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O impacto do coronavírus na cultura. E o papel dos governos

Prejuízo para indústria com cancelamento de shows e adiamento de estreias de cinema poderá ser milionário. Países anunciam medidas para mitigar efeitos da pandemia no setor

    Temas

    Sessões de cinema, espetáculos de teatro, shows de música, baladas, exposições em museus. A diversidade do setor cultural se encontra em um ponto em comum: são atividades que dependem da aglomeração de gente para sobreviver.

    Sem poder funcionar, não se pode contar com o dinheiro do ingresso, tão importante para manter respirando uma cadeia que tem no artista sua ponta mais visível, mas inclui dezenas de outras profissões e atividades, diretas e indiretas. Estas vão de profissionais técnicos que atuam por trás das câmeras ou dos palcos até uma vasta rede de fornecedores terceirizados ou autônomos, dos motoristas ao ambulante que vende cerveja na porta do show.

    Esses profissionais geralmente não ganham salário fixo nem têm carteira assinada. Cerca de 44% atuam de maneira autônoma, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Em condições normais, já é uma vida sujeita a imprevisibilidades. Ficar sem trabalhar por longos períodos pode ser financeiramente devastador.

    De acordo com dados do IBGE de 2018, cerca de 5 milhões de pessoas trabalham no setor cultural brasileiro. Representam 5,7% dos ocupados do país. Segundo estimativa de 2017, parte do “Atlas Econômico da Cultura Brasileira”, lançado pelo Ministério da Cultura, o setor foi responsável por 2,64% do PIB (Produto Interno Bruto).

    Sem shows ou festivais

    Diversos festivais marcados para os próximos meses no Brasil foram cancelados ou adiados. Entre eles, está o americano Lollapalooza, marcado inicialmente para abril e postergado para dezembro de 2020. A edição de 2019 do evento juntou quase 250 mil pessoas durante três dias.

    Em São Paulo, a Virada Cultural, um dos maiores encontros musicais do país, foi também passada para o mês de setembro. De norte a sul, pelo menos 11 festivais não irão mais acontecer nas datas previstas, de acordo com o site Mapa dos Festivais.

    Um levantamento da conferência musical SIM São Paulo indicou mais de 5 mil shows ou atividades atingidas nas últimas semanas. Baseada nas respostas de mais de 350 empresas do setor, em 18 estados brasileiros, o prejuízo é estimado em aproximadamente R$ 442 milhões. O público esperado para os projetos suspensos era de 3,4 milhões de pessoas.

    Nos EUA, eventos de peso como os festivais SXSW (South By Southwest), de música, cinema e tecnologia, e Coachella foram cancelados. Todos os shows de março da Live Nation e da AEG, as duas maiores produtoras de turnês do mundo, foram interrompidos.

    No Reino Unido, casas de shows e turnês se preparam para enfrentar grandes prejuízos com as dezenas de cancelamentos. Entre as turnês bloqueadas estão Avril Lavigne, The Who, Green Day, Pearl Jam e Madonna. Na França, o Tomorrowland, maior evento de música eletrônica do mundo, teve sua data em março cancelada.

    Segundo a revista americana Billboard, mais de 20 mil shows foram suspensos entre janeiro e março na Ásia. Os cancelamentos incluem turnês de nomes grandes como Avril Lavigne, Green Day e BTS. Os prejuízos podem chegar a US$ 286 milhões (cerca de R$ 1,4 bilhão de reais, segundo cotação de 20 de março).

    Nos últimos dez anos, shows e apresentações ao vivo se tornaram a principal fonte de renda de artistas que ganhavam cada vez menos dinheiro com vendas de músicas e álbuns. Em 2019, no Reino Unido, o ao vivo era responsável por mais de um quinto da receita do setor da música.

    A queda no cinema

    “A avalanche de cancelamentos de última hora e atrasos das estreias que movem os motores comerciais da indústria significam que o impacto da catástrofe da Covid-19 [em Hollywood] irá muito além de 2020”, afirmou a revista americana Variety, um dos principais veículos que cobre a indústria cinematográfica americana.

    Mundialmente, estima-se que o cinema deverá perder cerca de US$ 5 bilhões, segundo a revista Hollywood Reporter. Boa parte das perdas são consequência da queda do mercado chinês, o segundo do mundo. Entre janeiro e o início de março, o país asiático fechou cerca de 70 mil salas.

    No Brasil, o setor audiovisual já se encontrava em crise diante de ataques por parte do governo Bolsonaro. Em uma dessas investidas, o presidente apresentou um projeto que previa um corte de quase 43% no FSA (Fundo Setorial do Audiovisual), a maior fonte de fomento do cinema nacional.

    Além disso, a Ancine (Agência Nacional de Cinema) vem dificultando a realização de projetos e a Secretaria do Audiovisual segue com a chefia vaga desde dezembro de 2019.

    No fim de semana, pela primeira vez na história, o Brasil não teve nenhuma estreia de cinema. Em 17 de março, quase 600 salas de cinema em todo o país (cerca de 16% do total) se encontravam fechadas por motivos sanitários. “O prejuízo é enorme e todas as salas do Brasil vão fechar, é só uma questão de tempo”, afirma Paulo Sérgio, diretor do site Filme B, especializado no mercado cinematográfico, à Folha de S. Paulo.

    Demandas por ação

    Representantes dos setores culturais de vários países pressionam governos para que implementem medidas que aliviem os prejuízos de instituições, empresas e trabalhadores da área.

    No Brasil, entidades ligadas à música, ao cinema e à cultura cobram as autoridades. Na quinta-feira (19), entidades do audiovisual brasileiro protocolaram um ofício que exige a tomada de medidas emergenciais para ajudar a área. O documento é destinado ao Congresso, aos ministérios da Economia e do Turismo, à secretaria Especial da Cultura e à Ancine.

