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A procura por álcool em gel. E como ele age contra o coronavírus

Produto se tornou escasso em drogarias e supermercados, com alta de preços que será investigada pelo órgão antitruste do governo

    A pandemia do novo coronavírus, decretada em 11 de março pela OMS (Organização Mundial da Saúde), aumentou a demanda por álcool em gel no Brasil inteiro.

    O produto, que se popularizou no mundo a partir da década de 1980, é usado na higienização das mãos, principal ação preventiva contra o Sars-CoV-2, que, até a manhã de sexta-feira (20), já tinha infectado mais de 253 mil pessoas no mundo todo.

    Segundo dados divulgados pela Companhia Nacional de Álcool, fabricante de 70% do produto no país, houve um aumento de 6.500% na procura pelas quatro marcas de álcool em gel da empresa nas duas primeiras semanas de março – fato que aumentou a capacidade de produção da fábrica em 50%.

    Escassez e aumento dos preços

    Dada a demanda, o álcool em gel se tornou um item escasso nas prateleiras de drogarias e supermercados, causando um aumento nos preços dos frascos, que, em alguns lugares, chegou a 161%.

    A alta nos preços mobilizou o Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica), autarquia federal antitruste ligada ao Ministério da Justiça. Na quarta-feira (18), o órgão anunciou que vai investigar as empresas que aumentaram significativamente o valor dos produtos, para averiguar se houve prática abusiva.

    Em São Paulo, o governo estadual firmou uma parceria com a Associação Paulista de Supermercados. A partir de segunda-feira (23), os supermercados do estado vão vender os frascos a preço de custo, uma forma de conter os aumentos vertiginosos e para incentivar a compra do produto.

    Na sexta-feira (20), funcionários do call center Almaviva Brasil protestaram na rua da Consolação, em São Paulo, pedindo por álcool em gel nos escritórios da empresa, que não suspendeu suas atividades habituais. “El, el, el, queremos álcool em gel”, entoavam em cântico.

    A questão da fabricação caseira

    A escassez do álcool em gel no varejo fez com que surgissem na internet diversas receitas para a fabricação caseira do produto. Mas a produção caseira do álcool em gel não é recomendada.

    Em nota emitida na quarta-feira (18), o Conselho Federal de Química aponta os riscos de segurança envolvidos no processo, que utiliza álcool líquido em grandes concentrações para se chegar no gel.

    “Quando se utiliza álcool líquido em elevadas concentrações, aumenta-se bastante o risco de acidentes que podem provocar incêndios, queimaduras de grau elevado e irritação da pele e mucosas”, diz o texto.

    “Os produtos industrializados passam por rigoroso processo de produção, onde há padrões a serem seguidos, todas as etapas são monitoradas e passam por controles de modo a haver padronização, regularidade e qualidade dos produtos disponibilizados ao consumidor final. Já o álcool em gel fabricado a partir de receitas e métodos caseiros não passa por nenhum controle de qualidade, por isso sem garantia de eficácia”, afirmou o conselho.

    Como o álcool em gel age no coronavírus

    O novo coronavírus tem em seu exterior uma camada de proteínas e lipídios – moléculas de gordura. Esse envelope protege o interior do vírus e é crucial para sua sobrevivência, de acordo com estudo publicado em 16 de janeiro pela revista americana Viruses, ligada ao Centro Nacional de Informação de Biotecnologia dos EUA.

    “Lipídios têm papel fundamental em vários estágios do ciclo de vida do vírus”, diz o artigo. “Nossos dados demonstram que a regulação do metabolismo dos lipídios pode ser um alvo comum e remediável para infecções por coronavírus”.

    No processo de higienização das mãos – com sabonete ou álcool em gel – a camada de proteínas e lipídios é atacada, o vírus fica desprotegido e acaba morrendo posteriormente.

    Ao aplicar o sabonete ou o álcool em gel, o envelope protetor do vírus é desnaturado. A reação de desnaturação pode ser vista em casa, num experimento que consiste em banhar um ovo em álcool convencional.

    Quando o álcool entra em contato com o ovo, a organização das moléculas de proteína da clara é quebrada, tornando-a branca e com uma textura gelatinosa. A mesma reação de desnaturação de proteína pode ser vista quando se frita um ovo, já que o calor intenso também consegue desencadear o processo.

    Álcool em gel ou sabonete? Qual usar?

    Segundo Erin Sheets, professora de bioquímica na Universidade do Minnesota, nos EUA, não há diferença significativa entre optar por sabonete ou optar pelo álcool em gel.

    “Se você consegue destruir a membrana de proteínas e lipídios, não importa qual método você usou”, disse, em entrevista ao site Daily Beast publicada no dia 14 de março.

    “O sabonete quebra o envelope usando força bruta [o processo de esfregar as mãos], e o álcool em gel faz isso mudando as propriedades químicas, tornando-o menos estável e mais suscetível ao mundo exterior”, disse à revista do museu Smithsonian o microbiólogo Benhur Lee, da Escola de Medicina de Icahn, no Egito.

    Ao recomendar a higienização frequente das mãos, a OMS (Organização Mundial da Saúde) não faz distinção de eficácia entre o álcool em gel ou o sabonete, recomendando ambos como formas eficazes de se prevenir do vírus Sars-CoV-2.

    Apesar de ser eficiente contra o novo coronavírus, o álcool em gel não é eficaz contra todos os tipos de agentes patogênicos que existem – caso do micro parasita Cryptosporidium, responsável pela criptosporidíase, um tipo de diarreia; e do norovírus, causador da gastroenterite.

    De acordo com o Centro de Controle de Doenças dos EUA, na dúvida, o ideal é optar pela lavagem das mão usando água e sabonete, com o álcool em gel sendo uma alternativa em locais públicos e de grande circulação, bem como em situações nas quais o sabonete não está disponível.

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