Como combater um vírus quando o presidente dá mau exemplo

Bolsonaro interagiu com manifestantes e deu declarações reiteradas minimizando a pandemia do novo coronavírus. O 'Nexo' conversou com especialistas em saúde pública sobre os impactos dessa atitude

    Jair Bolsonaro tem dado declarações reiteradas minimizando os efeitos do novo coronavírus e tratando as medidas restritivas de circulação e convívio social como um exagero. Nesta terça-feira (17), o presidente voltou à carga:

    “Esse vírus trouxe uma certa histeria. Tem alguns governadores, no meu entender, posso até estar errado, que estão tomando medidas que vão prejudicar e muito a nossa economia”

    Jair Bolsonaro

    presidente da República, em entrevista à rádio Tupi em 17 de março

    No domingo (15), Bolsonaro saiu às ruas em Brasília e interagiu com manifestantes que atacavam o Congresso e o Supremo Tribunal Federal, mesmo sob suspeita de ter contraído o coronavírus. Várias pessoas de seu entorno estão infectadas.

    O presidente diz que seus testes deram negativo. Mas ele deveria ter ficado em isolamento, sob monitoramento, segundo recomendações sanitárias. De acordo com contagem do jornal O Estado de São Paulo, Bolsonaro teve contato direto com ao menos 272 pessoas. No dia seguinte, sua posição pública foi esta:

    “Foi surpreendente o que aconteceu na rua. Até com esse superdimensionamento (...) Tudo bem que vai ter problema. Vai ter. Quem é idoso e está com problema ou deficiência. Mas não é isso tudo que dizem. Até que na China já está praticamente acabando”

    Jair Bolsonaro

    presidente da República, em declaração a apoiadores no dia 16 de março

    Profissionais da saúde do mundo todo desaprovam aglomerações populares. Segundo essas autoridades, a covid-19, doença causada pelo novo coronavírus, é de fácil transmissão e qualquer pessoa, mesmo sem sintomas, pode servir como vetor transmissor do vírus.

    Sob a chefia de Luiz Henrique Mandetta, o ministério da Saúde recomenda o cancelamento ou o adiamento de eventos com aglomerações, pelo menos em localidades que já apresentam a transmissão comunitária do coronavírus.

    A politização do debate e seus efeitos

    Em entrevista à CNN Brasil, no domingo (15), Bolsonaro abordou o problema do coronavírus por um viés político, com referências a supostos interesses obscuros. Com toda a certeza, há um interesse econômico envolvido nisso tudo", afirmou o presidente.

    Em seguida, mencionou o Partido dos Trabalhadores, seu grande adversário político. “Em 2009, 2010, tivemos uma crise semelhante [com a H1N1], mas aqui no Brasil era o PT que estava aqui no governo, e nos Estados Unidos eram os democratas, e a reação não foi nem sequer perto dessa que está acontecendo hoje em dia aqui no mundo todo".

    Bolsonaro disse também que os prejuízos econômicos advindos das restrições ao convívio social seriam mais graves do que a disseminação da doença. A afirmação foi repetida por ele à rádio Bandeirantes, na segunda-feira (16).

    Sobre as declarações do presidente, Deisy Ventura afirmou que a autoridade mais importante do país tem um discurso inconsistente e dá sinais contraditórios em relação a outras autoridades do governo. Isso pode causar o descrédito do próprio presidente, o que é muito ruim em momento de crise, ou o descrédito das autoridades sanitárias, o que é mais grave ainda".

    Ventura é professora titular da Faculdade de Saúde Pública da USP (Universidade de São Paulo), onde coordena o doutorado em Saúde Global, e conversou com o Nexo a respeito dos efeitos da atitude de Bolsonaro diante da epidemia.

    O Nexo também conversou com Janine Cardoso, professora do programa de pós-graduação em Informação e Comunicação em Saúde, da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz).

    A confiança nas autoridades sanitárias

    Segundo Deisy Ventura, a confiança da população nas autoridades sanitárias é crucial em processos de resposta a emergências." A crise do Ebola, na África Ocidental, ganhou a proporção que ganhou porque a população não confiava nas autoridades sanitárias. Em razão dos permanentes conflitos políticos, as medidas e recomendações das autoridades eram ignoradas porque eram sempre interpretadas como mero jogo político".

    No Brasil mesmo, a Revolta da Vacina, no século passado, mostrou os resultados desastrosos que advêm da falta de confiança pública em relação às autoridades sanitárias", exemplificou Ventura.

    Para a professora, essa confiança existe atualmente entre os brasileiros, mas é ameaçada quando o presidente traz questões ideológicas para um assunto técnico e desautoriza o ministério da Saúde que, segundo ela, “é extremamente qualificado tecnicamente e tem conduzido muito bem a resposta”. Ela ainda afirma que “com isso, compromete-se até o trabalho do servidor do SUS que está na linha de frente de uma unidade básica, por exemplo. Quando a população não acredita nas autoridades sanitárias, ela pode se tornar agressiva em relação a esse profissional. É um elemento estrutural muito grave”.

