa.

    Essa “terceira onda” poderia provocar um fluxo migratório ligado a questões de saúde na direção dos países desenvolvidos, reproduzindo em escala aumentada a crise registrada em 2015, quando uma onda semelhante ocorreu na Europa, puxada por vítimas da guerra na Síria.

    Outra preocupação é com a capacidade humana e de equipamentos para os que normalmente prestam socorro internacional nessas situações. A pandemia em curso pegará os países ricos lutando para se recuperar do que pode ser o maior recuo econômico desde a Segunda Guerra Mundial. Isso reduz a disposição para financiar programas humanitários em outras regiões.

    Além disso, a falta de equipamentos de proteção individual para as equipes médicas – que tem sido um problema mesmo nos grandes centros industrializados da Europa – deve ter impacto sobre a capacidade de ação tanto dos hospitais africanos quanto dos efetivos ligados às agências humanitárias internacionais.

    As vantagens de um continente jovem

    Se, por um lado, a África é vulnerável por causa das precariedades econômicas e sociais, por outro, o continente tem a seu favor o fato de ter uma grande população jovem e uma pequena população idosa.

    Esse fator é importante porque a taxa de letalidade entre os idosos é maior do que entre os jovens, no caso do coronavírus. Os números variam entre os países, mas na Itália, por exemplo, 60% dos casos confirmados estão entre os maiores de 60 anos.

    A África tem 1,3 bilhão de pessoas, mas apenas 5% dos africanos têm mais de 65 anos de idade. Esse índice é de cerca de 22% na Itália, onde a taxa de letalidade do vírus foi de 7% – o que representa o dobro da média mundial.

    Esses cálculos, no entanto, podem não ser uniformes para o mundo todo. A Alemanha, por exemplo, é um caso que destoa. Embora o país também tenha, assim como a Itália, uma população idosa alta (21,1% dos alemães têm mais de 60 anos), apenas 10% dos casos confirmados no país incidiram em pessoas dessa faixa etária.

    Até quinta-feira (19), a Alemanha tinha apenas 13 mortes registradas, num total de 8.198 casos registrados, uma das proporções de letalidade mais baixas. Especialistas acreditam que isso esteja ligado ao fato de os alemães terem aplicado uma política de testes mais abrangente e precoce do que países como a Itália.

    João Paulo Charleaux é repórter especial do Nexo e escreve de Paris

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