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O que é romance de entretenimento, nova categoria do Prêmio Jabuti

Tradicional premiação literária do Brasil dividiu a categoria Melhor Romance em duas, com a ideia de contemplar obras com apelo popular e comercial

    Temas

    O Jabuti, principal prêmio da literatura brasileira, anunciou na terça-feira (17) mudanças que passam a valer a partir de 2020: a categoria de “Melhor Romance” foi dividida em duas: “Melhor Romance Literário” e “Melhor Romance de Entretenimento”.

    A organização define ambos os tipos de romance como “narrativa ficcional em prosa, geralmente longa, cujo enredo se desenvolva relacionando personagens numa sequência temporal”.

    No caso do “romance de entretenimento”, o tema deve ser obrigatoriamente um destes: policial, ficção científica, fantasia, terror, romance romântico, suspense e aventura. Já o “romance literário” é de tema livre e, segundo a organização, será premiado de acordo com “as qualidades do texto, privilegiando a forma, a arte literária.”

    A repercussão nas redes sociais

    O anúncio da divisão repercutiu nas redes sociais, trazendo diversas críticas à decisão da organização do Jabuti.

    “O problema está na divisão entre os livros de ‘entretenimento’ e os ‘literários’. Uma obra voltada ao grande público também não pode ser literária?”, escreveu o perfil da página de notícias literárias Sem Spoiler no Twitter.

    “Jabuti abrindo categoria para ‘Melhor Romance de Entretenimento’, porque deuzulivre [sic] passar um ano sem premiar a última autoficção sobre a vida sexual do escritor de classe média”, afirmou, na mesma rede social, o autor Samir Machado de Machado, vencedor do Prêmio Açorianos de Literatura em 2017 na categoria Narrativa Longa com o livro “Homens elegantes” (2016).

    “Sobre o Jabuti e a categoria ‘romance de entretenimento’. É hierarquizante e elitista mas o que esperar de um prêmio com uma curadoria quase 100% branca?”, afirmou, também no Twitter, Juan Jullian, autor de “Querido Ex”.

    “Minha opinião sobre o Jabuti de ‘romance de entretenimento’ é que é tipo colocar o irmãozinho mais novo pra jogar vídeo game com o controle desconectado do console”, disse Janaína Bianchi, autora do terror “Lobo de Rua”, na mesma rede social.

    “Como pesquisadora de autoria de mulheres, reconheço historicamente a marca elitista na divisão entre o que é para entreter e o que é supostamente uma escrita “séria”. Essa sempre foi uma premissa para “homens das letras” desqualificarem romances (e outros gêneros literários) escritos fora da norma masculina, relegando essas obras à categoria de um enorme ‘outro’”, escreveu a crítica literária Emanuela Siqueira no site Posfácio.

    Até a tarde de sexta-feira (20), a organização do Prêmio Jabuti não se manifestou acerca da controvérsia.

    A tentativa do Oscar

    Em 2018, o Oscar, prêmio máximo do cinema americano, também tentou criar a divisão.

    O anúncio foi feito em agosto daquele ano, com a criação da categoria “Melhor Filme Popular”. A decisão foi uma estratégia para tentar trazer mais público à premiação, já que a audiência da transmissão na TV cai ano após ano.

    O Oscar sofreu críticas parecidas às do Jabuti, com os argumentos direcionados à ideia de que fazer a separação corrobora com um elitismo artístico que diminuiria o valor de obras com apelo popular.

    Poucas semanas depois do anúncio, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas dos EUA recuou na decisão e optou por cancelar a nova categoria.

    A avaliação de três especialistas

    Para entender melhor o impacto da decisão de dividir a categoria de “Melhor Romance”, o Nexo conversou com três especialistas. São eles:

    • Fábio M. Barreto, autor de livros de fantasia e ficção científica como “Filhos do Fim do Mundo” (2013) e “Snowglobe” (2019)
    • Fabiane Secches, mestre em teoria literária pela Universidade de São Paulo e colaboradora da revista literária Quatro Cinco Um
    • Mateus Baldi, crítico literário e fundador do portal Resenha de Bolso

    Como você avalia a criação da nova categoria?

    Fábio M. Barreto A reação inicial é positiva, uma mistura de passo à frente rumo ao entendimento do que é a literatura hoje em dia com a ideia de que “só assim mesmo para a ficção especulativa ganhar espaço”. Embora obras como “Síndrome de Quimera” (2000), do saudoso Max Mallmann, tenham chegado à final, a predileção dos votantes - e dos critérios - por livros considerados literários sempre foi clara e isso desanimava muita gente. Com a mudança, o jogo fica mais equilibrado e reflete a atualidade.​​

    Fabiane Secches É uma categoria nova, então ainda não temos campo amostral para avaliar como vai funcionar na prática. O que temos é apenas uma apresentação conceitual, teórica. ​​

    Por ora, tenho dificuldade de entender quais seriam os critérios de distinção. Penso nos livros de Jane Austen, um exemplo entre tantos, que são best-sellers, muito lidos e comentados, adaptados para o cinema, para a televisão, para o teatro.

