Coronavírus: as ações da Coreia do Sul e as lições para o Brasil

País asiático tem índice de mortalidade bem menor que a média global. Alto número de testes e tecnologia ajudaram a conter a propagação do vírus

    A Coreia do Sul é um dos países com o maior número de casos do novo coronavírus. Até a sexta-feira (13), contabilizava 7.979 casos confirmados e 66 mortes. É o quarto país do mundo em número de ocorrências de pessoas infectadas.

    Seu índice de mortalidade, porém, é de 0,7%, bem mais baixo que o índice global de 3,4%. O país asiático tem sido visto como exemplar em seus esforços de contenção do Sars-CoV-2019 em meio a uma população de pouco mais de 51 milhões, e apesar de ser vizinho da China, epicentro do surto da doença.

    O número de mortes na Coreia do Sul é muito inferior ao total da Espanha, quinto da lista em número de casos (4.334), com 122 óbitos. Já a Itália tem aproximadamente o dobro de casos em relação ao país asiático (15.113) e 15 vezes mais mortes (1.016). O Brasil tem 151 casos e nenhuma morte até 13 de março.

    A Coreia do Sul e a Itália registraram seus primeiros casos de coronavírus na mesma época, no fim de janeiro. Entretanto, lidaram com o problema de maneiras distintas. A experiência da Coreia do Sul mostra que a prática intensiva e continuada de testes é uma maneira eficiente de localizar e conter focos e indivíduos contaminados.

    O foco nos testes

    “É o país com a maior densidade de testes por milhão de habitantes. Proporcionalmente, testaram mais gente do que a China”, afirmou Átila Iamarino, biólogo e doutor em microbiologia pela USP (Universidade de São Paulo), ao Nexo. Entre 10 mil e 15 mil pessoas são testadas por dia na Coreia do Sul. Até dia 13 de março, o país havia testado cerca de 240 mil pessoas, de acordo com o Centro de Prevenção e Controle de Doenças (KCDC). Dá cerca de uma pessoa testada para cada 250 habitantes.

    Com isso, o país tem conseguido dar conta de manter o monitoramento de casos mesmo com o aumento da cadeia de transmissão. “É difícil fazer isso, pois chega um ponto em que uma pessoa teve contato com 15, 15 tiveram com 50 cada um e logo você tem 15, 20 mil pessoas para monitorar”, disse Iamarino.

    Há uma grande disponibilidade de kits de teste para dar conta do monitoramento extensivo. Eles podem ser feitos de maneira gratuita em centenas de locais espalhados pelo país. No caso de idosos ou pessoas muito doentes, os médicos visitam suas casas para realizar os testes.

    Em diversas localidades foram instaladas estruturas para testes “drive-thru”, inspirado em lanchonetes do McDonald’s. Motoristas nem precisam sair do carro para colher a amostra. No dia seguinte, a pessoa recebe uma mensagem por SMS com o resultado do teste. Os Estados Unidos pretendem replicar a ideia das unidades de teste móveis, conforme anunciado pelo presidente Donald Trump no discurso em que declarou emergência nacional, na sexta-feira (13).

    O volume de testes fornece um mapa bem mais preciso da localização da doença. Assim, locais públicos ou unidades residenciais específicas podem ser restritos, sem a necessidade de bloquear uma região inteira como a Itália vem fazendo.

    “Eles conseguiram mostrar que há um caminho para conter o vírus ou diminuir o espalhamento dele sem precisar restringir o movimento das pessoas, que é o caminho do monitoramento constante”, afirmou Iamarino.

    Aplicativo para comunicação

    De acordo com as diretrizes do KCDC, qualquer pessoa que tenha entrado em contato com um portador confirmado de coronavírus deve obrigatoriamente se submeter a uma auto-quarentena de duas semanas. “Contato” é definido como ter estado a menos de dois metros de um portador confirmado ou ter estado na mesma sala em que um paciente confirmado tossiu.

    No início de março, o governo do país lançou um aplicativo para smartphone feito para monitorar cidadãos que estejam em quarentena (há pelo menos 30 mil pessoas nessa condição, em 13 de março). Ele está disponível para celulares como sistema Android (como os das marcas sul-coreana Samsung e LG) e, em breve, sairá também para iPhone.

