Por que a Itália superou o número de mortos da China

Mesmo sob quarentena, italianos ultrapassam chineses à medida que o sistema sanitário luta para lidar com o afluxo contínuo de pacientes. Professor da USP explica as variações de incidência e letalidade

    A Itália ultrapassou na quinta-feira (19) a China como o país com o maior número de mortes provocadas pela pandemia do novo coronavírus. Enquanto os chineses celebravam a diminuição de seus números, com o registro de novos óbitos chegando perto de zero, os italianos viam a quantidade de vítimas fatais subir sem parar. Na sexta-feira (20), novo recorde: 627 mortos num único dia.

    Até sexta-feira (20), a China tinha 81.337 casos registrados, com 3.254 mortes. A Itália tinha, até a mesma data, 41.035 casos registrados, mas com 3.407 mortos, de acordo com dados coletados junto aos respectivos governos pela Agência da União Europeia para o Controle e a Prevenção de Doenças.

    A população da China é de 1,3 bilhão de pessoas. Só a província chinesa de Hubei, epicentro mundial da pandemia, tem 56 milhões. A Itália, em contraste, tem 60,4 milhões de habitantes no total, dos quais 16 milhões vivem no norte do país, região mais afetada, onde o governo impôs primeiro a quarentena de seus moradores.

    7%

    É a taxa de mortalidade na Itália, o dobro da taxa mundial

    2,9%

    É a taxa de mortalidade em Wuhan, capital da província de Hubei, na China

    Apesar das enormes disparidades de tamanho, a pequena Itália acabou passando a gigantesca China não apenas em termos percentuais, mas também em números absolutos.

    Há duas explicações possíveis para esse acontecimento, segundo disse ao Nexo Fredi Alexander Diaz Quijano, professor associado do Departamento de Epidemiologia da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo.

    A “mortalidade” numa pandemia como essa está relacionada principalmente a dois fatores: “incidência” e “letalidade”, disse Quijano.

    Medidas do governo levaram à maior incidência

    O primeiro fator que pode ter influenciado a alta mortalidade no quadro italiano é a incidência – algo que diz respeito fundamentalmente à aparição de novos casos.

    Esses novos casos podem ter aparecido em número tão grande na Itália porque as estratégias preventivas foram implementadas mais tardiamente e com menos rigor do que na China.

    A quarentena teve início na Itália no dia 8 de março, quando 7.300 casos tinham sido registrados no país. Na China, a quarentena foi decretada apenas em Wuhan – epicentro mundial da doença à época –, no dia 23 de janeiro, quando havia apenas 600 casos da doença no mundo todo. Isso foi apenas duas semanas depois de o vírus ter sido identificado na China.

    Além de ter começado mais cedo, a quarentena na China também foi mais estrita. O governo usou a polícia e as Forças Armadas para forçar um recolhimento extremo dos moradores, de uma maneira que não se deu na Itália, onde, mesmo sob quarentena, e com o número de mortos batendo recordes, moradores do norte do país viajaram para o sul – 15% dos viajantes estavam com febre, e podem ter ajudado a espalhar a doença para o restante do país.

    Com medidas preventivas mais frouxas, a Itália acabou registrando um número maior de casos, proporcionalmente em relação à população. O fato de o país ser uma democracia e as pessoas terem as liberdades individuais como um grande bem torna muito mais difícil o uso de medidas de força para manter as pessoas presas em casa, embora a dificuldade de conter o vírus, mesmo na quarentena atual, esteja empurrando países europeus para atitudes mais severas, como a aplicação de multas e penas de prisão.

    População mais idosa causou maior letalidade

    O segundo fator que pode ter influenciado essa diferença de casos entre a Itália e a China – com os italianos disparando nos gráficos – é a “letalidade” – algo que diz respeito ao número de pessoas que, depois de infectadas, morrem.

    É sabido que, em geral, o coronavírus é mais letal entre pessoas com mais de 65 anos de idade, embora os percentuais de letalidade entre os idosos possam variar de um país a outro.

    Na Itália, 23% da população é idosa. Os idosos com mais de 70 anos concentraram 80% das mortes no país. Na China, a população idosa corresponde a 12,6%, e a taxa de mortalidade nesse público se dividia assim: 14,8% entre os com mais de 80 anos, 8% entre pessoas de 70 a 79 anos e 3,6% entre 60 e 69 anos.

    “Um país com maior número de idosos terá maior letalidade e isso vai incidir na mortalidade”, disse Quijano, ressalvando que, “para ter conclusões definitivas, em todo caso, serão necessárias análises mais abrangentes”.

    João Paulo Charleaux é repórter especial do Nexo e escreve de Paris

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