A morte de Bebianno, o aliado que virou desafeto de Bolsonaro

Homem-forte da campanha de 2018 e ex-ministro da Secretaria-Geral da Presidência, advogado sofreu infarto em Teresópolis

    O ex-ministro Gustavo Bebianno morreu neste sábado (14), vítima de um infarto, aos 56 anos. Ele estava em seu sítio em Teresópolis (RJ).

    Bebianno foi o homem-forte da campanha de Jair Bolsonaro à Presidência da República em 2018 e chefe da Secretaria-Geral da Presidência por pouco mais de um mês e meio, sendo o primeiro de uma série de ministros demitidos do governo ao longo de 2019.

    Advogado, sem experiência política nem partidária, Bebianno engajou-se voluntariamente nos planos do então deputado federal Jair Bolsonaro de disputar a Presidência, ainda em 2017.

    Quando a campanha foi oficializada, em 2018, tornou-se seu coordenador-geral e, por meio de um acordo, presidente interino do PSL (Partido Social Liberal), sigla usada por Bolsonaro para se eleger.

    Com a vitória de Bolsonaro, Bebianno foi nomeado ministro da Secretaria-Geral da Presidência, cargo que compõe o núcleo político do Palácio do Planalto.

    Sua demissão foi ocasionada por desentendimentos com o presidente e seu filho Carlos Bolsonaro, vereador pelo Rio de Janeiro. Segundo a versão de Bolsonaro, Bebianno foi demitido em razão do escândalo das candidaturas laranja do PSL. Na versão do ex-ministro, ele foi tirado do cargo por duas razões: os ciúmes de Carlos por causa da relação próxima com Bolsonaro e disputas em torno da área de comunicação do governo.

    Após o rompimento, Bebiano se aproximou do grupo político do governador de São Paulo, João Doria (PSDB), aliado de Bolsonaro durante as eleições em 2018 e, depois, seu opositor.

    Em dezembro de 2019, Bebianno filiou-se ao PSDB, seguindo o caminho do empresário Paulo Marinho, seu amigo e outro bolsonarista defenestrado pelo presidente e sua família. Em março de 2020, foi lançado pré-candidato à prefeitura do Rio pelo partido.

    Desde a sua demissão, Bebianno deu diversas declarações públicas atacando Bolsonaro e seus filhos e dando a entender que guardava informações privilegiadas a respeito da família presidencial.

    Um dia antes de morrer, Bebianno falou à coluna Painel, do jornal Folha de S. Paulo, sobre o desgaste sofrido pelo ministro Luiz Eduardo Ramos, da Secretaria de Governo, em meio ao conflito entre o Executivo e Legislativo pelo controle de parte do Orçamento. A nota foi publicada neste sábado (14).

    “Todos que tentam trabalhar terminam alvejados pelas costas. O Brasil ainda vai enxergar quem são Bolsonaro e seus filhotes”

    Gustavo Bebianno

    Ex-ministro do governo Jair Bolsonaro, em declaração publicada pela Folha de S. Paulo em 14 de março de 2020

    Paulo Marinho, presidente do diretório do PSDB no Rio de Janeiro, relatou ao portal UOL que Bebianno passou mal por volta das 4h de sábado. Ele estava com seu filho em seu sítio em Teresópolis. Foi levado a um hospital da cidade, onde morreu às 5h30. Segundo a Polícia Civil do Rio, a causa da morte foi um infarto agudo do miocárdio.

    Ascensão e queda

    A aproximação de Gustavo Bebianno com Bolsonaro aconteceu em 2017. Admirador do então deputado, Bebianno se ofereceu para trabalhar de forma voluntária na campanha eleitoral, prestando auxílio jurídico, e aos poucos se tornou um dos principais articuladores na consolidação dos planos presidenciais de Bolsonaro. A filiação do político ao PSL, um partido pequeno que ganhou projeção graças a Bolsonaro, é atribuída ao advogado.

    Um dos requisitos para que o futuro presidente entrasse na sigla foi o controle da máquina partidária. A filiação de Bolsonaro acabou ocorrendo em março de 2018. Por meio de um acordo com Luciano Bivar, dono do partido, Bebianno assumiu interinamente a legenda durante o período eleitoral.

    O advogado passou então a desempenhar papel central na campanha de Bolsonaro. Foi responsável, também, por negociar candidaturas do PSL nos estados, tanto para a Câmara e Senado quanto para Assembleias Legislativas.

    Após a eleição, Bebianno assumiu a Secretaria-Geral da Presidência. O cargo tem por função ajudar o presidente no relacionamento com a sociedade civil, o que significa ouvir demandas de representantes de setores diversos. Também responde por assuntos de expediente e da agenda presidencial. É um dos ministérios em que, a rigor, o titular precisa de bastante proximidade com o chefe do Planalto

    No entanto, embates com Carlos Bolsonaro, filho do presidente e vereador do Rio de Janeiro, comprometeram o relacionamento com o presidente. Publicamente, Bebianno e Carlos começaram a se desentender ainda no fim de 2018, por questões relacionadas à estratégia de comunicação. A briga foi apontada como a razão para o filho de Bolsonaro deixar a equipe de transição do governo.

    Em fevereiro de 2019, uma série de reportagens publicada pelo jornal Folha de S.Paulo levantou a suspeita sobre o uso de candidaturas laranjas pelo PSL. As publicações mostraram que um grupo de candidatas mulheres do partido havia recebido uma quantia significativa do Fundo Eleitoral, incoerentes com seu desempenho irrisório nas urnas. Investigações apontam que o dinheiro, no fim, acabava devolvido aos dirigentes partidários. A revelação levantou suspeitas de fraude.

    Bebianno passou a ser cobrado por ter assinado os repasses dessas verbas, já que era o presidente do partido na ocasião. Para negar a crise, o ministro declarou ter resolvido a situação numa conversa com Bolsonaro, mas foi chamado de mentiroso por Carlos no Twitter. O presidente chancelou a versão do filho e Bebianno foi demitido cinco dias depois. Tornou-se a primeira baixa do governo. Um dia após a demissão, áudios entre Bebianno e Bolsonaro foram revelados pela revista Veja. Esses áudios reforçavam a versão de Bebianno para a briga.

    O advogado deixou o posto dizendo ter sido tratado injustamente. Ele comparou sua situação à reação diferente dispensada por Bolsonaro ao ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio, também citado no caso dos laranjas e denunciado formalmente pelo Ministério Público por fraude eleitoral. Álvaro Antonio, que era presidente do PSL de Minas na campanha, continua no cargo.

    Bolsonaro acabou se desfiliando do PSL em novembro de 2019, depois de uma guerra aberta com o grupo político do presidente do partido, o deputado federal Luciano Bivar (PE). No momento, o presidente se dedica à oficialização do Aliança pelo Brasil, partido de extrema direita criado para abrigar os fiéis ao bolsonarismo.

    Bebianno como adversário

    Depois de sair do governo, Bebianno passou a figurar frequentemente na mídia. Em sua primeira entrevista após sua demissão, à rádio Jovem Pan, no fim de fevereiro de 2019, afirmou que o presidente havia sido vítima de uma “macumba psicológica” feita por Carlos. Os ataques, num primeiro momento, eram centrados na prole de Bolsonaro.

    Com o tempo, o ex-ministro deixou de poupar o presidente. Em agosto de 2019, em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo, Bebianno chamou Bolsonaro de autoritário e afirmou que, mesmo com apenas sete meses de governo àquela altura, seu único interesse era a reeleição na campanha de 2022.

    Em outubro daquele ano, ao site Congresso em Foco, ele disse que Bolsonaro fazia uma gestão marcada pelo “desarranjo mental” e que tentaria aplicar um golpe de Estado. “Não acredito que ele conseguiria consolidar uma ruptura institucional, mas tudo indica que ele vai tentar. É muito preocupante. Uma simples tentativa pode gerar muito derramamento de sangue. O Brasil não precisa disso. É um risco real”, afirmou.

    Apesar de atacar frequentemente o presidente e seus filhos e insinuar que tinha informações confidenciais sobre o governo e a campanha de Bolsonaro, Bebianno nunca deu detalhes a respeito delas.

    Ele dizia se sentir ameaçado. Em fevereiro de 2019, a coluna Radar, da revista Veja, relatou que Bebianno escreveu cartas para duas pessoas próximas com os nomes de quem estaria interessado em lhe causar mal. “Se algo acontecer comigo, abram”.

    Em dezembro do mesmo ano, ele falou abertamente sobre sua sensação de insegurança à rádio Jovem Pan.

    “Me sinto, sim, ameaçado. O presidente Jair Bolsonaro é uma pessoa que tem muitos laços com policiais no Rio de Janeiro. Policiais bons e ruins. Me sinto, sim, vulnerável e sob risco constante. [...] Eu tenho material, sim, inclusive fora do Brasil. Porque eles podem achar que, fazendo alguma coisa comigo aqui no Brasil, uma coisa tão terrível que fosse capaz de assustar quem estivesse ao meu redor e, portanto, inibir a divulgação de algum material… Eu tenho muita coisa, sim, inclusive fora do Brasil. Então, não tenho medo”

    Gustavo Bebianno

    Ex-ministro do governo Jair Bolsonaro, em entrevista à Rádio Jovem Pan em dezembro de 2019

    Bebianno nunca esclareceu publicamente se de fato chegou a receber ameaças, nem forneceu qualquer detalhe a respeito delas. A família Bolsonaro, por sua vez, nunca se manifestou sobre a sensação de insegurança que o ex-ministro dizia sofrer.

    As situações e insinuações que envolvem Bebianno

    Abaixo, o Nexo lista algumas questões e insinuações levantadas por Bebianno ou episódios nos quais ele esteve envolvido desde a campanha até o momento de sua morte.

    Campanha

    Como presidente interino do PSL, Bebianno era responsável pela assinatura dos repasses do diretório nacional aos diretórios estaduais – entre os quais os de Pernambuco e de Minas Gerais, focos do esquema de caixa dois por meio de candidaturas laranja. Ele sempre se eximiu de culpa.

    Outra suspeita que paira sobre a campanha de Bolsonaro diz respeito ao uso de robôs para o disparo em massa de mensagens de WhatsApp e fake news em 2018. À Folha de S.Paulo, Bebianno disse não ter envolvimento no caso. “Toda a administração da campanha foi feita por mim. Foi uma campanha profissional. Desse trabalho, posso garantir que nunca houve disparo de fake news. Em paralelo, os filhos do presidente tinham sua vida”, afirmou, na entrevista de agosto.

    Facada

    Em entrevista à revista Veja em dezembro de 2019, Bolsonaro disse que um ex-assessor estaria envolvido no atentado a faca que ele sofreu em setembro de 2018 em Juiz de Fora (MG), em meio à campanha presidencial.

    “O meu sentimento é que esse atentado teve a mão de 70% da esquerda, 20% de quem estava do meu lado e 10% de outros interesses. Tinha uma pessoa do meu lado que queria ser vice”, disse o presidente.

    Apesar de não ter citado nomes, à época a insinuação foi interpretada como uma acusação ao ex-ministro. Em novembro, Eduardo Bolsonaro havia dito que a estratégia dele era “queimar a todos para que na última hora fosse Bebianno o escolhido”.

    Ao jornalista Chico Alves, do portal UOL, o ex-ministro disse que iria processar o presidente. “Conheço ele a fundo e sei que é um medroso quando confrontado em igualdade de condições. Se acha que tenho medo dele e da relação que tem com as milícias do Rio de Janeiro está muito enganado. Vou trabalhar incessantemente para que seja interditado. Acho que é um louco que coloca o Brasil em situação de extremo risco", disse.

    Numa entrevista para o programa Roda Viva, da TV Cultura, em 2 de março, Bebianno replicou algo que já havia sido relatado pela jornalista Thais Oyama em seu livro “Tormenta”, sobre os bastidores da campanha presidencial e do primeiro ano do atual Bolsonaro: que Carlos Bolsonaro atrapalhou o esquema de segurança no dia em que seu pai sofreu o atentado.

    “A única viagem que Carlos fez conosco foi essa de Juiz de Fora e ainda deu azar. Atrapalhou o esquema de segurança, o que resultou no não uso do colete [à prova de balas] e naquela tragédia da facada”, afirmou, acrescentando que, por causa do vereador, a equipe de segurança não pôde acompanhar o candidato no carro que o levou ao comício.

    “Ele foi dentro do carro com um drone. Parecia uma criança brincando com o drone […] Nem eu, nem o capitão Cordeiro e nem o Max, do Bope [equipe de segurança do presidente], pudemos ir no carro. O resultado? Ele [Jair Bolsonaro] desembarcou sem o colete. O colete não teria evitado 100% o ferimento, mas teria limitado a penetração da faca”, disse.

    O autor confesso do atentado, Adélio Bispo de Oliveira, foi considerado inimputável pela Justiça mineira em julho de 2019. Perícias médicas concluíram que ele sofre de doença mental e, por isso, não compreende que suas ações são ilegais. Não foram revelados indícios de que ele tenha agido a mando de alguém.

    Bolsonaro não recorreu, mas seguiu sugerindo que Adélio teria atuado sob ordens superiores. Ele capitaliza politicamente o fato de seu agressor ter sido filiado ao PSOL entre 2007 e 2014.

    Recolhido em presídio federal no Mato Grosso do Sul desde o atentado, Adélio teve transferência determinada em março para “espaço destinado ao tratamento adequado à patologia reconhecida em sua sentença”.

    ‘Abin paralela’

    Na sua participação no Roda Viva em 2 de março, Bebianno afirmou que Carlos Bolsonaro tentou implantar uma central de inteligência clandestina no governo, o que chamou de “Abin [Agência Brasileira de Inteligência] paralela”.

    Ele disse que um delegado da Polícia Federal, cujo nome não revelou por “questão institucional e pessoal”, estaria envolvido nos planos de Carlos de montar um sistema de vigilância e destruição de reputação de pessoas consideradas inimigas de Bolsonaro, dentro e fora do governo.

    Segundo ele, o presidente foi demovido da ideia por intervenção sua e do ex-Secretário de Governo Carlos Alberto Santos Cruz – que também deixou o governo após brigas com Carlos em torno da comunicação do Planalto.

    Augusto Heleno, ministro do Gabinete de Segurança Institucional, ao qual a Abin está subordinada, classificou a acusação de um órgão paralelo como um “devaneio”. Ele citou nominalmente o diretor da Abin, o delegado Alexandre Ramagem.

    “[Ramagem] Transmitiu a seus subordinados uma nova concepção de inteligência, ágil e focada na informação tática, capaz de competir com a rapidez da Internet, reduzindo o preciosismo em prol da velocidade. Abin paralela é devaneio de amadores”, postou no Twitter, em 6 de março.

    Como foram as reações oficiais

    Até a publicação deste texto, nem Bolsonaro nem seus filhos se manifestaram sobre a morte do antigo aliado.

    A maior autoridade do governo a ir a público neste sábado (14) foi o vice-presidente, Hamilton Mourão, no Twitter.

    “Transmito meus pêsames à família de Gustavo Bebianno, que esteve conosco desde os primeiros momentos da campanha vitoriosa de Jair Bolsonaro. Eventualmente, a política nos afasta, mas não apaga jamais o bom combate que travamos juntos”

    Hamilton Mourão

    Vice-presidente da República, em mensagem no Twitter em 14 de março de 2020

    O presidente da Câmara, Rodrigo Maia, também se manifestou, assim como o governador de São Paulo, João Doria.

    “Lamento muito a morte precoce do Gustavo Bebianno. Tivemos um relacionamento muito respeitoso e ele sempre se mostrou correto e equilibrado no trato dos assuntos. Seria mais um bom quadro para a disputa na nossa cidade do Rio. Meus sentimentos aos seus familiares”

    Rodrigo Maia

    Presidente da Câmara dos Deputados, em mensagem no Twitter em 14 de março de 2020

    “Com profundo pesar recebi a notícia da morte de Gustavo Bebianno. Seu falecimento surpreende a todos. O Rio perde, o Brasil perde. Bebianno tinha grande entusiasmo pela vida e em trabalhar por um país melhor. Meus sentimentos aos familiares e amigos nesse momento de dor”

    João Doria

    Governador de São Paulo, em mensagem no Twitter em 14 de março de 2020

    Ex-bolsonaristas, como os deputados federais Luciano Bivar (PSL-PE), Joice Hasselman (PSL-SP) e Alexandre Frota (PSDB-SP) também prestaram condolências. Paulo Marinho, aliado de Bebianno no PSDB fluminense, disse que o ex-ministro “morreu de tristeza”.

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