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O estudo sobre a vida do coronavírus em diferentes materiais

Pesquisa americana aponta que o vírus sobrevive por horas e até dias em aço, cobre, plástico e papelão. Resultado é similar ao de outros vírus da mesma família

    Além de higienizar as mãos, uma das medidas recomendadas para se prevenir do contágio do novo coronavírus, responsável por causar a doença covid-19, é evitar o contato com superfícies compartilhadas (como maçanetas, corrimões e mesas de trabalho) quando elas não estão limpas. E garantir a higienização das mãos depois, caso o contato aconteça.

    Após o agravamento da atual pandemia, que começou com um surto do novo vírus na China, no fim de 2019, tornaram-se mais comuns cenas de quem tenta abrir portas sem as mãos ou limpa o teclado de caixas eletrônicos antes de usá-lo. A preocupação com a higiene aumentou em lojas, escritórios e restaurantes, além de praças, parques, vias e no transporte público.

    A fim de entender o contágio do vírus pelo ar ou por objetos, um estudo de universidades e agências governamentais dos Estados Unidos identificou que o Sars-CoV-2 sobrevive por horas e até dias em superfícies como papelão, aço, cobre e plástico. Ele também sobrevive na forma de aerossol (ou seja, em microgotículas no ar) em ambiente fechados.

    A sobrevida do coronavírus

    • no ar: 3 horas
    • no cobre: 4 horas
    • no papelão: um dia
    • no plástico: 2 a 3 dias
    • no aço: 2 a 3 dias

    A pesquisa, publicada na terça-feira (17) na Revista de Medicina da Nova Inglaterra, uma das mais relevantes da área médica, é a primeira a calcular o tempo de sobrevida do novo coronavírus fora do corpo humano. Antes, os únicos estudos disponíveis tratavam do Sars-CoV-1, um vírus parente que causou uma epidemia na Ásia nos anos 2000.

    Como a pesquisa foi feita

    O estudo comparou a estabilidade do Sars-CoV-2, o novo coronavírus, com a do Sars-CoV-1, vírus mais próximo dele. A estabilidade é o tempo durante o qual um vírus permanece íntegro, com capacidade de infecção. Ao todo, foram 10 experimentos, nos quais os dois vírus estiveram em cinco superfícies (ar, aço, cobre, papelão e plástico).

    Ao longo dos experimentos, a pesquisa registrou a evolução da meia-vida de cada vírus. A meia-vida é o tempo necessário para que a quantidade de um vírus caia pela metade em determinado ambiente (como o ar e as superfícies testadas no estudo). Ao longo do tempo, as partículas do vírus caem cada vez mais, até ele perder capacidade de infectar.

    5,6 horas

    é o valor calculado da meia-vida do novo coronavírus em contato com o aço, por exemplo; isso significa que as partículas virais chegam a 1% da quantidade inicial em 3,6 dias quando estão nesse tipo de superfície

    A explicação para a mudança de comportamento do novo coronavírus em diferentes superfícies não é clara, disse ao Nexo Camila Malta Romano, pesquisadora do Hospital das Clínicas e do Instituto de Medicina Tropical da USP (Universidade de São Paulo). Mas comportamentos assim são vistos em outros vírus, como o da gripe.

    “Alguns metais, como o cobre, podem ter atividade bactericida e virucida, por isso a sobrevivência de micro-organismos nele é geralmente curta”, disse Malta. “A sobrevivência maior no plástico e aço pode estar relacionada à baixa viabilidade do vírus em superfícies porosas em geral (como o papelão) e mais alta nas não porosas.”

    O que há, e o que não há de certo no estudo

    Apesar de ser a primeira sobre o tema, a pesquisa de universidades e agências dos EUA sobre a sobrevivência do novo coronavírus tem alto grau de confiabilidade e pode ser útil a quem busca se prevenir da covid-19, segundo especialistas na área de virologia ouvidas pelo Nexo.

    “É um vírus novo, e os estudos estão começando a sair, mas, quando são publicados em revistas científicas desse porte [como a Revista de Medicina da Nova Inglaterra], eles já foram revisados pelos seus pares científicos e pelos editores”, disse ao Nexo Carla Torres Braconi, professora de virologia da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo).

    Além disso, os resultados encontrados no estudo para a sobrevida do Sars-Cov-2 são similares a de estudos anteriores, feitos para outros coronavírus (o próprio Sars-Cov-1), segundo Camila Malta Romano. “[O estudo] comprova o que havia sido descrito para os vírus anteriores e mostra que o novo coronavírus está seguindo a mesma regra”, disse.

    Malta afirma que a pesquisa não é tão precisa por não ter aplicado aos experimentos a mesma quantidade de partículas virais da vida real (quando são expelidas em uma tosse, por exemplo). O estudo também não explorou como seria a capacidade de sobrevida do novo coronavírus em diferentes condições de temperatura e umidade. Isso, no entanto, não compromete a integridade do estudo, segundo ela.

    “Podemos aprender muito com o estudo pensando nas nossas ações para ajudar a diminuir a transmissão do vírus, a higiene pessoal e comunitária”, afirmou Carla Torres Braconi. “É preciso entender que o isolamento social é fundamental neste momento e que devemos nos atentar aos pequenos detalhes do nosso dia a dia”, completou.

    Como evitar o contágio pelas superfícies

    A limpeza de superfícies em locais públicos pode ser feita com álcool gel, que serve para limpar objetos como telefones e maçanetas, segundo o Ministério da Saúde. No interior dos ambientes, a pasta indica o uso de produtos usuais, dando preferência a misturas com água sanitária para desinfetar superfícies como mesas, interruptores e pias.

    Além disso, é importante garantir a higienização das mãos, com água e sabão, após sair de casa ou tocar as superfícies compartilhadas. O álcool gel também é uma opção, caso não haja uma torneira por perto. O Ministério da Saúde recomenda lavar as mãos diversas vezes no dia.

    O antigo e o novo coronavírus

    A pesquisa avaliou que a estabilidade do novo coronavírus é muito parecida, na maioria dos casos, com a do antigo Sars-CoV-1. Até o momento, os pesquisadores não conseguem explicar por que, então, a covid-19 tem se espalhado tão mais rapidamente do que a síndrome respiratória que atingiu alguns países da Ásia entre 2002 e 2003.

    2,74

    pessoas podem pegar o novo coronavírus a partir de um único infectado, segundo a Sociedade Brasileira de Infectologia; na época da epidemia do Sars-CoV-1 na Ásia, o número era em torno de 3

    A hipótese inicial é que muitos dos que estão infectados com o novo coronavírus não apresentam sintomas. Sem saber que estão infectados, continuam a circular no espaço público e acabam contaminando outras pessoas. Isso significa que ações que isolaram aqueles que eram sabidamente infectados na Ásia podem ser insuficientes agora.

    A OMS (Organização Mundial da Saúde) recomendou aos governos nacionais, na segunda-feira (16), testagem massiva do novo coronavírus, diante do cenário de subnotificação. A ideia é que os países tenham em mãos o número mais preciso possível de infectados para conseguir fortalecer ações de isolamento daqueles que estão com suspeita do novo vírus.

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