Ir direto ao conteúdo

O distanciamento social como redutor de contaminações

Evitar aglomerações, trabalhar de casa, reduzir a circulação e o contato físico próximo com outras pessoas são medidas incentivadas para conter a disseminação do coronavírus

Devido ao avanço da pandemia do novo coronavírus, governos e especialistas têm recomendado a adoção do distanciamento social, um esforço coletivo em reduzir o contato entre as pessoas para conter a transmissão do vírus.

No Brasil, o Ministério da Saúde recomenda evitar aglomerações. Enfatiza também a importância da higiene frequente das mãos e da desinfecção de objetos e superfícies tocados constantemente, como maçanetas e celulares, já que vírus respiratórios são transmitidos pelo contato com pessoas ou objetos infectados.

Nas áreas com transmissão comunitária, caso de cidades como São Paulo e Rio de Janeiro, a pasta apela para que as pessoas trabalhem de casa quando possível, para que reuniões sejam feitas virtualmente e viagens não essenciais sejam adiadas ou canceladas.

O ministério recomenda ainda que se adotem horários alternativos de deslocamento por transporte coletivo, com o objetivo de evitar horários de pico. Nesse tipo de propagação, considerada mais grave, a origem da contaminação já não é mais rastreável.

Em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo, o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, declarou no domingo (15) que toda a população deve fazer sua parte para conter o vírus, seguindo as recomendações do ministério.

Se a adoção do distanciamento para quem não apresenta sintomas é, até o momento, uma medida voluntária, o ministro afirma que, caso a situação se agrave como em outros países, passará a ser uma imposição.

O país registrava na tarde de terça-feira (17) 234 casos confirmados, segundo o governo federal. São Paulo é o estado que concentra o maior número deles. Havia cerca de outros 2.064 casos suspeitos. Com base na evolução dos registros no Brasil, o ministério estima que, sem a adoção das medidas de prevenção, o número de casos possa dobrar a cada três dias. Na terça-feira (17), foi também registrada a primeira morte no país pela covid-19.

Reduzir o contato entre as pessoas, evitando especialmente a reunião de agrupamentos de indivíduos em locais fechados, ajuda a “achatar a curva”, expressão usada por epidemiologistas para descrever o objetivo de tornar a disseminação do vírus mais lenta, diminuindo o número de casos ao longo do tempo. Isso ajuda os sistemas de saúde a ganhar tempo para responder à crise, impedindo que cheguem à sobrecarga e contribuindo para reduzir expressivamente mortes causadas pela doença.

gráfico mostra curvas de números de infecções pelo coronavírus com e sem medidas de proteção

Prevenção nas relações

Distanciamento social

Voltado a pessoas que não apresentam sintomas, consiste em eliminar o contato próximo entre indivíduos, evitar ambientes lotados, decretar home office.

Quarentena

Significa que um grupo ou indivíduo deve ficar recluso em um lugar, normalmente em casa, evitando ao máximo o contato com outras pessoas, por um período de 14 dias. É imposta àqueles que tiveram um grau maior de exposição e podem estar infectados, como passageiros de um cruzeiro no qual alguém tenha sido diagnosticado com a doença ou alguém cujo(a) companheiro(a) tenha contraído o vírus.

Isolamento

Aplicado aos pacientes que foram diagnosticados com a doença, que devem ficar em casa ou no hospital, adotando precauções ainda mais rígidas com relação ao contato humano.

As orientações de especialistas

O Nexo perguntou a duas especialistas sobre a adoção de medidas de redução do contato humano para conter a multiplicação dos casos: a virologista e professora da UFMG Betania Drumond e a diretora-adjunta do Instituto de Microbiologia da UFRJ Luciana Costa. Suas orientações foram organizadas abaixo por tópicos.

Ficar ou não em casa

É necessário seguir as instruções dos governos e diminuir o fluxo de pessoas nas cidades, ficando em casa sempre que possível e deixando de realizar atividades não essenciais fora, sobretudo em ambientes fechados e com grande circulação de pessoas.

Nos casos em que não for possível adotar o distanciamento social, as pessoas devem evitar ambientes lotados, proximidade física e cumprimentar encostando umas nas outras: sem apertos de mão ou abraços.

