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Bolsonaro vai no protesto: contra os outros e contra ele mesmo

Presidente se contradiz sobre ir às ruas e se expõe em manifestação anti-Congresso mesmo sob um período de isolamento por suspeita de ter sido contaminado pelo coronavírus

Em meio à pandemia de coronavírus e contra recomendações de autoridades sanitárias, inclusive o Ministério da Saúde, o presidente Jair Bolsonaro participou de manifestações anti-Congresso em Brasília neste domingo (15).

A atitude do presidente contradisse ele mesmo. Bolsonaro havia desestimulado os protestos em pronunciamento em cadeia nacional de rádio e TV na quinta-feira (12), devido à pandemia e às recomendações de autoridades públicas de saúde para evitar a aceleração da propagação da doença.

“Nossa saúde e de nossos familiares devem ser preservados. O momento é de união, serenidade e bom senso”

Jair Bolsonaro

Presidente da República, em pronunciamento em rede nacional em 12 de março de 2020

Neste domingo (15), no entanto, o presidente começou a compartilhar no Twitter vídeos e fotos de manifestações em diversas cidades do país, como Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Salvador, Belém e Brasília.

Alguns grupos de extrema direita haviam desestimulado o ato, como o Nas Ruas, mas bolsonaristas nas redes sociais mantiveram a convocação, argumentando que “soldado que vai à guerra não pode ter medo de morrer”. Esses grupos trazem uma mensagem contra o que chamam de corrupção no Congresso e no Supremo Tribunal Federal.

E foi em Brasília, onde funcionam os Três Poderes da República, que o presidente resolveu participar das manifestações. A partir do meio-dia, ele fez um périplo de carro, de vidros fechados, do Palácio da Alvorada, sua residência, até a Esplanada dos Ministérios, onde desceu no Palácio da Planalto, edifício onde dá expediente.

No Planalto, o presidente passou a estabelecer contato direto com seus apoiadores. Fora do carro, na porta do palácio, ele se dirigiu a um grupo de dezenas de apoiadores que o aguardavam. Cumprimentou alguns, tocando neles, e manuseou smartphones de outros para fazer selfies. Ele registrou as interações em suas redes sociais, em transmissão ao vivo.

Bolsonaro está sendo monitorado por ter tido exposição ao novo tipo de coronavírus. Na sexta-feira (13), ele afirmou que seu primeiro teste para a covid-19, doença causada pelo vírus, deu negativo. Ele fez o teste depois que veio a público que o chefe da Secretaria de Comunicação da Presidência, Fabio Wajngarten, tinha sido contaminado.

Bolsonaro e Wajngarten foram juntos aos Estados Unidos, onde se encontraram com o presidente Donald Trump no dia 7 de fevereiro. Pelo menos onze pessoas da comitiva brasileira que participou de um jantar com o mandatário americano contraíram o coronavírus. Wajngarten está em quarentena domiciliar enquanto houver risco de transmissão da doença.

Apesar do primeiro teste ter sido negativo, Bolsonaro ainda precisa passar por novos exames para assegurar não ter sido infectado. A medida faz parte de protocolos do Ministério da Saúde estabelecidos na Operação Regresso, que em fevereiro repatriou 34 brasileiros da cidade de Wuhan, na China, epicentro da pandemia.

De acordo com o protocolo, Bolsonaro deveria ficar sob monitoramento durante 14 dias a partir do resultado do primeiro teste, na sexta-feira (13). Bolsonaro, no entanto, despachou do Palácio do Planalto naquele mesmo dia, onde estavam outros servidores.

Em contato físico com apoiadores neste domingo (15), Bolsonaro não utilizou máscara em nenhum momento. Essa é uma recomendação médica para pessoas que estiveram expostas ao coronavírus e podem transmiti-lo.

O estado da pandemia no Brasil

Pouco menos de três meses após o registro do novo coronavírus na China, mais de 160 mil pessoas foram infectadas em todo o mundo pelo agente causador da covid-19. Até domingo (15), o saldo era de mais de 6.000 mortes em decorrência das complicações trazidas pela doença, que incluem pneumonia severa e obstrução das vias respiratórias.

Declarado pandemia pela OMS na quarta (11), o coronavírus derrubou bolsas de valores ao redor do mundo. Os Estados Unidos decidiram suspender viagens da Europa, com exceção do Reino Unido. Na sexta-feira (13), o presidente americano, Donald Trump, declarou estado de emergência no país e afirmou que US$ 50 bilhões seriam destinados ao combate da doença.

No Brasil, o balanço publicado pelo Ministério da Saúde neste domingo (15) mostrou que os casos no país chegaram a 200. É provável, no entanto, que a soma seja maior, já que o número é atualizado uma vez por dia e há descoordenação entre os casos registrados nos estados e aqueles divulgados pelo Ministério da Saúde.

Na quarta-feira-feira (11), o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, disse que o Brasil passaria por “20 semanas duras”. Ele se referia à transmissão comunitária do vírus, quando a sua origem torna-se irrastreável.

“Quando isso começa, o número de casos começa a aumentar como se está vendo na Itália. São 500, 1.500, 3.000, 5.000. O Brasil é um país continental, com 210 milhões de pessoas, 85% da população em cidades densamente povoadas, periferias inchadas. Por isso que o ministro falou dessa forma”, disse ao Nexo José David Urbáez, diretor científico da Sociedade de Infectologia do Distrito Federal.

Nesse sentido, a maior preocupação do Ministério da Saúde é não sobrecarregar o sistema de saúde, evitando um pico de casos nos primeiros dias de transmissão comunitária. Apesar da taxa de letalidade do vírus girar em torno de 4% e o número de casos ainda não ser elevado no Brasil, a demanda por leitos de UTI gerada pelas situações mais graves, que podem levar à morte, superaria a estrutura disponível nos sistemas privado e público do país.

É por isso que especialistas têm falado em “achatar a curva”, isto é, antecipar medidas de controle com o objetivo de reduzir o impacto da doença no sistema de saúde. Em vez de correr o risco de o vírus causar um colapso no sistema de saúde, tumultuar a rotina e se acabar mais rapidamente à medida em que a população ganha imunidade a ele, a ideia é espalhar essas infecções em um período maior, dando tempo às autoridades para responder à crise em termos de infraestrutura e campanhas de informação.

gráfico mostra curvas de números de infecções pelo coronavírus com e sem medidas de proteção

Essa tem sido a tônica seguida pelo Ministério da Saúde, que tem incentivado restrições a aglomerações e do trânsito de pessoas. Foi a diretriz seguida pelo presidente Jair Bolsonaro ao desestimular as manifestações contra o Congresso em seu pronunciamento em rede nacional na quinta-feira (12), posteriormente desrespeitada neste domingo (15) após seguidas mensagens de exaltação aos protestos em suas redes sociais e da sua participação pessoal em um deles em Brasília, mesmo monitorado por exposição ao coronavírus.

2,74

pessoas podem pegar o vírus a partir de um único infectado, segundo a Sociedade Brasileira de Infectologia

80%

dos casos de covid-19 são leves e não necessitam hospitalização

5%

dos infectados vão precisar de suporte intensivo, com internação em UTIs

Como Bolsonaro trata a pandemia

Antes de contradizer seu discurso em rede nacional e as orientações do Ministério da Saúde com relação a medidas de controle contra a pandemia, o presidente já demonstrava que o coronavírus não estava no topo das suas preocupações.

Durante viagem aos Estados Unidos, em discurso para apoiadores de seu governo, na segunda-feira (9), em Miami, Bolsonaro disse que o temor com relação ao coronavírus é exagerado. “Tem a questão do coronavírus também que, no meu entender, está superdimensionado o poder destruidor desse vírus, então talvez esteja sendo potencializado até por questão econômica”, disse.

Ainda nos Estados Unidos, na terça-feira (10), o presidente novamente minimizou os impactos da epidemia. No discurso, feito para algumas dezenas de empresários, ele também criticou a cobertura que a mídia tradicional tem feito da crise.

“Obviamente temos no momento uma crise, uma pequena crise. No meu entender, é muito mais fantasia a questão do coronavírus, que não é isso tudo que a grande mídia propala ou propaga pelo mundo todo”

Jair Bolsonaro

Presidente da República, sobre a crise do coronavírus, em 10 de março de 2020

À medida que se aproximava 15 de março, data de uma manifestação em todo o país contra o Congresso e associada à figura do presidente, aumentava o temor de que os protestos fossem cancelados em razão da pandemia de coronavírus.

“Se estiver gripado, não vá”, disse o ministro Luiz Henrique Mandetta, da Saúde, quando questionado na quinta-feira (12) sobre as manifestações pró-governo.

No mesmo dia, movimentos envolvidos nos atos, como o Nas Ruas e o Avança, anunciaram o adiamento do ato e se abstiveram publicamente de organizar os protestos.

Insuflada por bolsonaristas nas redes sociais, as manifestações acabaram ocorrendo neste domingo (15), com apoio e participação do presidente da República.

O motivo das manifestações

Bolsonaro está diretamente engajado nas manifestações, que são pautadas pelo apoio ao presidente e ataques ao Congresso e ao Supremo Tribunal Federal.

Até a tarde de domingo (15), os atos ocorriam em 17 estados, com pequenas aglomerações de pessoas. Ao viés anti-institucional, somaram-se declarações de despreocupação com relação à pandemia de coronavírus. Grande parte dos manifestantes era de idosos, pessoas que compõem o grupo de risco para o coronavírus – o Ministério da Saúde fala que a doença é mais perigosa para aqueles que tiverem mais de 60 anos ou padeçam de condições respiratórias ou imunológicas.

Abaixo, o Nexo explica a disputa de Bolsonaro com o Congresso e lista quatro momentos que marcaram a organização dos atos e o envolvimento do Palácio do Planalto no tema.

O ‘foda-se’ do chefe do GSI

Governo e Congresso vinham travando uma batalha sobre o controle de R$ 30 bilhões do Orçamento público de 2020. Os parlamentares haviam aprovado uma lei no ano anterior que deixava essa quantia nas mãos do Legislativo. Bolsonaro vetou, mas deputados e senadores ameaçavam derrubar o veto presidencial.

No dia 19 de fevereiro, durante um evento público em Brasília, o general da reserva Augusto Heleno, ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional, conversava com outros ministros sobre o tema. “Nós não podemos aceitar esses caras [parlamentares] chantagearem a gente o tempo todo. Foda-se”, disse o ministro.

O áudio foi captado por uma transmissão ao vivo da equipe da Presidência da República e insuflou movimentos de extrema direita que preparavam um ato para o dia 15 de março. A partir dali, o Congresso virou alvo direto dos bolsonaristas.

O vídeo do presidente via WhatsApp

No dia 25 de fevereiro, a jornalista Vera Magalhães, do jornal Estado de S. Paulo, revelou que Bolsonaro compartilhou, usando o WhatsApp, um vídeo em que convoca seus apoiadores para um ato de extrema direita contra o Congresso em 15 de março.

“Ele [Bolsonaro] comprou a briga por nós. Ele desafiou os poderosos por nós. Ele quase morreu por nós. Ele está enfrentando a esquerda corrupta e sanguinária por nós. Ele sofre calúnias e mentiras por fazer o melhor para nós. Ele é a nossa única esperança de dias cada vez melhores. Ele precisa de nosso apoio nas ruas”, dizia o vídeo.

A mensagem do presidente trazia ainda um breve texto que afirmava: “15 de março. Gen Heleno/Cap Bolsonaro. O Brasil é nosso, não dos políticos de sempre”.

