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Como o número de idosos com coronavírus varia entre países

Aspectos comportamentais e de convívio podem explicar discrepância na propagação da doença. Isolamento é recomendado

    O coronavírus tem na população mais idosa seu principal grupo de risco, de acordo com informações de autoridades de saúde. No entanto, países têm registrado proporções diferentes de infectados entre os mais velhos.

    Comparações de dados entre Alemanha e Itália mostram níveis muito diferentes de infecção e mortes entre os habitantes acima de 60 anos. Entre os alemães, apenas 10% dos casos confirmados de Covid-19, doença causada pelo coronavírus, foram registrados em pessoas com mais de 60 anos. Na Itália, esse número vai para 60%.

    Especialistas relacionam esse dado com a alta mortalidade geral registrada pelo país do sul da Europa. A letalidade da Itália por causa do coronavírus é de 7%, o dobro da média mundial segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), que é de 3,4%. Já na Alemanha, o índice é próximo de zero.

    Essa discrepância desafia a sugestão de que a alta taxa de mortalidade na Itália é decorrência de sua população idosa. Cerca de 22% dos italianos têm 65 anos ou mais. A Alemanha também tem uma população idosa significativa – quase 21,1% está nessa faixa etária. Em outra comparação, a Alemanha tem uma idade mediana de 47,1 anos, em comparação com a idade mediana da Itália de 45,5 anos. A idade mediana é a que divide a população em dois grupos com exatamente o mesmo número de pessoas, uma metade mais jovem que a idade mediana e outra mais velha.

    Diferentemente da Itália, a Alemanha conduziu testes de coronavírus em larga escala à medida que o surto se desenrolava. O país conseguiu mapear com mais eficiência os infectados, sendo bem-sucedido na contenção. Em 18 de março, a Alemanha registrava cerca de 10 mil casos confirmados (quinto do mundo) e 27 mortes. A Itália tem mais de 31 mil casos e passou dos 2500 óbitos.

    Uma hipótese sobre a diferença

    Em um artigo publicado em um blog da Universidade de Chicago, dois economistas alemães levantaram a hipótese de que isso pode ser explicado por diferenças entre interações e convívio social em cada país. São diferenças que guardam relação com características culturais ou institucionais dos lugares.

    Em sua explicação, Christian Bayer e Moritz Kuhn, da Universidade de Bonn, citam dois modelos de interações sociais possíveis. Em um deles, quase todas as relações e encontros acontecem dentro de um grupo específico de pessoas. Os que estão em idade de trabalhar convivem entre si. Os idosos também.

    No segundo modelo, a interação ocorre integrando gerações, em sua maior parte. Jovens e idosos moram juntos e interagem com frequência, em situações como avós cuidando de netos ou pessoas na faixa dos 20 que ainda moram com os pais, pois não têm condições financeiras de morarem sozinhos.

    De acordo com os pesquisadores, como o coronavírus chegou à Europa principalmente por meio de viagens de trabalho, um país que se caracteriza pelo primeiro modelo deveria ter uma disseminação bem mais contida. Isso resultaria em uma menor necessidade de utilização de leitos de UTI e menos mortes em relação ao tamanho do surto.

    Quem vive com os pais

    Os pesquisadores buscaram um dado que pudesse servir como medida da proporção de relacionamentos inter-geracionais. Foi encontrado na World Values Survey, pesquisa que compila dados de estilo de vida de dezenas de países, entre eles a proporção de pessoas entre 30 e 49 anos que moram com os pais.

    De acordo com o levantamento, esse índice é mais do que 20% na Itália, enquanto que na Alemanha é de 6,3%. Segundo os pesquisadores, os números indicam que “a estrutura das interações sociais parece ter uma importância clara e o distanciamento social precisa considerar os idosos em particular”.

    A hipótese pode servir de alerta para o Brasil, onde o número de habitantes entre 30 e 49 anos que mora com os pais é de 17,7%. Em 18 de março, o país contabilizava 512 casos confirmados de infecção e quatro mortes. As vítimas, todas do estado de São Paulo, tinham entre 62 e 85 anos.

    O total de casos em investigação vêm aumentando. Hospitais nos estados do Rio de Janeiro e São Paulo informaram sobre 5 casos de mortes em que a causa suspeita é coronavírus.

    Os economistas advertem, porém, que mesmo um país como a Alemanha não deve baixar a guarda pois, apesar dos grupos se misturarem menos, existe alguma interação social. “Infelizmente, as baixas taxas iniciais de mortalidade provavelmente aumentarão assim que o vírus se espalhar”, afirmaram.

    De acordo com os pesquisadores, as informações deveriam servir de alerta para outros países europeus em que idosos e jovens convivem mais, como Sérvia, Polônia, Bulgária, Croácia e Eslovênia.

    Grupo de risco

    Os grupos mais vulneráveis e suscetíveis ao coronavírus são os idosos, definidos como pessoas com mais de 65 anos, diabéticos, hipertensos e pessoas com insuficiência renal crônica e doença respiratória crônica.

    Entre os idosos, no entanto, correm risco aumentado aqueles que já têm problemas de saúde. “O diabetes dificulta o combate da infecção, e doenças pulmonares ou cardíacas também tornam difícil para esses órgãos atenderem à demanda criada por uma infecção grave de Covid-19”, disse Annie Luetkemeyer, especialista em doenças infecciosas no Hospital Zuckerger, em São Francisco, ao jornal americano The New York Times.

    Este grupo também tem mostrado maior propensão a adoecer de maneira grave, incluindo pessoas consideradas saudáveis. Um estudo americano de 2015 demonstrou como a imunidade diminui conforme envelhecemos. Na China, cerca de 15% dos pacientes com Covid-19 com mais de 80 anos morreram.

    Em Brasília e São Paulo, uma reportagem do jornal O Estado de S. Paulo mostrou moradores de condomínios que vêm se oferecendo para fazer compras de vizinhos idosos para que estes não precisem sair de casa e aumentar o risco de exposição ao vírus. “Por enquanto, 20 apartamentos se solidarizaram para ajudar os 'velhinhos’ nas compras de supermercado, farmácia e qualquer outra coisa, já que muitos deles moram sozinhos aqui no prédio”, explicou a moradora de um prédio em São Paulo ao El Pais.

    Em São Paulo, a pesquisadora Marília Duque criou uma campanha para incentivar as pessoas a fazer companhia virtual a idosos em quarentena. Entre as dicas para quem quiser ser “Anjo da Guarda no WhatsApp” estão o envio de mensagens ao longo da dia, a disponibilidade para conversar, o envio de informações sobre orientação médica e checagens rotineiras sobre o estado do idoso.

    Recomendações a idosos

    Boa parte dos cuidados recomendados aos idosos são os mesmos da população em geral:

    • Lavar as mãos frequentemente com sabão e água quente durante 20 segundos ou usar álcool gel quando não for possível lavar as mãos
    • Evitar tocar olhos, nariz e boca antes de higienizar as mãos
    • Evitar apertos de mão, beijos e abraços
    • Ficar longe de aglomerações e reuniões de pessoas
    • Limpar e desinfetar objetos que são tocados com frequência
    • Evitar o transporte público
    • Estocar alimentos e produtos de primeira necessidade
    • Não fazer viagens desnecessárias
    • Evitar visitas de netos

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