    A obra de Austen é um fenômeno editorial e cultural, mas também literário. São romances sofisticados, tanto do ponto de vista formal, quanto do enredo, e inspiram inúmeras pesquisas de mestrado, doutorado, pós-doutorado. Em alguns casos específicos, talvez a divisão seja mais clara, mas, em outros, a coisa se complica.

    Mateus Baldi Acho estranho. Quer dizer, já houve essa polêmica há uns dois anos, quando um clube de assinatura de livros dividiu os pacotes da mesmíssima forma. ​​

    Não faz muito sentido essa nomenclatura, usar "entretenimento" como algo negativo, e também contribui para reforçar que existe uma alta e uma baixa literatura. Tudo é literatura e, obviamente, há melhores e piores. Vejo nisso mais uma tendência de mercado do que qualquer outra coisa. No mais, como definir a fronteira entre um romance "sério" e um romance "de entretenimento"? Acho muito estranho.

    A criação da categoria “Melhor Romance de Entretenimento” inferioriza obras de mais apelo popular e comercial?

    Fábio M. Barreto Não vejo dessa forma. Compreendo o argumento de quem chamou de "categoria café com leite", mas se o “Melhor Romance de Entretenimento” pode levar o prêmio máximo, então onde está a inferiorização? ​​

    Ao separar “literários” de “entretenimento”, o Prêmio Jabuti abre mais oportunidades, julga cada livro pelo que ele se propõe (e não existe nada errado em entreter pura e simplesmente) e aumenta as chances de visibilidade a autores habitualmente presos ao nicho e ao estigma de "escritores de gênero".

    A grande pergunta é: o júri será formado por quem compreende as particularidades da ficção especulativa, dos livros comerciais, pelo que são ou terão uma visão distante, de fora? Isso ajudará a definir o modo como os vencedores serão escolhidos, afinal, os gêneros especulativos vão muito além de sucessos abraçados pela mídia. Por exemplo, "O Auto da Maga Josefa“ (2018), de Paola Sivieiro, arrebenta muitos romances de terror circundados pelo marketing das grandes editoras e teria grandes chances nesse novo formato, já que é um livro que venceu o Prêmio LeBlanc de 2019.

    Usando meu próprio romance como exemplo, duvido que "Snowglobe", um romance de ficção que usa viagem no tempo como pano de fundo, tivesse chances concorrendo na mesma categoria que um Mia Couto, por exemplo, pois apresenta uma proposta totalmente diferente. Julgado corretamente entre seus iguais, dá até para sonhar. De qualquer forma, por ser o primeiro ano da novidade, pode ser que alguns ajustes ainda sejam necessários.

    Fabiane Secches Acho que sim. Acredito que, embora a forma seja fundamental para a literatura, o enredo continua sendo importante. ​​

    Mesmo que pareça um enredo simples, como: uma mulher, sozinha em casa, mata e come a secreção de uma barata, e passa a questionar a sua própria existência, trama de “A paixão segundo G.H.” (1964), de Clarice Lispector.

    Às vezes, as pessoas dizem: nesse livro não acontece nada, é um experimento puramente formal, literário. Tenho dificuldade também de entender o que seria esse “nada”. Tudo conta uma história. De outro lado, temos romances repletos de acontecimentos, com uma linguagem que parece quase transparente, em que a forma costuma ser negligenciada. O que seria, por exemplo, a “linguagem simples”, que atribuem a Natalia Ginzburg — ainda que o façam, muitas vezes, de forma elogiosa?

    Na literatura, o texto não existe separado do tema, ainda que o tema seja o nada, ou a própria escrita. E o tema, por sua vez, não existe separado do texto, pois só se materializa e desenvolve por meio dele.

    Se a ideia do Jabuti, uma premiação tão importante para a literatura nacional, é de incluir uma nova categoria mais voltada a fenômenos editoriais, talvez pudessem pensar em algo como “Melhor Fanfic” (termo usado para designar histórias criadas por fãs com base em outras obras).

    Ao menos seria uma categoria de fato mais específica, com uma definição mais clara. Nesse caso, não teríamos, necessariamente, uma depreciação, já que o especial (fanfic) não invalidaria o geral (literário).

    Mas, ao indicar um livro à categoria de “Melhor Romance de Entretenimento”, temos impressão de que há um rebaixamento que diz: “esse livro não tem qualidade literária suficiente para ser indicado na outra categoria”. Nem todo livro tem essa pretensão, mas parece que há um dilema espinhoso aí.

    Mateus Baldi Inferioriza — e não significa que as obras de apelo popular e comercial sejam necessariamente ruins. No fim das contas, parece que deve existir sempre essa distinção, esse sistema de castas. Essa percepção, como já disse, parece essencialmente mercadológica, e dá uma dimensão meio paradoxal: se a literatura de entretenimento não é capaz de ser literária (seja lá o que isso significa), então por que premiá-la? Por que premiar algo que, teoricamente, não está no mesmo patamar do que eles consideram a excelência? ​​

    Essa decisão de dividir a categoria romance é muito problemática em todos os sentidos. Ela se contradiz em si mesma. A única justificativa seria acompanhar o mercado, mas também isso é complicado. Há mais um dado preocupante: se a categoria romance pode ter "literatura" e "entretenimento", por que não a poesia? Por que não o conto? Por que a exclusividade para o romance? Fica o questionamento.

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