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Os testes para o coronavírus. E a situação no Brasil

Organização Mundial da Saúde recomenda testagem massiva. Redes pública e privada têm restringido exame laboratorial aos casos mais graves

A OMS (Organização Mundial da Saúde) recomendou aos governos nacionais, na segunda-feira (16), a ampliação da testagem de suas populações quanto a possíveis infecções pelo novo coronavírus. Isso pode exigir, segundo a organização, investimento em construção e ampliação de laboratórios. O objetivo é fortalecer ações de isolamento daqueles com suspeita de infecção.

“A forma mais eficaz de salvar vidas é quebrar a cadeia de transmissão. E para fazer isso precisa testar e isolar. [...] Não conseguiremos parar a pandemia se não soubermos quem está infectado. Temos uma simples mensagem: testem, testem, testem. Todos os casos suspeitos. Se eles derem positivo, isolem”

Tedros Adhanom Ghebreyesus

diretor-geral da Organização Mundial da Saúde, em 16 de março de 2020

Entre os “casos suspeitos” a que Ghebreyesus fez referência estão não apenas pessoas que apresentem sintomas mas também aquelas que tiveram contato com pessoas contaminadas.

A OMS também recomenda a repetição de testes, dada a possibilidade de “falsos negativos”, isto é, da não identificação do vírus logo no primeiro exame. “Especialmente com pessoas com link epidemiológico, se tem alta suspeita e contato confirmados, é importante fazer um novo teste para aumentar chance de identificar”, disse a chefe técnica do Programa de Emergências de Saúde da organização, Maria Van Kerkhove.

Como funcionam os testes

No Brasil, o teste que vem sendo utilizado é o RT-PCR (sigla em inglês para reação em cadeia da polimerase em tempo real). A técnica exige maior tempo de espera, de 24 horas até 7 dias, mas oferece maior confiabilidade do que as outras opções disponíveis no mercado mundial.

Em conversa com o Nexo, Juliana Moreira, mestre em Ciências Farmacêuticas pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), explicou como funciona o teste.

Em termos simplificados, coleta-se com um swab (uma espécie de cotonete) a mucosa do nariz e da garganta do paciente. O laboratório, então, acrescenta à amostra enzimas e outros materiais genéticos que transformam e ampliam o material genético coletado, de forma que ele possa ser analisado.

A conjugação do material com uma outra sequência genética já conhecida, o chamado primer, permite a identificação do agente infeccioso.

Ainda h�� outros dois tipos de teste: o diagnóstico por fluorescência e a imunocromatografia. Eles oferecem resultados em menos de meia hora, mas apresentam maiores chances de erro de diagnóstico.

Segundo um fabricante de teste por fluorescência, comum na Coreia do Sul, nos dois primeiros dias após a infecção, o índice de acerto do teste é de 85%. A confiabilidade, porém, aumenta com o passar dos dias desde a infecção.

Nesse método, também se coleta material do nariz e da garganta. A detecção da infecção, porém, é feita por meio de um reagente que “acende” ao entrar em contato com o coronavírus.

Na imunocromatografia, utilizada em países como França, Itália e Alemanha, o exame é feito com uma amostra de sangue, coletada por uma picada no dedo. O reagente detecta não o vírus, mas o anticorpo desenvolvido pela pessoa depois de ter sido infectada.

Na quarta-feira (18), a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), que já aprovava o RT-PCR, autorizou oito novos kits de teste para o coronavírus, incluindo ensaios que utilizam amostra de sangue.

A prescrição do teste no Brasil

Desde que o coronavírus chegou ao Brasil, as redes pública e privada têm mudado as orientações para a realização de testes dia a dia, a depender da demanda dos pacientes e da oferta dos insumos necessários ao RT-PCR no mundo e no país. As mudanças já estavam previstas nos planos de contingência da crise, a depender da fase da epidemia no país.

Hospitais e laboratórios privados podem adotar protocolos próprios de atendimento, mas levam em consideração os boletins diários do Ministério da Saúde e da Organização Mundial de Saúde.

