A arriscada estratégia britânica para lidar com o coronavírus

Reino Unido adota atitude errática no combate à pandemia e recebe críticas por esperar que contaminação termine por criar defesa natural no organismo

    O Reino Unido é o país europeu que se mostrou mais relutante em adotar medidas restritivas para tentar conter a propagação do novo coronavírus.

    Enquanto italianos, espanhóis e franceses decretavam a quarentena forçada de suas populações, os britânicos – que vivem na Grã-Bretanha, um conjunto de ilhas separadas do continente – ainda estudavam a possibilidade de decretar o recolhimento apenas dos maiores de 70 anos, por serem eles os mais vulneráveis ao coronavírus.

    Foto: Henry Nicholls/Reuters - 16.03.2020
    Patrick Vallance, de perfil, usa terno e segura uma pasta em uma área aberta.
    Patrick Vallance, conselheiro científico do governo britânico, em Londres

    Na quarta-feira (18) o Reino Unido – formado por Inglaterra, Escócia, Irlanda do Norte e País de Gales – aparecia como o sexto país mais afetado do continente europeu, com 1.950 casos registrados. Em número de mortos, o país era o quatro na Europa, com 104 óbitos.

    O Reino Unido experimentou um rápido crescimento dos casos. Esse aumento acompanhou a aplicação de uma estratégia confusa por parte das autoridades sanitárias britânicas.

    Enquanto a Organização Mundial da Saúde recomendava que os países levassem a sério a crise, adotando medidas restritivas e realizando os testes de detecção nos casos suspeitos, o governo britânico dava sinais de que apostaria na estratégia inversa, de expor deliberadamente seus cidadãos à ação do vírus.

    A ideia era criar imunidade, confiando na informação de que é impossível ou pelo menos muito raro que uma pessoa infectada volte a contrair a doença. Como a letalidade do coronavírus não é alta – ela está entre 1,5% e 3,5%, mas é maior entre os grupos de risco –, as mortes seriam vistas como danos colaterais inevitáveis para que a maior parte dos britânicos se tornasse imune.

    A estratégia, conhecida pelo nome inglês de “herd immunity” (imunidade de rebanho), foi explicada pelo chefe da equipe de aconselhamento em saúde do governo britânico, Patrick Vallance. Ele considerou que, com 60% das pessoas tendo sido contaminadas, haveria naturalmente imunização total, pois o vírus não poderia passar para uma pessoa cujo organismo já tivesse criado defesa. Mas mesmo essa teoria não é aceita por todos os pesquisadores, e não há uma conclusão a respeito da possibilidade de uma pessoa ser contaminada mais de uma vez.

    “O ponto-chave do que temos de fazer é construir algum tipo de imunidade de rebanho por meio da qual as pessoas que fiquem imunes à doença terminem por reduzir a transmissão”

    Patrick Vallance

    chefe da equipe de aconselhamento em saúde do governo britânico, em entrevista à BBC Rádio 4, em 13 de março de 2020

    Chuva de críticas

    O fato de Vallance mencionar essa estratégia, somado ao fato de o governo britânico ter retardado a decretação de qualquer tipo de quarentena, acendeu um alarme na comunidade científica local, nos países vizinhos e também na Organização Mundial da Saúde.

    Numa carta aberta, publicada no dia 14 de março, mais de 200 cientistas acusaram o governo do premiê Boris Johnson de “arriscar muito mais vidas que o necessário”. Vallance, o ideólogo da estratégia, foi especialmente criticado pelo grupo de cientistas.

    “A ideia de que os países possam mudar da contenção para a mitigação é errada e perigosa”, disse o diretor-geral da Organização Mundial da Saúde, Adhanom Ghebreyesus.

    Recuo e ambiguidade

    Três dias depois da entrevista em que Vallance explicou o conceito de “imunidade de rebanho” e um dia depois da chuva de críticas, o ministro britânico do Serviço Social e de Saúde, Matt Hancock, tomou a dianteira para dizer que a ideia exposta por Vallance não representa uma estratégia oficial do governo.

    A orientação oficial no Reino Unido é de sugerir quarentena apenas para pessoas que apresentem sintomas de contaminação ou que vivam com pessoas que apresentem esses sintomas. Não há punição prevista para quem quebrar essa quarentena sugerida e não há restrições impostas a pessoas assintomáticas ou que não vivam com pessoas contaminadas no mesmo ambiente.

    A França, país que está a poucos minutos de distância da Grã-Bretanha, à qual se conecta por meio de um túnel que passa sob o Canal da Mancha, mostrou-se alarmada com as opções britânicas. Na terça-feira (17), o primeiro-ministro francês, Edouard Philippe, anunciou que estava estudando o fechamento das conexões entre os dois países, enquanto Boris Johnson não anunciasse medidas adequadas de confinamento.

    “O que nós faremos é ouvir todos os cientistas que têm credibilidade, e procuraremos por evidências. A imunidade de rebanho não é nosso objetivo nem nossa política. Ela é um conceito científico”

    Matt Hancock

    ministro britânico do Serviço Social e de Saúde, em entrevista ao jornal The Guardian no dia 15 de março

    O esclarecimento de Hancock chegou tardiamente e não foi suficiente para acabar com o clima de ambiguidade que está pautando a política sanitária do Reino Unido em relação ao coronavírus. Prova disso é o fato de Hancock ter feito o esclarecimento no dia 15, e o primeiro-ministro da França ter ameaçado fechar as fronteiras com os britânicos dois dias depois.

    A reflexão de especialistas

    No momento em que crescem os casos de contaminação no Brasil, e o governo Jair Bolsonaro avalia as medidas a serem tomadas, o Nexo apresentou o caso britânico a dois especialistas do Departamento de Epidemiologia da Faculdade de Saúde Pública da USP (Universidade de São Paulo).

    Para Eliseu Alves Waldman, “a proposta britânica, desde que acompanhada de medidas complementares voltadas à diminuição do contato entre as pessoas e de proteção de grupos de risco, pode fazer sentido, e a sua efetividade precisará ser avaliada, tanto quanto as demais estratégias utilizadas por países europeus”. O Reino Unido é um dos países europeus que tomaram as medidas mais tímidas de quarentena. Apenas pessoas com sintomas ou que vivem com pessoas com sintomas foram orientadas a ficar em casa.

    Para Fredi Alexander Diaz Quijano, “não dá para chamar o que o Reino Unido fez de estratégia. Trata-se do abandono de qualquer estratégia, porque morrem os mais vulneráveis e sobram os imunes”. Ele diz que o uso da quarentena é que tem levado à redução do número reprodutivo da doença. A diminuição do contato provoca um efeito análogo ao da imunização de rebanho, pois o número reprodutivo cai”.

    João Paulo Charleaux é repórter especial do Nexo e escreve de Paris

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