    Localmente, iniciativas pedem proteção contra os meses de privação que podem vir. No Distrito Federal, por exemplo, a Frente Unificada da Cultura sugere ações como um fundo de emergência para pagar projetos selecionados em editais já aprovados e a criação de um esquema de assistência financeira a instituições de arte e profissionais do setor.

    Ajudas governamentais

    O governo brasileiro anunciou medidas para auxiliar empresas e trabalhadores durante os meses de desaceleração econômica, sem incluir ações espec��ficas para o setor cultural. Na sexta-feira (20), a secretária especial da Cultura, Regina Duarte, anunciou três providências dirigidas a projetos culturais que usam benefícios de fundos setoriais ou captação por meio da Lei Rouanet, entre elas um formato de avaliação mais flexível na prestação de contas da proposta.

    As ideias são tímidas se comparadas a iniciativas em outros países. Na Alemanha, o ministério da Cultura afirmou que vai ajudar financeiramente instituições culturais independentes e profissionais criativos freelance. Em Berlim, museus, teatros, óperas, salas de concerto e casas noturnas estão fechadas desde 13 de março até, pelo menos, 19 de abril.

    “Estou ciente de que essa situação coloca um grande fardo para as indústrias culturais e criativas e pode causar angústia considerável, especialmente para instituições menores e artistas independentes”, declarou a ministra Monika Grütters, em comunicado. Ela lembrou que a indústria cultural do país gera receitas de mais de US$ 111 bilhões anualmente, sendo mais valiosa que a indústria química ou de serviços financeiros. Gritters afirmou que a cultura é “sistemicamente relevante” para a economia alemã.

    Outros países europeus que determinaram apoio a seus setores culturais incluem o Reino Unido, com subvenções e benefícios a pequenas empresas e empreendedores individuais, a França, com uma série de programas de auxílio à forte indústria cinematográfica do país.

    Na América do Sul, o Equador propôs um esquema de remuneração para artistas de menor renda realizarem apresentações em suas casas. Em São Paulo, a prefeitura destinou cerca de R$ 10 milhões para o projeto Janelas de São Paulo, para apresentações musicais em janelas e sacadas com transmissão pela internet. A ideia é inspirada nas cantorias realizadas por cidadãos italianos em suas sacadas e cujos vídeos se popularizaram na internet.

    Risco de colapso

    O Nexo conversou com Leandro Valiati, especialista em economia da cultura. Ele é professor da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) e professor visitante da Universidade Queen Mary, em Londres.

    É importante que governos proponham medidas para ajudar os setores da cultura? Por quê?

    LEANDRO VALIATI É fundamental. Mesmo em períodos sem crise, o setor cultural é estratégico para o desenvolvimento econômico, pois gera emprego e renda qualificados, faz parte de cadeias econômicas inovadoras no que toca a tecnologias de informação e comunicação, reproduz valores de identidade e promove empatia (algo que o mundo, e especialmente o Brasil, estão necessitando fortemente no período político que vivemos), além de promover impactos socioeconômicos amplos. Dentro do contexto dessa crise da pandemia global, o setor cultural está sofrendo os impactos mais que proporcionalmente em relação ao restante da Economia, sobretudo porque grande parte de suas atividades-fim estão baseadas em aglomerações de público e contato interpessoal. Sem apoio do Estado esse setor vai entrar em colapso no Brasil e no mundo. Já são visíveis ações muito relevantes para esse setor na Inglaterra, França, Estados Unidos e Alemanha.

    A cultura no Brasil já vinha sentindo impacto negativo diante de políticas e decisões do governo Bolsonaro. O que pode acontecer com essa área agora com os efeitos do coronavírus?

    LEANDRO VALIATI Essa crise chega para o setor cultural e de indústrias criativas brasileiro no pior momento possível. Os últimos governos (segundo mandato de Dilma Rousseff e Michel Temer) já vinham promovendo um brutal corte de investimentos na cultura por conta da crise econômica e ajustes orçamentários públicos. Mas ainda havia ao menos uma narrativa de valorização da área, o que poderia ser um alicerce para a retomada de políticas. O atual governo seguiu a trajetória dos anteriores no que toca ao desprestígio orçamentário para a área e aprofundou isso com uma narrativa de batalha ideológica contra o setor progressista da cultura (responsável por uma grande fatia do mercado, das atividades organizadas do setor e da produção de valor social, de inovação e econômico). Isso gerou talvez a mais grave crise para a área na história do Brasil e que agora está combinada com potencialmente a mais grave crise da história econômica e social do mundo no pós-guerra. Os efeitos serão trágicos se o atual governo não rever sua posição e passar a suportar também esse segmento nessa crise. Poderão se preservar desde já cadeias produtivas que serão, na minha opinião, estratégicas na retomada pós-crise. Não ter nenhuma ação compensatória para a cultura e deixar o setor entrar em colapso tornará esse governo responsável pelo país abrir mão de uma indústria que é criativa, inovadora e conectada a valores economicamente relevantes nessa nova fase do capitalismo que se apresentará no pós-crise. Fechar os olhos para isso é um erro histórico e irresponsável.

    ESTAVA ERRADO: A primeira versão deste texto afirmou que a prefeitura de São Paulo iria destinar cerca de R$ 100 milhões para o programa Janelas de São Paulo. O valor correto é R$ 10 milhões. A informação foi corrigida às 12h43 do dia 22 de março de 2020. Outra informação corrigida foi a conversão do prejuízo dos cancelamentos de shows na Ásia, anteriormente colocada como R$ 1,4 milhão. Essa informação foi corrigida às 11h44 do dia 23 de março de 2020.

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