O SUS (Sistema Único de Saúde), até 18 de março, tinha realizado 45.708 testes. No início, estavam sendo testados pacientes com sintomas leves, ou mesmo sem sintomas, mas que tiveram contato com uma pessoa infectada ou que viajaram ao exterior.

Com o aumento dos casos, porém, as redes pública e privada de todo o Brasil passaram a priorizar idosos e pacientes com doenças crônicas, bem como casos de sintomas mais significativos de infecção. Com a não testagem de grande parte da população, as medidas de distanciamento social são cada vez mais necessárias.

Em localidades com transmissão comunitária (quando a rota do vírus na localidade não pode mais ser traçada), como já ocorre no Brasil, os testes da rede pública têm sido limitados aos casos graves. Os demais casos ficam submetidos ao diagnóstico clínico, dado o nexo epidemiológico (infere-se a infecção em razão de contato com outros infectados). É o que vem sendo feito, por exemplo, nos estados de São Paulo e do Rio de Janeiro.

O sistema público é abastecido com kits de testagem pela Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), que deve entregar mais 40 mil deles até abril e um milhão nos próximos três ou quatro meses, conforme anunciou Julio Croda, diretor do Departamento de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde.

Além dos kits da Fiocruz, o Ministério da Saúde anunciou na terça-feira (17) que faria chamada pública para comprar kits de empresas privadas que também tenham desenvolvido a tecnologia de testagem do vírus.

A rede privada estava realizando exames, inclusive com coleta domiciliar, para quem tivesse prescrição médica. Nos últimos dias, entretanto, as possibilidades de testagem vêm sendo restringidas aos grupos de risco, como os idosos, e aos casos graves.

Em São Paulo, por exemplo, laboratórios privados suspenderam a coleta domiciliar. O Hospital Albert Einstein, que já testou 8.000 pessoas, limitou seus testes aos casos em que os sintomas respiratórios de infecção sejam agudos e necessitem de internação, conforme consta em manual de manejo de pacientes publicado na segunda-feira (16).

Situação em 19 de março

A quem o teste está garantido

Na rede pública de São Paulo e do Rio, onde há transmissão comunitária, são testadas pessoas em caso grave, com sintomas agudos de infecção respiratória. Em outras localidades, outros casos podem ser testados, desde que haja prescrição médica. Na rede privada, os critérios variam de empresa para empresa. Têm sido priorizados os grupos de risco e os casos graves.

Onde fazer o teste

Hospitais das redes pública e privada, ou por meio de coleta domiciliar a depender dos critérios de prioridade estabelecidos pelo laboratório que preste o serviço e da disponibilidade dos kits.

Quem fornece os kits de teste

Fundação Oswaldo Cruz e redes laboratoriais privadas.

Quais testes são autorizados pela Anvisa

Até agora, era apenas o RT-PCR, mas a agência acaba de aprovar técnicas de testagem mais rápida.

Os testes em outros países

A Coreia do Sul, um dos países mais afetados pela pandemia, está fazendo testagem massiva, com 10 mil exames de pessoas por dia. A partir do diagnóstico, o governo coreano realiza um amplo monitoramento dos casos confirmados, usando imagens de câmeras de vigilância e dados do uso de cartões de crédito.

O país, que já tinha vivido em 2015 uma epidemia de coronavírus, na variante Mers (Síndrome Respiratória do Oriente Médio), agora tem conseguido achatar a curva de propagação do vírus e taxas de morbidade bem menores do que a de outros países.

Em algumas cidades coreanas, como a capital Seul e Goyang, há estações de exame onde os pacientes são testados dentro do próprio carro. O modelo evita o contato entre os pacientes.

A logística drive-thru já está sendo replicada por outros países, como Estados Unidos e Alemanha. Na Irlanda, o governo anunciou que usará o Croke Park, maior estádio do país, para essa finalidade. A cidade do Porto, em Portugal, também se planeja para usar o modelo.

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