    Desenvolvido pelo Ministério do Interior e Segurança, o app permite a comunicação rápida com agentes de saúde e acompanhamento do quadro do quarentenado. Em caso de testar positivo para o vírus, a pessoa é deslocada para um hospital por meio de ambulância. A Coreia do Sul tem um serviço de saúde pública de alta qualidade e disponível a todos os cidadãos do país.

    Tecnologia de rastreamento

    Por meio do GPS, o app também assegura que monitorados respeitem a área de quarentena, que é geralmente a casa da pessoa. Caso ela saia do limite estabelecido, um aviso é enviado para a pessoa e para um agente de saúde. Segundo as autoridades sul-coreanas, um de seus principais objetivos é impedir o surgimento de “super espalhadores”, indivíduos que contagiam vários outros.

    Foi o caso de uma mulher de 61 anos, conhecida como “Paciente 31”, Apesar de apresentar sintomas do coronavírus, ela se recusou a fazer o teste. Seguiu sua rotina diária, o que incluía a presença regular em cultos na Igreja Shincheonji. A mulher acabou infectando diversas pessoas na cidade de Daegu. A maior parte dos casos do país está na província onde fica Daegu e quase 70% deles podem ser rastreados até a igreja da Paciente 31.

    O país também se vale de legislação que permite ao governo permissão para acessar dados pessoais de forma ampla, incluindo imagens de sistemas de vigilância por vídeo, dados de GPS de carros e celulares e transações de cartão de crédito de pessoas confirmadas com a covid-19. Parte dessas informações pode ser disponibilizada para que outros cidadãos chequem se tiveram contato com indivíduos infectados, a partir de informações sobre lugares ou horários onde estiveram.

    Esse compartilhamento de informações suscitou acusações de invasão de privacidade de cidadãos e entidades do país. Restaurantes que tem os nomes expostos estão perdendo a clientela, segundo reportagem do jornal The Guardian. Uma mulher disse que vem sofrendo ataques na internet depois de pessoas terem descoberto que seu namorado pertencia à igreja Shincheonji. Os dados publicados não contém nomes ou endereços, mas pessoas têm conseguido descobri-los em muitos casos. O país vem registrando diversos casos de assédio e agressões virtuais a pessoas doentes ou com suspeita de estarem infectados.

    O que o Brasil pode aprender

    Para o pesquisador da USP Átila Iamarino, a Itália seria o contra-exemplo em relação à Coreia do Sul ao se colocar numa situação em que não é mais possível acompanhar o número de pessoas infectadas. “Chega uma hora que o número de casos explode e ou você para o país ou o país te para”, declarou ao Nexo.

    Já o Brasil pode não ter capacidade de mapear a doença. De acordo com Iamarino, o país está bem atrás da Coreia do Sul no que se refere a equipamentos para testes. “A gente tem a Fiocruz produzindo testes, mas o volume de testes que está sendo produzido aqui não chega nem de longe ao que a Coreia do Sul está fazendo”, ressaltou. Para o cientista, o país arrisca seguir mais o caminho da Itália do que o do país asiático se continuar sem testar grandes quantidades de pessoas nos próximos dias.

    De acordo com Iamarino, há também os agravantes de que materiais e insumos têm de ser importados, e a pesquisa perdeu fôlego no país. “A gente têm de comprar reagentes em dólar, eles não são produzidos no Brasil. A gente vêm desequipando instituições acadêmicas que teriam condições de fazer esse tipo de acompanhamento já há alguns anos. São consequências de políticas de longa data”, concluiu.

    Em 12 de março, o Ministério da Saúde afirmou que mudará o protocolo da rede de saúde para o diagnóstico do novo coronavírus em algumas áreas do país. Hoje, qualquer pessoa que procure o sistema público com febre e sintomas respiratórios e que tenha viajado ao exterior deve realizar o teste. Com o aumento de casos no país, em locais com mais de 100 casos confirmados, o teste seria feito apenas para pacientes internados com problemas respiratórios graves. Os outros ficariam submetidos ao diagnóstico clínico do médico.

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