    Na visão de Janine Cardoso, esses impactos devem se dar com maior intensidade apenas entre os seguidores mais aguerridos do presidente. “Isso funciona como uma chancela, um incentivo [ao desrespeito às recomendações das autoridades sanitárias]. Me parece que é para essas pessoas que o presidente está se pronunciando”. Mesmo assim, segundo ela, caso as projeções se confirmem, e a epidemia se agrave, as críticas ao modo como o presidente vem lidando com a crise devem aumentar.

    Quanto aos efeitos sobre opositores do presidente, Cardoso prevê um reforço da crítica, política ou ética, que já vem sendo feita à performance do governo. “Os elementos que informam cada lado são diferentes. Veja que as manifestações da oposição, pelos dois anos da morte da vereadora Marielle Franco e pela educação, foram canceladas”.

    A coordenação dentro do governo

    As professoras também falaram sobre o fato de Bolsonaro ter ignorado a cartilha sanitária do próprio Ministério da Saúde, comandado por Luiz Henrique Mandetta.

    No domingo (15), o presidente da República foi ao encontro de seus apoiadores na companhia do contra-almirante Antonio Barra Torres, diretor-presidente substituto da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária). A agência, que é uma das entidades do país responsáveis pela promoção da saúde pública, regula e controla a qualidade sanitária dos produtos e serviços disponíveis no Brasil. Barra Torres, que é médico, tem sido apontado como um conselheiro de Bolsonaro nos assuntos de saúde.

    Para Janine Cardoso, a descredibilização do ministério da Saúde está inserida no contexto de desqualificação da ciência, do que a ciência aporta de conhecimento para embasar as ações. “É um cenário onde pessoas decidem, politicamente, se epidemias estão ou não acontecendo, se são ou não importantes. A ciência vive do debate, da contestação de teorias, mas esse diálogo tem de ser feito com base em pesquisa, em conhecimento de causa. Hoje, esse requisito do embasamento científico foi eliminado e parece não ser mais considerado necessário”, avaliou.

    Sobre o riscos desse tipo de cenário, Deisy Ventura considera que o pior deles seria de o ministério da Saúde “perder o protagonismo nessa resposta”. “A resposta brasileira não pode ser gerida por extremistas fanáticos, que atacam o que é mais importante numa resposta, o embasamento em evidências. Não podemos perder a resposta técnica, centrada no Sistema Único de Saúde, na informação qualificada”, afirmou Ventura.

    As críticas à inconsequência do presidente

    Bolsonaro incentivou inicialmente a manifestação de domingo (15) contra o Congresso e contra o Supremo, que inicialmente tinha como pano de fundo uma disputa sobre o controle Orçamentário. Depois, fez um pronunciamento em cadeia nacional de rádio e TV desestimulando a presença das pessoas na rua justamente por causa do coronavírus. No fim, mudou de novo de posição e foi ele mesmo interagir com os manifestantes.

    Inicialmente, o presidente do Senado Federal, Davi Alcolumbre (DEM-AP), que responde pelo Congresso como um todo, não se manifestou. Já o presidente da Câmara Rodrigo Maia (DEM-RJ) e o presidente do Supremo Dias Toffoli chegaram a divulgar notas oficiais protocolares. Em certo momento, parecia que o combinado era ignorar Bolsonaro.

    Depois que o presidente foi às ruas, porém, o tom ficou mais duro. Alcolumbre emitiu sua primeira nota oficial e afirmou que “é inconsequente estimular a aglomeração de pessoas nas ruas”. “A gravidade da pandemia exige de todos os brasileiros, e inclusive do presidente da República, responsabilidade", escreveu.

    Maia também criticou o presidente. Escreveu no Twitter: “por aqui, o Presidente da República ignora e desautoriza o seu ministro da Saúde e os técnicos do ministério, fazendo pouco caso da pandemia e encorajando as pessoas a sair às ruas. Isso é um atentado à saúde pública que contraria as orientações de seu próprio governo”.

    Aos críticos, somaram-se até aliados do presidente. Ronaldo Caiado (DEM), que é médico e governador de Goiás, condenou a aglomeração em meio a um ato em Goiânia e foi vaiado pelos presentes.

    Na segunda-feira (16), a pedido de ministros do Supremo, Maia e Alcolumbre receberam Mandetta para uma reunião a fim de debater o combate ao espalhamento do novo coronavírus no Brasil. O presidente da República ficou de fora.

    No mesmo dia, Bolsonaro criou um comitê de crise sobre a pandemia. Para comandá-lo, nomeou o ministro-chefe da Casa Civil, general Walter Braga Netto. Segundo o decreto de criação, o comitê tem papel de articulação da ação governamental e de assessoramento ao presidente da República.

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