O que há na carta que Bebianno deixou para Bolsonaro

Advogado comandou campanha eleitoral, foi ministro e se tornou desafeto do presidente. Ele morreu de infarto quando se preparava para se candidatar a prefeito do Rio

    A morte do ex-ministro Gustavo Bebianno, vítima de infarto na madrugada de sábado (14), em Teresópolis, no Rio, trouxe de volta à tona sua conturbada saída do governo do presidente Jair Bolsonaro, em fevereiro de 2019.

    Bebianno havia deixado uma carta a Bolsonaro, que estava para ser entregue ao presidente. Seu conteúdo foi revelado neste domingo (15) por O Globo. A carta, enviada ao jornal pelo empresário e presidente do PSDB no Rio, Paulo Marinho, que também é suplente do senador Flávio Bolsonaro (sem partido), relata a visão de Bebianno ao deixar a Secretaria-Geral da Presidência.

    Em tom pessoal, a carta começa com o ditado bíblico utilizado por Bolsonaro durante a campanha presidencial. E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. Na sequência, Bebianno elenca os motivos que, para ele, têm desestabilizado a gestão do atual presidente.

    O encontro entre Bolsonaro e Bebianno

    “Dediquei dois anos da minha vida para defender uma causa apelidada de Mito. E eu acreditei nesse Mito com todas as minhas forças, com todo o meu coração”, escreveu Bebianno a Bolsonaro.

    Os dois haviam se conhecido em 2017. Bebianno era advogado no Rio, sem partido ou atuação política. Bolsonaro era deputado federal pelo PSC. Foi Bebianno quem levou Bolsonaro para PSL, em março de 2018. Depois, coordenou a campanha presidencial vitoriosa.

    Bebianno presidiu o PSL durante as eleições e organizou candidaturas pelo país. Virou ministro da Secretaria Geral da Presidência, cargo responsável pela articulação política com a sociedade civil.

    A relação com Carlos Bolsonaro

    “Meu Capitão, o senhor precisa acordar e cair em si (...)O senhor está obsediado. Obsediado pelo próprio filho. Carlos precisa de ajuda e só o senhor tem esse poder. Não estou falando com rancor. Meu sentimento não é de raiva, acredite. Não tenho uma só gota de raiva do Carlos (a que tive, já passou, graças a Deus), porque ele precisa de ajuda. Isso é visível aos olhos de todos”, escreveu Bebianno na carta a Bolsonaro.

    O desgaste de Bebianno no governo se acentuou pouco tempo depois do início do mandato. No início de fevereiro de 2019, o jornal Folha de S. Paulo revelou as suspeitas de esquema de candidatos laranjas do PSL em Minas Gerais, presidido regionalmente, à época, pelo atual Ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio.

    Segundo o jornal, Bebianno repassou R$ 297 mil a Álvaro Antônio, que posteriormente distribuiu o valor a quatro candidatas do partido em Minas sem expressão ou chances de vitória. O dinheiro, então, teria retornado ao caixa do partido.

    Além disso, a disputa entre Bebianno e Carlos Bolsonaro sobre a comunicação do governo no período de transição - fim de 2018 e o início de 2019 - complicaram a situação do advogado. A Secretaria de Comunicação e o Programa de Parceria de Investimentos, que ficariam com o ministro, foram transferidas para a Secretaria de Governo.

    Quando o esquema do laranjal veio à tona, Bebianno foi emparedado. No dia 12 de fevereiro, após ser apontado como pivô da crise instituída no Planalto, ele afirmou ao jornal O Globo que havia conversado com Bolsonaro em três ocasiões naquele dia. Pouco depois, Carlos foi ao Twitter desmentir o então ministro, chamando-o de mentiroso, mensagem endossada pelo presidente. Sua demissão foi publicada no Diário Oficial uma semana depois. O general da reserva Floriano Peixoto passou a ocupar seu posto.

    “Carlos vive em uma prisão mental e emocional. Ele sofre intensamente em função do próprio ódio. Ele cultiva esse ódio contra tudo e contra todos, principalmente contra as pessoas por quem o senhor demonstra afeto”, escreveu Bebianno na carta.

    O desgaste entre os dois seguiu mesmo quando Bebianno deixou o governo. Em algumas entrevistas, como ao Roda Viva, da TV Cultura, em 2 de março, oi ex-ministro afirmou que Carlos atrapalhou o esquema de segurança no dia em que o pai levou a facada de Adélio Bispo, em Juiz de Fora (MG), durante a campanha, em 6 de setembro de 2018.

    Ainda segundo a carta de Bebianno, Bolsonaro, para manter a proximidade com o filho, tem aceitado teorias da conspiração e todo o ódio destilado por ele.

    “Ao agir assim, o senhor se mantém preso, mantém o seu filho preso, e gera um rastro terrível de destruição à sua volta. Além disso, alimenta e incentiva o comportamento viciado do filho, impedindo-o de se libertar do ódio”, escreveu o advogado na carta.

    “Tenha certeza de que, daqui a pouco tempo, o problema envolverá outra pessoa, e depois outra, e depois mais outra, num rastro interminável de ódio e destruição”, afirmou Bebianno, ainda na carta.

    Após a demissão de Bebianno, o atual presidente se desentendeu com outros membros da gestão. Em abril de 2019, Carlos se desentendeu via Twitter com o vice-presidente Hamilton Mourão (PRTB). Bolsonaro, em nota, defendeu o filho e afirmou: ele é “sangue do meu sangue”.

    Outros ex-ministros, como o general Carlos Alberto Santos Cruz, na Secretaria de Governo, e Floriano Barbosa, responsável pela Secom, também tiveram atritos com Carlos por causa da comunicação do governo.

    A carta mostra que nem mesmo a aproximação de Bebianno com o PSDB, para disputar a prefeitura do Rio de Janeiro, mudou sua admiração que o ex-ministro tinha por Bolsonaro. “Faça um profundo exame de consciência. Limpe o seu coração. Recupere o Carlos pelo seu exemplo. Ele vai aprender. Ele é um bom garoto. Só precisa da sua ajuda…Fique com Deus e um beijo no seu coração (hétero). O senhor continuará a ser o meu Mito”, escreveu o ex-ministro.

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.

    Já é assinante?

    Entre aqui

    Continue sua leitura

    Para acessar este conteúdo, inscreva-se abaixo no Boletim Coronavírus, uma newsletter diária do Nexo: