Novo coronavírus: quando um país é incentivado a parar

Medidas procuram restringir contato social e atividades fora de casa em diversos estados brasileiros

Escolas sem aulas, eventos cancelados e home office estão entre as medidas adotadas em todo o Brasil para enfrentar uma semana em que especialistas prevêem um aumento nos casos de pessoas infectadas pelo coronavírus.

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Casos confirmados do novo coronavírus no país em 15 de março, segundo o ministério da Saúde

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Pessoas suspeitas de estarem infeccionadas pelo vírus

Contra a disseminação do vírus e da doença causada por ele, a covid-19, autoridades da saúde de todo o mundo recomendam o distanciamento social, mesmo para pessoas que ainda não mostram sintomas de infecção. O motivo é que não se tornem vetores do vírus para os grupos mais vulneráveis, como os idosos.

As orientações foram colocadas por diversos órgãos públicos nos âmbitos federal, estadual e municipal. A confirmação de que a transmissão desde agora, meados de março, ocorre de forma sustentada e comunitária em estados como São Paulo e Rio de Janeiro.

“Essas medidas têm impacto no aumento de número de transmissões. Se você diminui as transmissões, diminuem os novos casos e os novos casos graves, então consegue dar um pouco mais de tempo para o sistema de saúde, hospitais, UTIs, para que consigam manejar melhor os doentes e não entrem numa falência de atendimento, que seria então o pior dos cenários”, afirmou ao Nexo Luciana Costa, diretora-adjunta do Instituto de Microbiologia da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro).

Mais tempo para os serviços de saúde

A estratégia vem sendo chamada de “achatar a curva”, ou seja, espraiar o número de infecções por um período de tempo maior. Com isso, as agências de saúde pública e e a infraestrutura de saúde ganham um tempo valioso para responder à crise. Pode ser uma maneira também de reduzir mortes de maneira expressiva. Se a curva de contágio sobe de modo repentino, em especial quando a capacidade de testar é baixa, a rede de saúde fica sobrecarregada. Muitos médicos e enfermeiras acabam também adoecendo e têm de se isolar.

No Brasil, os números mostram que o país está distante de ter um número de leitos de UTI suficiente. De acordo com a Amib (Associação de Medicina Intensiva Brasileira), antes da infecção chegar ao país, a taxa de ocupação de UTIs para adultos no SUS chegava a 95%. O país tem atualmente 28 mil leitos de UTI habilitados para o SUS (Sistema Único de Saúde).

“Não há dúvida de que vamos ter um gargalo, o que vai exigir o bloqueio de cirurgias agendadas e a ampliação do tempo de trabalho de profissionais de UTIs”, diz Rodrigo Olmos, professor do departamento de Clínica Médica da USP e médico assistente do Hospital Universitário (HU), à Folha.

As suspensões das aulas

RIO DE JANEIRO

As redes escolares municipais (650 mil alunos) e estaduais (700 mil) do Rio de Janeiro terão as aulas suspensas a partir desta segunda (16). As escolas municipais ficarão sem aulas pela próxima semana enquanto as estaduais param por 15 dias. De acordo com a prefeitura, as unidades ficarão abertas das 11 às 13 horas para servir almoço para os estudantes, uma vez que muitos dependem das refeições servidas nas escolas. UFF (Universidade Federal Fluminense), UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) estão entre as instituições de ensino superior que suspenderam as atividades.

SÃO PAULO

Em São Paulo, o plano é interromper as aulas gradualmente começando no dia 16. O motivo é permitir que pais possam se preparar para a nova rotina, observando inclusive a orientação de evitar que crianças exponham avós. A partir do dia 23, a suspensão será total. A orientação também vale para as escolas privadas. Várias delas já anunciaram a suspensão gradual das aulas a partir da segunda-feira (16). Faculdades ESPM, Faap, Insper, Cásper Líbero, FGV (Fundação Getúlio Vargas), além de USP (Universidade de São Paulo) e Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) suspenderam as aulas. São Paulo já tem 112 casos confirmados.

DISTRITO FEDERAL

Desde quinta-feira (12), o Distrito Federal suspendeu por cinco dias as aulas das redes pública e privada. O Governo do Distrito Federal irá oferecer a Bolsa Alimentação Escolar Emergencial, para atender a estudantes da rede pública, com o valor depositado em cartão. A UNB (Universidade de Brasília) suspendeu as atividades por cinco dias. Já há 14 casos de infectados no Distrito Federal.

PERNAMBUCO

A prefeitura do Recife suspendeu aulas de escolas públicas e particulares a partir do dia 18 (quarta), informando que a medida antecipa as férias escolares de julho. A merenda escolar continuará sendo fornecida por meio de kits de alimentação que poderão ser coletados na unidade escolar uma vez por semana. As universidades pernambucanas também resolveram suspender as aulas até o dia 31 de março. Depois, a medida será reavaliada. Pernambuco tem sete casos confirmados de coronavírus.

TOCANTINS

No Tocantins, aulas na rede estadual estão suspensas por uma semana. O conselho estadual de educação irá orientar prefeitos e escolas particulares a adotarem medidas semelhantes. O estado monitoria 8 casos suspeitos de contaminação.

Os eventos e as aglomerações

Segundo a orientação do ministério da Saúde, deve-se evitar multidões e contato social. Para áreas com transmissão comunitária ou sustentada a recomendação é para que se reduzam os deslocamentos para o trabalho. Quando possível, reuniões devem ser feitas virtualmente, viagens não essenciais canceladas e o trabalho ser feito em esquema de home office. O reescalonamento de horários de entrada e saída também é indicado para descongestionar o transporte público.

Em São Paulo, a prefeitura cancelou por tempo indeterminado a realização de eventos com grandes aglomerações organizados pelo poder público no município. A decisão inclui eventos esportivos, culturais e comerciais. Eventos particulares não serão proibidos, mas há uma recomendação de que sejam evitados caso esperem ter mais de 500 pessoas. A Paulista Aberta, iniciativa realizada todo domingo em que a avenida Paulista é fechada para carros, não funcionou no domingo (15). Uma manifestação pró-Bolsonaro, no entanto, acabou restringindo o tráfego na via.

O próprio presidente da República foi aos atos em Brasília. Ele está suspeito de ter contraído o vírus. Fez um primeiro exame que deu negativo. Mas estava em isolamento com o objetivo de realizar outro. Rompeu o isolamento, contra as orientações das autoridades de saúde, e saiu às ruas e cumprimentou pessoas.

Equipamentos públicos municipais como museus e centros culturais permanecerão abertos. Apenas atrações especiais previstas para esses espaços, como shows e espetáculos teatrais, foram canceladas por tempo indeterminado.

Depois de realizarem um fim de semana de jogos com os portões fechados, sem torcida, as federações de futebol de São Paulo e Rio de Janeiro se reúnem com os clubes nesta segunda-feira para avaliar medidas para as próximas rodadas dos campeonatos estaduais. Segundo o UOL, a tendência no Rio é que o torneio seja interrompido, seguindo propostas de clubes e atletas, representados pelo Sindicato de Atletas de Futebol do Estado do Rio de Janeiro (Saferj).

Os cancelamentos de voos

De acordo com o ministro da Infraestrutura, Tarcísio de Freitas, cerca de 50% dos voos internacionais de 30% dos domésticos foram cancelados pelas empresas aéreas. Freitas prevê que o índice de cancelamento deve subir nas próximas semanas, chegando a 70% dos voos de e para fora do país e metade dos nacionais.

As companhias aéreas Azul, Latam e Gol anunciaram durante o fim de semana a flexibilização de suas políticas de cancelamento ou alteração de reservas de voos nacionais, por causa do coronavírus. Mundialmente, o setor aéreo será um dos mais impactados pela pandemia.

No Recife, a prefeitura pretende solicitar à Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) que suspenda voos internacionais agendados para a cidade a partir do dia 20 de março.

A vida pré-quarentena

Em São Paulo e Rio, vários supermercados em bairros de classe média e alta tiveram movimento grande com pessoas comprando alimentos e produtos de limpeza. Segundo reportagens na imprensa, a procura maior foi por itens como papel higiênico, leite, alimentos congelados e álcool gel.

Na capital paulista, restaurantes, bares e cafés em bairros centrais ficaram cheios, de acordo com reportagem da Folha de S. Paulo. “Este fim de semana é uma espécie de pré-quarentena. As pessoas querem aproveitar ao máximo”, explicou uma frequentadora ao jornal.

Marcada para sábado (14), uma festa de formatura com alunos de direito da PUC, onde eram esperadas 4 mil pessoas, foi mantida. Além de alunos, eram esperados muitos pais e avós no evento. A realização da festa gerou polêmica entre alunos, mas a organização decidiu seguir em frente com o evento.

A empresa responsável pelo aplicativo de entregas Rappi afirmou ter registrado um aumento expressivo no número de pedidos desde que aumentou a preocupação com o coronavírus.

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