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Por que as periferias são mais vulneráveis ao coronavírus

Desigualdade urbana e informalidade colocam população pobre em situação mais delicada diante da pandemia

As principais medidas de prevenção recomendadas para conter a pandemia do novo coronavírus – lavar as mãos e o rosto com frequência, fazer uso de álcool gel e praticar o distanciamento social – não estão ao alcance de muitos moradores de comunidades e periferias das cidades brasileiras.

Em grande parte dos domicílios desses locais, o abastecimento de água é intermitente. Faltam condições para adquirir o produto que garante a desinfecção das mãos e ficar em casa, em habitações de poucos cômodos que abrigam várias pessoas, pode não ajudar.

Poucos moradores, além disso, podem aderir ao isolamento. Pessoas de menor renda e trabalhadores informais são os mais afetados pelos efeitos econômicos da pandemia.

Com o objetivo de chamar atenção para esse cenário, lideranças comunitárias e moradores publicaram seus relatos na terça-feira (17) nas redes sociais com a hashtag #Covid19nasFavelas, que ficou entre os tópicos mais compartilhados do país. Muitos deles partiram de comunidades do Rio de Janeiro, que sofrem com a escassez de água. O estado é o segundo em número de casos no Brasil e enfrentou recentemente uma crise hídrica.

Pesquisadores afirmam que as grandes desigualdades das cidades brasileiras fazem com que a pandemia de coronavírus tenha impactos assimétricos sobre a população e exigem medidas específicas para diferentes territórios. Abaixo, o Nexo lista as principais dificuldades desses territórios.

Limitações dos equipamentos de saúde

Ao Nexo Eliana Sousa e Silva, diretora da Redes da Maré, ONG do Complexo da Maré, no Rio de Janeiro, afirma que a estrutura de saúde pública das favelas já vinha sofrendo um declínio em suas atividades regulares, algo que moradores e entidades estavam tentando combater. Em uma situação de crise como a atual, ela se preocupa que as unidades básicas não consigam prestar atendimento qualificado com relação ao coronavírus, além de continuar dando conta das outras demandas de saúde da população.

Nessas regiões, Silva lembra que os serviços públicos de maneira geral não são prestados como deveriam. Essa é uma questão já presente no cotidiano da população, mas que se agrava no contexto de uma epidemia. “Se a UBS funcionar e a pessoa for bem atendida, bem esclarecida, o hospital não vai ficar sobrecarregado. É voltar a atenção para algo que é básico e que não vinha sendo assistido”, disse.

“Até o momento, os mais afetados foram grupos mais favorecidos, que retornaram principalmente de viagens à Europa, assim como seus amigos e familiares mais próximos. Estes tiveram acesso a planos de saúde privados de ponta. Quando a epidemia alcançar com força as periferias urbanas, será o Sistema Único de Saúde que terá de lidar com este desafio, em uma escala muito maior”, disse ao Nexo o pesquisador do Instituto de Ciências Biomédicas da USP Igor Cavallini.

Falta de saneamento básico

Apesar de serem direitos assegurados pela Constituição Federal, o abastecimento regular de água potável, o tratamento de esgoto e o manejo de resíduos sólidos ainda não alcançam milhões de brasileiros. De acordo com o Instituto Trata Brasil, há 35 milhões sem acesso à rede de água potável e 95 milhões sem coleta de esgoto. Nas cidades, a falta desses serviços afeta a população de menor renda, obrigada a se instalar em áreas sem infraestrutura.

Ao Nexo Igor Cavallini chama atenção para a categoria de Doenças Relacionadas ao Saneamento Ambiental, utilizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Há pesquisas em torno dela e políticas públicas que buscam combatê-las.

“O fato é que parcela significativa da população continua residindo em situação aquém da desejada, e essa parcela segue crescendo. Entre as doenças decorrentes de problemas na infraestrutura urbana de saneamento estão a filariose, a esquistossomose, a hepatite infecciosa, a poliomielite, a febre amarela e também a dengue. Aguardamos para ver o impacto concreto da covid-19 nas áreas menos providas de serviços ambientais. Que ele ocorrerá e será sério, já sabemos”, disse.

Precariedade nas condições de moradia

Muitos dos habitantes das periferias urbanas residem em assentamentos precários: moradias com um ou dois cômodos, pouca ventilação, frequentemente compartilhadas por um número grande de familiares.

A arquiteta e urbanista Tainá de Paula afirma que esse fator de modo geral não esteve presente nos impactos da crise de coronavírus em cidades italianas, por exemplo, onde o vírus se alastrou rapidamente, mas estará nas metrópoles do Brasil e da América Latina.

A recomendação de manter distância de outras pessoas para conter a disseminação do vírus “parece simples, mas em localidades onde é

altíssima a densidade demográfica devido aos lotes urbanos pequenos, que também têm alta densidade domiciliar, essa recomendação é simplesmente impraticável”, diz o pesquisador Igor Cavallini.