No transporte coletivo

Àqueles que precisam fazer uso do transporte público, além da recomendação de evitar os horários de maior lotação, é recomendado higienizar as mãos antes e depois de encostar em uma porta, corrimão ou em outra superfície com as quais muitas pessoas têm contato. Deve-se também manter janelas abertas sempre que possível para garantir a ventilação e ficar atento à chamada “etiqueta respiratória”: usar um lenço descartável ou o antebraço para cobrir a boca e o nariz ao tossir ou espirrar. Ao chegarem ao seu destino ou voltarem para casa, as pessoas não podem se esquecer de lavar as mãos e o rosto antes de travar contato com qualquer pessoa.

‘Circulação silenciosa’

As recomendações de isolamento no Brasil variam nas cidades e estados de acordo com a situação epidemiológica em que se encontram, levando em conta fatores como número de casos, densidade populacional e capacidade do sistema de saúde.

Apesar disso, instruções sobre deixar de frequentar lugares lotados e relativas a cuidados de higiene, especialmente antes e depois de passar por locais de grande circulação, valem para pessoas em qualquer parte do país. Segundo a virologista Betania Drumond, o coronavírus já pode estar circulando silenciosamente em cidades onde não houve casos confirmados. Há pessoas que carregam o vírus sem manifestar sintomas, mas ainda assim são capazes de transmiti-lo embora a probabilidade de contágio seja maior pelo contato com doentes com sintomas.

“Independentemente das medidas que os governos vêm assumindo para cada região, todas as pessoas têm que colaborar. A ação de cada pessoa tem um impacto muito grande na saúde do coletivo. Todos nós precisamos ter a consciência de cuidar da nossa saúde e também proteger a saúde das outras pessoas, tomando essas medidas de higiene e de controle”, disse Drumond ao Nexo.

Grupos de risco

Estão no grupo de risco para a covid-19 idosos, pessoas com doenças respiratórias crônicas, como asma, com doenças cardíacas, diabéticos e hipertensos. Os cuidados já mencionados devem ser redobrados para eles.

É recomendável que os idosos passem mais tempo em casa e que se evite contato próximo com eles, sem encostar ou abraçar. Se possível, um familiar, amigo ou cuidador não idoso deve fazer as compras da casa para evitar que eles circulem nesses locais. É preciso tomar um cuidado especial com a higienização das superfícies da casa onde moram, como as maçanetas e corrimãos, e reservar uma toalha de rosto que não seja compartilhada com outras pessoas da casa com a qual possam fazer a higiene constante do rosto e das mãos.

Ao visitar essas pessoas, também é preciso atenção especial, ao chegar, à higiene das mãos e à etiqueta respiratória. Se alguém do convívio dos grupos de risco apresentar sintomas, mesmo que só de resfriado ou gripe comum, é indicado suspender qualquer contato próximo. A contaminação poderia ser confundida com a covid-19, eventualmente sobrecarregando ainda mais o sistema de saúde, ou deixá-los ainda mais vulneráveis à doença.

Ao apresentar sintomas

Quem de fato apresentar os sintomas causados pelo coronavírus deve consultar os sites do Ministério da Saúde e das secretarias de saúde. Há um aplicativo disponibilizado pelo Sistema Único de Saúde que permite avaliar a necessidade de buscar atendimento em uma unidade, o que ajuda a não sobrecarregar hospitais e postos de saúde.

Nessa situação, deve-se ficar isolado, evitar mais drasticamente contato com outras pessoas, dormindo, preferencialmente, em um quarto separado, utilizando toalhas não compartilhadas e evitando tocar objetos e superfícies de uso comum.

A eficácia do distanciamento social na história

Durante a pandemia de gripe espanhola de 1918, que chegou a matar 100 milhões de pessoas ao redor do mundo, políticas de redução do contato humano foram adotadas em determinados lugares e tiveram sucesso em conter o número de mortes. Também foram utilizadas mais recentemente, durante a epidemia de gripe de 2009 no México.

No primeiro caso, a eficácia dessas estratégias foi demonstrada pela trajetória do vírus em duas cidades americanas: Philadelphia e St. Louis, não muito distantes uma da outra. Na primeira, centenas de milhares de pessoas se reuniram nas ruas para assistir a um desfile dos soldados que haviam lutado na Primeira Guerra Mundial, ignorando os riscos de contaminação. Mais de 4.500 habitantes morreram de gripe na semana que se seguiu. Já em St. Louis, poucos dias após os primeiros casos serem detectados em civis, a cidade adotou medidas como fechar escolas, playgrounds e igrejas, restringindo também horários de trabalho, a circulação nos bondes e reuniões de mais de 20 pessoas.

A cidade apresentou uma taxa de mortes per capita relacionadas à gripe mais de duas vezes menor em relação a Philadelphia.

Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.

Você ainda tem 3 conteúdos grátis neste mês.