No Twitter, Bolsonaro afirmou que a revelação da existência do vídeo era uma tentativa de tumultuar a República. “Tenho 35 milhões de seguidores em minhas mídias sociais, com notícias não divulgadas por parte da imprensa tradicional. No Whatsapp, algumas dezenas de amigos onde trocamos mensagens de cunho pessoal. Qualquer ilação fora desse contexto são tentativas rasteiras de tumultuar a República”, disse.

Os presidentes da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), e do Supremo Tribunal Federal, Dias Toffoli, divulgaram notas protocolares em reação ao vídeo, defendendo as instituições democráticas e o respeito entre os poderes. Davi Alcolumbre (DEM-AP), que como presidente do Senado é também presidente do Congresso, decidiu ficar em silêncio.

O discurso com a convocação pública

No dia 7 de março, a caminho dos EUA, Bolsonaro fez um pronunciamento em Roraima. O presidente tratou abertamente dos protestos de 15 de março. Afirmou que eles não seriam contra o Legislativo ou o Judiciário, mas “a favor do Brasil”.

“O político que tem medo de movimento de rua não serve para ser político. Participem. Não é um movimento contra o Congresso (...) contra o Judiciário (...). [O movimento] quer mostrar para todos nós, presidente, Poder Executivo, Poder Legislativo, Poder Judiciário, que quem dá um norte para o Brasil é a população (...) esse movimento de rua é muito bem-vindo”, disse Bolsonaro.

Nas redes sociais, porém, grupos bolsonaristas não recuavam no ataque aos outros dois Poderes da República. Ainda eram numerosas as postagens que defendiam o fechamento do Congresso e o fim do Supremo. Maia, Alcolumbre e Toffoli não reagiram, preferindo ignorar o presidente.

No dia 10 de março, as contas oficiais nas redes sociais da Secretaria de Comunicação Social da Presidência reforçaram a convocação, ao reproduzirem o discurso de Bolsonaro em Roraima. No dia seguinte, ao ser questionado por jornalistas sobre seu apoio direto às manifestações, o presidente respondeu: “Eu não convoquei ninguém, pergunta para quem convocou”.

O recuo (cancelado) em rede nacional de rádio e TV

Um dia depois de a OMS (Organização Mundial da Saúde) decretar estado de pandemia do coronavírus, um dos principais movimentos de organização dos atos de 15 de março, o Nas Ruas, anunciou o adiamento das manifestações. "O momento agora é de união e responsabilidade", disse em nota Marcos Bellizia, um dos coordenadores do grupo, sem dar uma nova data para os atos.

Em sua live noturna nas redes sociais, Bolsonaro apareceu de máscara ao lado do ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta. O presidente afirmou que aguardava o resultado do seu teste para o novo coronavírus. Em meio à transmissão, desestimulou as manifestações.

“Daqui a um mês, dois meses, se faz. Foi dado um tremendo recado ao Parlamento”, disse Bolsonaro. “Tem um aspecto que precisa ser levado em conta. Existe [o protesto], é mais um agrupamento de pessoas. Então a população está um tanto quanto dividida”

O apelo do presidente foi repetido em cadeia nacional de rádio e TV momentos depois. “Nossa saúde e de nossos familiares devem ser preservadas. O momento é de união, serenidade e bom senso”, disse Bolsonaro. Dois dias antes, ele havia dito “que a ameaça do coronavírus não era isso tudo que a grande mídia propaga”.

Em seu breve pronunciamento, Bolsonaro fez uma referência indireta à disputa por controle do Orçamento entre governo e Congresso. “Não podemos esquecer, no entanto, que o Brasil mudou. O povo está atento e exige de nós respeito à Constituição e zelo pelo dinheiro público. Por isso, as motivações da vontade popular continuam vivas e inabaláveis”, afirmou.

O recuo anunciado na quinta-feira (12) não foi mantido. Bolsonaro promoveu os protestos e recebeu apoiadores na porta do Palácio do Planalto. Quem também falou com manifestantes foi Ronaldo Caiado (DEM), governador de Goiás e aliado do presidente. Ele compareceu a um ato em Goiânia e criticou os presentes, por promoverem aglomerações em meio à pandemia. Foi vaiado.

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