A comunicação sobre prevenção

Para Eliana Sousa Silva, outro problema é que, por estar distante da realidade dessa parcela da população, a narrativa sobre o que fazer para se prevenir pode estar falhando em alcançá-la. Ela destaca a importância de escolher o meio de comunicação correto, sugerindo o audiovisual, e de explorar diferentes materiais e linguagens para transmitir informações corretas e qualificadas sobre o vírus.

“Da maneira que está sendo veiculada, essa mensagem talvez não atinja um número significativo de pessoas”, disse ao Nexo. “Essas medidas todas são importantes mas há, dentro das periferias e favelas, determinadas populações que precisam de um outro tipo de abordagem nesse momento para acessar informações sobre como lidar de uma maneira qualificada com essa crise do coronavírus. Tem que ter um pensamento de tentar olhar para as especificidades a partir de cada cidade e região”.

Desigualdades históricas

“Existe um adoecimento colocado aos pobres de que a gente precisa dar conta e que é histórico, não é de agora. Há processos de adoecimento da população que ganha de zero a três salários mínimos. E isso tem motivo: essas pessoas moram em lugares insalubres, que estão mais suscetíveis às doenças, e se alimentam muito mal, não conseguem se recuperar. Isso é grave”

Tainá de Paula

Arquiteta e urbanista

“O que temos aí é um ciclo vicioso: determinados grupos populacionais vão morar em áreas com piores condições ambientais por não terem condições de adquirir terrenos/casas em localidades privilegiadas e, em decorrência disso, são mais afetados por um conjunto de doenças (dengue, Zika, chikungunya, tuberculose, leptospirose). Assim, apresentam maiores dificuldades de melhorar sua condição de emprego, o que afeta sua renda e aí todo o ciclo se reinicia”

Igor Cavallini

Doutor em demografia pela Unicamp e pesquisador do Instituto de Ciências Biomédicas da USP

As ações do governo

O governo federal estuda utilizar navios para isolar e tratar pessoas de baixa renda infectadas com a doença que não necessitem ficar na UTI. A solução já foi adotada na Itália, um dos países mais afetados pela covid-19, e é considerada promissora para o caso do Rio de Janeiro, estado com o segundo maior número de infectados e uma população de cerca de 1,5 milhão vivendo em centenas de comunidades.

Fora das regiões litorâneas, o Ministério da Saúde avalia utilizar quartos de hotéis e unidades habitacionais ainda não entregues.

O ministro Paulo Guedes anunciou o pagamento de um auxílio no valor do Bolsa Família para trabalhadores informais desassistidos, com duração de quatro meses, podendo ser prorrogado.

A mobilização dos moradores

Além de cobrar medidas do poder público, moradores de comunidades e bairros periféricos estão se articulando para pensar em soluções de prevenção de acordo com suas necessidades específicas. Algumas entidades estão coletando doações.

Há também mobilizações via grupos de WhatsApp, usados para disseminar informações e notificar sobre o abastecimento de água ou sobre a chegada de carregamentos de álcool em gel.

O que precisa ser feito, segundo especialistas

Apoio aos idosos e famílias com crianças

Ao Nexo a diretora da ONG Redes da Maré defende que o poder público foque na população idosa dos territórios de favela e periferias, criando projetos específicos para minimizar os efeitos do coronavírus sobre ela. Mais vulneráveis por serem parte do grupo de risco, os idosos nesses contextos nem sempre podem contar com o apoio da estrutura familiar. Somente no Complexo da Maré há mais de dez mil pessoas com mais de 60 anos. Eliana Silva também levanta a necessidade de pensar em uma forma de dar suporte às famílias pelo fato de as crianças estarem em casa.

Distribuição emergencial

Para garantir a justiça sanitária em regiões com acesso precário ao saneamento, como nas favelas do Rio de Janeiro, a urbanista Tainá de Paula defende que o poder público já deveria estar distribuindo galões de água mineral para a população. Kits de higienização e limpeza, contendo álcool gel 70%, também fariam diferença na prevenção.

Isolamento dos doentes

Mapear os moradores desses territórios que demonstrarem sinais de estarem infectados é algo que tem que ser feito com agilidade pelos serviços de saúde, segundo Eliana Silva. Deslocar pessoas para áreas seguras de contágio também pode se tornar necessário.

Qualidade das moradias

Criar medidas imediatas de melhoria habitacional e de substituição das residências também é necessário. “É impensável que alguém contaminado num porão da [favela da] Rocinha não seja um agente de contaminação em potencial, ao mesmo tempo em que uma residência precária não é um ambiente possível de garantir recuperação de ninguém”, diz Tainá de Paula.

Ela sugere medidas como a distribuição de cartilhas de melhoria habitacional, para que os moradores consigam fazer pequenas adequações em suas casas, como a abertura de janelas. Essas intervenções poderiam ser subsidiadas ou inteiramente financiadas pelo poder público.

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