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Por que os respiradores são centrais para tratar a covid-19

Equipamento que ajuda pessoas com dificuldades respiratórias pode ficar em falta em meio à pandemia. Governos já se mobilizam para evitar a escassez do aparelho

    O crescimento exponencial de casos da covid-19, doença causada pelo novo coronavírus, pressiona os sistemas de saúde dos países mais afetados. Na quinta-feira (19), o número mundial de infectados já superava 200 mil e o número de mortos ultrapassava 8.000.

    O cenário pandêmico de março de 2020 coloca no centro das atenções a demanda e a oferta de equipamentos médicos e hospitalares. A possível falta de material acendeu alertas em diversos países, entre os quais o Brasil.

    Um dos aparelhos mais mencionados quando o assunto é o novo coronavírus é o respirador. Abaixo, o Nexo explica o que é o respirador e como os países se mobilizam para tentar antecipar a escassez do equipamento.

    O que são e como funcionam os respiradores

    Respiradores são máquinas que ajudam os pulmões a inspirar e expirar quando a pessoa não tem a capacidade de operar seu sistema respiratório normalmente. Um respirador tem uma reserva de ar alimentada com ar e oxigênio.

    Essa reserva é comprimida diversas vezes por minuto, o que força o ar a ir até os pulmões do paciente, que ficam conectados ao aparelho por tubos e válvulas. Quando o ar é expulso da máquina e inserido nos pulmões, o órgão – que é naturalmente elástico – se expande, simulando a respiração normal. Ao se expandirem, os respiradores também retiram o gás carbônico produzido na respiração.

    Os tubos que ligam a máquina ao paciente podem ser ligados pelo nariz, pela boca ou por um pequeno corte na traqueia, na região da garganta – é a chamada traqueostomia. A traqueostomia costuma ocorrer em casos mais graves, quando a pessoa tende a ter uma maior dependência do respirador para o funcionamento do sistema respiratório.

    O papel dos respiradores no combate ao coronavírus

    A maioria das pessoas que contraem o novo coronavírus apresenta sintomas leves, similares àqueles de uma gripe ou resfriado. Essas pessoas não precisam de cuidados hospitalares, sendo recomendado o repouso em isolamento, tomando precauções para não transmitir o vírus para outras pessoas que moram na casa.

    No entanto, cerca de 5% dos infectados precisam de cuidados intensivos, que incluem internação em UTIs. É mais provável que esses casos graves ocorram nos grupos de risco, como idosos, pessoas com doenças respiratórias crônicas (como asma), com doenças cardíacas, diabéticas e hipertensas.

    Não são todos os casos de hospitalização que requerem ajuda do respirador para suprir oxigênio à pessoa doente. Um estudo publicado no New England Journal of Medicine mostrou que, em uma amostra de 1.099 pacientes hospitalizados com o novo coronavírus na China, 6,1% precisaram de ventilação mecânica.

    A covid-19 é uma doença caracterizada por ser agressiva ao sistema respiratório. Com a rápida disseminação do vírus, o número de infectados começa a crescer no mundo inteiro e os casos graves pelo mundo vão aumentando. Surge em diversos lugares – países europeus, EUA e até mesmo no Brasil – a preocupação com uma possível insuficiência no número de respiradores disponíveis. Se faltarem aparelhos, pacientes que precisem de ajuda artificial para respirar podem morrer por ausência de suprimento de oxigênio.

    A situação dos respiradores do Brasil

    No Brasil, o número de casos confirmados de covid-19 até a quinta-feira (19) era superior a 500. Diante da expectativa de que a doença avance ainda mais e atinja milhares de pessoas nas próximas semanas, cresce a preocupação com a disponibilidade de respiradores para os casos graves.

    65,4 mil

    é o número de respiradores no Brasil, contando as redes pública e privada

    46,7 mil

    é o número de respiradores na rede pública de saúde brasileira

    Com a crescente preocupação de escassez de respiradores, o governo se mobiliza para tentar garantir maior disponibilidade do equipamento em solo brasileiro. O Ministério da Saúde pretende impedir a exportação dos aparelhos. O Ministério da Economia aprovou zerar a taxação sobre importações de respiradores e outros produtos médicos e hospitalares.

    “O que me preocupa não são leitos, mas, sim, respiradores. Leitos já estão resolvidos. O que mais me preocupa são aparelhos respiradores e tudo o que precisa compor uma UTI. Estamos discutindo se dá para fazer algum acordo com a China”

    David Uip

    infectologista e coordenador do Centro de Contingência para o Coronavírus em São Paulo, em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo publicada em 19 de março de 2020

    O Brasil tenta contato com a China para receber respiradores que deixaram de ser usados. O número de novos casos de covid-19 no gigante asiático vem caindo, vagando aparelhos que foram usados no momento mais crítico da epidemia em território chinês.

    “Estamos em contato com embaixada chinesa, para colocar o Brasil como voluntário para receber equipamentos”

    João Gabbardo

    secretário-executivo do Ministério da Saúde

    O contato ocorre em meio a um momento delicado nas relações entre os dois países. Na quarta-feira (18), uma postagem nas redes sociais de Eduardo Bolsonaro – filho do presidente Jair Bolsonaro – responsabilizando o governo chinês pela pandemia do novo coronavírus causou uma crise diplomática entre Brasil e China.

    A disponibilidade de respiradores pelo mundo

    Na Itália, um dos países onde o quadro da covid-19 é mais crítico, a ausência de respiradores criou um cenário dramático. A falta de aparelhos leva médicos a ter que escolher quem irão tratar e quem irá morrer. A necessidade é tão extrema que autoridades da região do Vêneto, norte italiano, estudam se é possível usar respiradores feitos para animais em humanos. A Itália recebeu 40 respiradores da China, entre outros equipamentos médicos.

    Outro país europeu também começam a sentir a sobrecarga no sistema de saúde. A Espanha começou a racionar equipamentos médicos e se prepara para enfrentar a falta de respiradores para todos os pacientes com dificuldades respiratórias.

    Por toda a Europa, há preocupação com a escassez de respiradores e a demanda pelos aparelhos cresce. As empresas do setor têm tomado ações para expandir a produção. Alemanha e França fizeram pedidos massivos por milhares de unidades, enquanto no Reino Unido o premiê Boris Johnson pediu às fábricas que acelerassem o ritmo de produção. A mesma pressa foi pedida na Itália.

    Nos EUA, a possibilidade de faltarem respiradores também é antecipada. Dois dias após dizer que os estados deveriam “se virar” para conseguir os aparelhos, o presidente americano Donald Trump anunciou na quarta-feira (18) que irá invocar uma lei aprovada em 1950, durante a Guerra da Coreia. A lei permite que o governo tome medidas que obriguem a indústria nacional a deslocar esforços para a produção de bens necessários para enfrentar a pandemia do novo coronavírus. Entre esses equipamentos estão os respiradores.

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