Ir direto ao conteúdo

Coronavírus: quais os riscos de desabastecimento no país

De acordo com entidades e especialistas, cadeia que abastece prateleiras do varejo está garantida. Lojas restringem quantidades de produtos para que não haja escassez

Uma das cenas mais emblemáticas da era do coronavírus é o carrinho de supermercado cheio de pacotes de papel higiênico. Representa uma população com medo de ficar desabastecida, à medida que a covid-19, doença causada pelo vírus, avança e as pessoas se isolam em suas casas.

A imagem foi vista em supermercados dos EUA, da Europa e do Brasil. Além do papel higiênico, clientes também têm procurado levar comida e bebida em grandes quantidades, notadamente em áreas de classes média e alta. A consequência dessa corrida aos mercados foi que muitos varejistas ficaram sem diversos produtos. Reportagens no Rio de Janeiro e em São Paulo mostraram prateleiras vazias em alguns supermercados.

De acordo com a Apas (Associação Paulista dos Supermercados), o movimento nos supermercados do estado cresceu 48,5% entre 20 de fevereiro e 19 de março. Em 25 de fevereiro, o Brasil confirmou seu primeiro caso de coronavírus. Desde então, autoridades de saúde e estaduais vêm anunciando medidas no sentido de restringir a circulação da população.

Para a entidade, essa “aceleração do consumo” se deu porque refeições que eram feitas fora de casa passaram a ser realizadas em casa, resultado do fechamento de escolas e creches e da prática de home office, levando à antecipação de compras.

Ao mesmo tempo, aproveitando a angústia e o medo disseminados entre muitos brasileiros, circulam fake news sobre falta de comida e supermercados fechando. Movidos pelo pânico, consumidores procuraram estocar mantimentos para muitas semanas.

No Rio, por exemplo, circulou em grupos de WhatsApp um anúncio do supermercado Guanabara dizendo que ele não faria mais atendimento. “Aquilo é para os fornecedores. Para colaborar com a não propagação do vírus, a maioria dos supermercados não está atendendo presencialmente os seus fornecedores. Os atendimentos têm sido feitos por meios digitais ou por telefone. Aquele cartaz diz respeito a isso e tem outros que maldosamente fizeram dizendo que as lojas iam fechar. Total fake news. Eu garanto que nenhum supermercado vai fechar, nenhum”, disse Fábio Queiroz, presidente da Asserj (Associação de Supermercados do Estado do Rio de Janeiro), à Agência Brasil.

Há risco de desabastecimento?

Entidades e especialistas afirmam que não há chance de haver desabastecimento nos mercados e supermercados brasileiros. “Pode haver falta pontual de alguns produtos em função do tempo de reposição, quando o supermercado, por exemplo, trabalha com estoques ajustados ao movimento rotineiro”, disse Ronaldo dos Santos, presidente da Apas, em nota.

“Não há nenhum motivo para uma corrida desenfreada para as lojas, porque nós supermercadistas estamos preparados para atender essa demanda”, garantiu Queiroz, da Asserj, em entrevista ao Jornal Nacional.

Também em nota, a Ceagesp (Companhia de Entrepostos e Abastecimento Geral do Estado de São Paulo) informou que “as atividades de comercialização continuam funcionando normalmente e, até o presente momento, não há dados sobre qualquer tipo de alteração”.

Um comportamento ‘anticidadão’

Segundo Silvio Laban, professor do Insper, o desabastecimento até agora tem acontecido mais por consequência do desespero do consumidor. “As pessoas estão indo comprar em volume que não comprariam. No mundo inteiro está acontecendo isso, resultado de um misto de angústia e medo e desinformação”, disse ao Nexo.

Ele afirmou que embora seja natural preparar a dispensa para evitar sair de casa “não existe nada que justifique estocar comida para dois, três meses”. O comportamento é ainda anticidadão, na avaliação do especialista. “É preciso pensar se ao comprar em excesso não estarei prejudicando a pessoa ao lado que não vai conseguir comprar”, afirmou.

Os varejistas têm insistido na noção de consumo consciente como forma de pensar na coletividade e até como forma de evitar que produtos desapareçam das prateleiras. Segundo a Apas, conforme sua sugestão, alguns supermercados já estão reservando horários especiais para atendimento de pessoas idosas e com necessidades especiais.

A rede Pão de Açúcar, por exemplo, impôs restrições em diversos itens vendidos em suas lojas, entre eles álcool em geral (duas unidades por pessoa), arroz e feijão, carnes congeladas, massas, produtos de higiene e limpeza, papinha para bebês e fraldas.

O especialista do Insper explica que não há registro de enfraquecimento em qualquer ponto da cadeia que inclui fabricantes, distribuidores, atacadistas e varejistas. “Não temos sinalização de parada generalizada de produção por falta de insumo, de mão de obra, até agora”, disse. Por outro lado, lembrou que “a cadeia é forte até que se enfraqueça um dos elos. Se começar a estressar na ponta do consumidor, pode haver problemas”.

Laban lembra que mesmo nos países onde a situação do coronavírus é pior, como China e Itália, foram encontradas formas de manter a produção e a distribuição preservando a saúde dos trabalhadores desses setores. “A princípio, [no Brasil] não há disrupção. Tanto indústria como varejo têm como garantir que isso não aconteça”, afirmou.

O fechamento do comércio

O prefeito de São Paulo, Bruno Covas (PSDB), assinou na quarta-feira (18) um decreto determinando o fechamento do comércio no município de São Paulo entre o dia 20 de março e o dia 5 de abril. “Quem não atender pode ter a licença cassada e o local fechado pela prefeitura", disse Covas. Atendimento online e delivery continuam permitidos.

De acordo com o prefeito, padarias, farmácias, restaurantes e lanchonetes, supermercados, postos de gasolina, lojas de conveniência e produtos para animais e feiras livres não serão fechados e terão autorização de funcionamento.

O governador do estado, João Doria (PSDB) também recomendou o fechamento de todos os shoppings centers da capital paulista e da região metropolitana de São Paulo até o dia 23 de março.

Na região metropolitana do Rio, na quarta-feira (18), havia 34 shoppings centers fechados. Vários mantiveram funcionando apenas farmácias e estabelecimentos de alimentação.

No dia anterior, o governador Wilson Witzel (PSC) publicou um decreto que recomenda o fechamento “de shopping center, centro comercial e estabelecimentos congêneres”, mas com a praça de alimentação em horário 30% reduzido.

Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.

Você ainda tem 3 conteúdos grátis neste mês.