Como o novo coronavírus pressiona o sistema de saúde brasileiro 

Expectativas são de que número de infectados deve aumentar em progressão geométrica no Brasil, a exemplo de outros países. Especialistas questionam capacidade do SUS de dar conta do impacto

    O ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, afirmou que o novo coronavírus está chegando ao estágio da transmissão comunitária no país. Nessa condição, não é mais possível identificar quem transmitiu o vírus para quem. É um quadro em que o número de infectados pode aumentar em progressão geométrica, a exemplo de outros países.

    Na quinta-feira (12) à tarde, eram 73 casos confirmados no Brasil. Destes, 46 estavam no estado de São Paulo, sendo 44 na capital e 2 no interior. De acordo com o Ministério da Saúde, são mais de 900 suspeitas de casos em território nacional. Desde quarta-feira (11), a OMS (Organização Mundial de Saúde) trata o novo coronavírus como uma pandemia, por haver um grande número de epidemias em diversas regiões do planeta.

    Em 29 de fevereiro, a Itália registrava cerca de 1.000 casos confirmados de coronavírus e 29 mortes. Uma quinzena depois, eram mais de 15 mil casos e cerca de 1.000 mortes. Entre 9 e 10 de fevereiro, o país registrou 168 mortes, o total mais alto registrado por um país em 24 horas.

    Segundo a OMS, o novo coronavírus já afeta 114 países em todos os continentes. Mais de 127 mil pessoas estão infectadas e 4.700 morreram.

    Autoridades de saúde do estado de São Paulo preveem que 45 mil pessoas serão infectadas pelo vírus nos próximos quatro meses na Grande São Paulo. A expectativa foi confirmada à imprensa por David Uip, coordenador do Centro de Contingência para o Coronavírus do Estado de São Paulo.

    No Rio de Janeiro, a secretaria de saúde confirmou na quinta-feira (12) os primeiros casos de transmissão local no estado. Trata-se de um casal de idosos, que foi colocado em isolamento domiciliar. Eles não viajaram ao exterior.

    A chance de ter complicações maiores devido à covid-19, nome da doença causada pelo coronavírus, cresce em pessoas mais velhas. A letalidade é 6,4 vezes maior em quem tem mais de 80 anos do que no restante da população.

    Capacidade de atendimento e leitos hospitalares

    A escalada da doença levanta questões sobre a capacidade do sistema de saúde brasileiro, público e privado, de dar conta do atendimento a tantos infectados.

    O país tem atualmente 28 mil leitos de UTI habilitados para o SUS (Sistema Único de Saúde). Eles estão concentrados em uma parcela minoritária dos municípios do país. Segundo dados de 2017, cerca de 10% das cidades contavam com esse tipo de leito. Casos mais graves podem demandar uma internação de até três semanas.

    Um levantamento do site Núcleo Jornalismo, com base em dados do Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde, apontou que o SUS perdeu leitos de todo o tipo de 2007 até o fim de 2019. A queda foi de 14,3%, o equivalente a 49 mil unidades a menos. Enquanto isso, a rede privada registrou um aumento de 18,2%. Contados os dois sistemas, a redução foi de 28.300 unidades, uma diminuição de 6,2%.

    “Não temos fôlego extra. Qualquer situação de emergência, o sistema arrebenta”, disse Ederlon Rezende, membro do conselho consultivo da Associação de Medicina Intensiva Brasileira, em entrevista ao jornal Estado de S. Paulo. O especialista afirmou que leitos da rede pública têm 95% de taxa de ocupação.

    Para o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, não há como prever em qual momento a capacidade do SUS se esgotará, pois o país é assimétrico. O Rio de Janeiro aguenta muito pouco. São Paulo aguenta um pouco mais. O Paraná é nosso melhor sistema, a melhor rede de distribuição. O Acre não tem nenhum caso. O Brasil é um continente, concluiu.

    A duração da epidemia. E a curva de crescimento

    De acordo com Mandetta, o período da transmissão comunitária “vai ser duro. Vão ser mais ou menos umas 20 semanas duras”.

    Especialistas têm defendido a importância de “achatar a curva” de crescimento de casos com medidas de controle com o objetivo de reduzir o impacto no sistema de saúde. Trata-se de tentar espraiar o número de casos ao longo do tempo por meio de campanhas de informação, restrições a aglomerações, redução do trânsito de pessoas.

    Caso isso não seja bem-sucedido, uma quantidade muito grande de pessoas pode contrair o vírus e apresentar sintomas, levando ao colapso do sistema de saúde. Foi o que aconteceu na Itália e no Irã.

    O Brasil está perdendo tempo nesse sentido, disse à BBC Brasil o virologista e professor da USP (Universidade de São Paulo) Paolo Zanotto. “O Brasil deveria ter instituído sistemas de testagens extremamente agressivos e acompanhamento de todos os clusters (focos). Porque, quando há um caso positivo, é preciso correr e testar todo mundo.”

    O que o governo está fazendo

    O Ministério da Saúde anunciou na quinta-feira (12) um edital para a criação de 2.000 leitos da UTI disponíveis para o SUS. Inicialmente, seriam apenas 1.000 novos leitos. “Hoje, depois da Itália, nosso nível de preocupação aumentou. Por isso estamos colocando 2.000 leitos”, afirmou o secretário-executivo do Ministério da Saúde, João Gabbardo. No entanto, desde janeiro, quando o ministério anunciou os primeiros 1.000 leitos, apenas 100 foram entregues, 10% do prometido, de acordo com o jornal O Estado de S. Paulo.

    O ministério também pretende contratar 5.811 médicos pelo programa Mais Médicos para ajudar no combate à covid-19. O edital foi ao ar na quarta-feira (11). A meta é ter os profissionais atuando nas cidades até 7 de abril. As contratações devem custar cerca de R$ 1,2 bilhão. Esses médicos atuarão no âmbito da atenção primária, o estágio de assistência que o ministério tem como foco principal dentro do combate ao novo coronav��rus.

    Mandetta afirmou que também serão necessárias compras de mais equipamentos como álcool em gel, soros, luvas e cerca de 20 milhões de máscaras. Com a demanda global, o preço da máscara importada subiu de R$ 0,11 para R$ 2, de acordo com o ministro.

    Conforme anunciado na quarta-feira (11), o governo federal deve editar uma medida provisória que destina cerca de R$ 5 bilhões para o combate à covid-19. A despesa estará desvinculada do Orçamento e não precisa respeitar o teto do gasto do Executivo.

    Os parâmetros para quarentena

    No dia 11 de março, o Ministério da Saúde publicou a portaria 356, que regulamenta a quarentena e o isolamento no contexto do coronavírus dispostos na lei nº 13.979, de 6 de fevereiro de 2020.

    • A quarentena poderá ter duração de até 40 dias. Ela se refere à restrição de atividades ou separação de pessoas suspeitas de infecção das pessoas saudáveis e deve ser determinada por profissionais da saúde. Ela também pode ser aplicada a bagagens, contêineres, animais, meios de transporte ou mercadorias suspeitos de contaminação. A quarentena será adotada “pelo tempo necessário para reduzir a transmissão comunitária e garantir a manutenção dos serviços de saúde no território”.
    • O isolamento poderá ser indicado por agentes de vigilância epidemiológica para pessoas que tiveram contato próximo com alguém infectado enquanto se apura se o vírus foi transmitido. Esse isolamento deve ser feito, de preferência, em casa. Dependendo do estado do infectado, ele poderá ser realizado em um hospital. O texto da portaria afirma que a medida “deverá ser acompanhada do termo de consentimento livre e esclarecido do paciente”. Seu prazo máximo é de 14 dias.

    O ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro, ressaltou em seu Twitter que isolamento e quarentena podem ser “impostos compulsoriamente”, conforme descrito na nova legislação. De acordo com a portaria 356, “caberá [ao] médico ou agente de vigilância epidemiológica informar à autoridade policial e ao Ministério Público” sobre o descumprimento de recomendações.

    A questão de eventos e aglomerações

    O Ministério da Saúde ainda não recomenda o cancelamento de eventos, manifestações ou restrições ao uso do transporte público, cinemas, shoppings e outros locais de aglomerações. Mandetta criticou a decisão do governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB), de suspender as aulas das redes pública e privada.

    Mas o ministro admitiu que é uma questão de tempo até que isso seja necessário. “Mais cedo ou mais tarde teremos a entrada do vírus e a sustentação [da epidemia]. Pode chegar uma hora, na semana que vem, em 15 dias, em quatro semanas, em que será recomendável parar [atividades]. Para conter a espiral de casos pode chegar uma hora em que teremos que segurar [transporte, fábricas, escolas]”, afirmou na quinta (12).

    O que São Paulo vai fazer

    No estado com o maior número de casos da covid-19, a expectativa da secretaria da saúde é que serão necessários 10 mil leitos de UTI. O órgão afirma que o estado alcançou a capacidade de 7.200 leitos, sendo que 1.000 destes são novos acréscimos, anunciados na quinta-feira (12) pelo governo do estado.

    David Uip, coordenador do Centro de Contingência para o Coronavírus do Estado de São Paulo, afirmou que 80% dos infectados provavelmente não manifestarão a doença, ou seja, não precisarão utilizar o sistema de saúde. Dos 20% que precisarão usá-lo, o especialista calcula que é uma porcentagem menor que precisará de internação “e uma menor ainda de UTI”.

    O governador João Doria (PSDB) anunciou também a compra de insumos e equipamentos, incluindo 20 mil kits e 200 novos aparelhos respiratórios.

    As autoridades do estado, no entanto, enfatizaram que ainda não é necessário que as pessoas parem de circular. Doria aconselhou às pessoas com mais de 55 anos que evitem aglomerações. Ele ressaltou, no entanto, que a situação pode ser diferente “amanhã, depois ou na semana que vem”.

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