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Como o coronavírus golpeou o sistema eleitoral da França

Pandemia espanta mais da metade dos eleitores e leva à maior abstenção numa eleição local dos últimos 60 anos. Um dia depois, Emmanuel Macron anunciou medidas de quarentena similares às da Itália

    A França realizou no domingo (12) o primeiro turno de suas eleições municipais. A votação ocorreu no meio da pandemia de coronavírus. No momento da votação havia 4.500 pessoas contaminadas no país e 91 mortos. No dia seguinte, segunda-feira (16), já eram mais de 6.500 casos registrados e 148 mortos.

    A decisão de manter o primeiro turno na data programada havia sido anunciada pelo presidente Emmanuel Macron na quinta-feira (12), em cadeia nacional de rádio e TV. O medo de contaminação, no entanto, fez o comparecimento despencar.

    Na segunda-feira (16), Macron fez outro pronunciamento nacional, em que anunciou um pacote de medidas de confinamento para toda a população. Há proibições para sair de casa a partir do meio-dia de terça feira (17), a não ser por motivos de extrema necessidade. A medida – uma quarentena em alguma medida semelhante à que vigora na Itália – vale por 15 dias. Os infratores sofrerão sanções, que ainda não foram divulgadas em detalhe.

    Alem do fechamento de escolas, bares, restaurantes, cinemas e estádios, que valia desde sábado (14), estão proibidas também reuniões familiares e encontros entre amigos.

    O governo também postergou – provavelmente para 21 de junho, como defende o primeiro-ministro Edouard Philippe – o segundo turno das eleições municipais, que seriam em 22 de março.

    Até segunda-feira (16), diversos países europeus tinham fechado completa ou parcialmente suas fronteiras para estrangeiros. No resto da Europa, a partir de terça (17), as fronteiras dos países que formam o Espaço Schengen estarão fechadas para estrangeiros pelo prazo de 30 dias. A medida extrema é uma forma de tentar conter a propagação e aliviar sobretudo os serviços de reanimação nas UTIs dos hospitais.

    Os impactos na eleição local

    Apenas 45% dos eleitores franceses votaram no domingo (12). Esse foi o mais baixo índice da série histórica medida desde 1959, na primeira eleição municipal realizada durante a Quinta República – período inaugurado por Charles de Gaulle (1959-1969), e vigente até hoje.

    Foi a primeira vez em 61 anos que menos da metade dos eleitores compareceram às urnas. Na França, o voto não é obrigatório, mas o índice de comparecimento em eleições municipais se mantém acima dos 64% desde 1959.

    Na tarde de segunda-feira (16), ainda manhã no Brasil, a direção do LREM (La République en Marche, ou A República em Marcha), partido de Macron, orientou que todos os seus candidatos que ainda permanecem na disputa de segundo turno suspendam imediatamente suas campanhas.

    Queda histórica

    Gráfico da participação eleitoral na França em 2020

    Urnas vazias, parques lotados

    Nas eleições locais francesas, os eleitores não votam exatamente para prefeito, mas apenas nos “conselheiros”, que equivalem aos vereadores das Câmaras Municipais no Brasil.

    Nas cidades grandes, o voto é dado para uma lista fechada de candidatos de um partido. A lista que recebe a maioria dos votos governa. Se isso não ocorre no primeiro turno, é realizado então um segundo turno. Normalmente, o candidato ao cargo de prefeito encabeça essa lista, enquanto os “conselheiros” podem exercer simultaneamente os cargos legislativos e executivos numa prefeitura.

    Foto: Charles Platiau/Reuters - 13.01.2020
    Anne Hidalgo em Paris
    Prefeita de Paris, Anne Hidalgo

    Entre as cidades grandes, Paris, Lyon e Marselha têm ainda uma peculiaridade: os eleitores votam nos membros dos conselhos dos distritos (ou arrondissements), que são responsáveis por indicar o governo da cidade em seguida. Não há, portanto, uma eleição em Paris como tal, mas apenas para os 20 diferentes distritos ou “arrondissement” separadamente.

    Nas cidades pequenas, com menos de mil habitantes, o voto não é por lista, mas nominal, e a eleição é realizada num único turno. Uma curiosidade na eleição deste ano é que 106 cidades francesas não tiveram nenhum candidato na disputa. Nestes casos, uma junta do governo regional administra provisoriamente a localidade e uma nova eleição é chamada.

    Na capital, Paris, a prefeita, Anne Hidalgo, do Partido Socialista, é a mais cotada para repetir o mandato, que, no caso francês, tem seis anos de duração. Atrás dela, está Rachida Dati, candidata do partido de direita Les Républicans (Os Republicanos), seguida de Angès Buzyn, candidata do partido de Macron, o LREM.

    500 mil

    É o número de conselheiros municipais eleitos na França

    34.970

    É o número de prefeitos

    Para estimular o comparecimento às urnas, o governo fez uma ampla campanha informativa, na qual explicou medidas simples de prevenção da transmissão, como observar a distância de um metro na fila de votação, limpar as mãos com álcool gel antes e depois de votar e, se possível, levar a própria caneta no bolso. Mas mesmo todo o esforço comunicacional e o apelo feito por Macron e por seu primeiro-ministro, Édouard Philippe, não foram suficientes para conter a queda histórica.

    Enquanto os locais de votação estavam mais vazios que o normal, parques da capital francesa ficaram lotados. O Nexo esteve no Jardim de Luxemburgo, que circunda a sede do Senado, onde a aglomeração era típica de um dia de primavera. Com os termômetros marcando 14º ao redor do meio-dia, muitos trocaram o compromisso cívico pelo prazer de estar ao sol depois do inverno – incluindo centenas de idosos, que são os mais expostos aos riscos da doença.

    A atitude temerária dos franceses contrastou com a rígida quarentena imposta pelas autoridades da Espanha e da Itália, dois países que fazem fronteira com a França, e onde todos estão obrigados a permanecer dentro de casa até segunda ordem.

    Em Paris, o governo havia decretado primeiro o fechamento das escolas e, depois, de bares e restaurantes. Ainda assim, as regras não foram claras nem estritas, o que manteve muitas pessoas circulando como se nada estivesse acontecendo.

    João Paulo Charleaux é repórter especial do Nexo e escreve de Paris

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