Como a pandemia de coronavírus derruba a economia global

Aumento de contaminações leva economistas a temer uma recessão mundial. O ‘Nexo’ explica os passos envolvidos num eventual agravamento da crise e o que os governos podem fazer para tentar evitar o pior cenário

Na quarta-feira (12), a Organização Mundial da Saúde decretou estado de pandemia do novo coronavírus. A rápida disseminação da doença, batizada de covid-19, tem levado pânico aos mercados financeiros, refletido em quedas consideráveis consecutivas nas bolsas de valores. No Brasil, apenas na semana útil de 9 a 13 de março, o mecanismo de paralisação do pregão – o chamado circuit breaker – foi acionado múltiplas vezes, após passar quase três anos sem ativação.

Ao redor do globo, economistas e organizações internacionais alertam para riscos de forte desaceleração da economia – ou até de recessão global. Abaixo, o Nexo explica os mecanismos que podem derrubar a atividade econômica mundial e o que os governos podem fazer para evitar isso.

Os primeiros efeitos sentidos

A bolsa de valores é um mercado onde se negociam ativos financeiros. Os investimentos feitos na bolsa, portanto, não têm como objetivo produzir bens ou prestar serviços para a população ou determinado nicho. Os rendimentos dos agentes da bolsa vêm geralmente da própria negociação de papéis, explorando as variações dos preços. A precificação das ações, por sua vez, depende da expectativa que existe sobre uma empresa e seu desempenho no futuro. Como as percepções podem mudar muito rápido, isso abre espaço para uma grande volatilidade.

Mas, além da bolsa de valores, há outros setores da economia que sentem os primeiros impactos do surto da doença. E isso vale para atividades produtivas.

As primeiras áreas que sentem o impacto da disseminação do coronavírus são as que envolvem diretamente viagens. Companhias aéreas têm reduzido o número de voos e registrado quedas nas receitas. O turismo e a hotelaria também têm sofrido com a queda no movimento.

Ao mesmo tempo, setores que dependem de exportação e importação de produtos podem ter suas atividades limitadas em decorrência das orientações de viagens e quarentenas de cidades e países. Assim, pode haver dificuldade de obter materiais que alimentam cadeias produtivas inteiras, travando determinados setores.

O que acontece com o consumo

Boa parte dos países onde a covid-19 se disseminou com mais força optaram por ações de isolamento, e até quarentena. As pessoas têm sido orientadas a ficar em casa e evitar aglomerações.

Economistas ouvidos pelo jornal The New York Times apontam que uma forma de detectar a gravidade da crise é ver como a doença ecoa sobre setores que não estão diretamente ligados à propagação do vírus. O exemplo usado é o da barbearia: quando as pessoas deixam de cortar o cabelo, é um sinal de que os impactos são profundos.

As atividades que envolvem juntar muitas pessoas estão sendo suspensas. Pela Europa, jogos de futebol são jogados com arquibancadas vazias e campeonatos inteiros foram suspensos. A mesma coisa aconteceu nos EUA, onde a NBA – liga americana de basquete – decidiu paralisar a temporada indefinidamente. Da mesma forma, cinemas e teatros têm cancelado sessões. O tradicional carnaval de Veneza também deixou de acontecer.

Mas, além das atividades que envolvem aglomerações, a orientação para ficar em casa e o isolamento dos infectados faz com que as pessoas não saiam de seus lares para consumir. Atividades de lazer são limitadas e compras são reduzidas ou adiadas.

Já quem fica doente fica impossibilitado de trabalhar. Mesmo quando não há casos confirmados, há empresas que incentivam o trabalho remoto. Quando a pessoa fica em casa, isso pode reduzir a produção e as compras que ela faz. Os comércios, portanto, são afetados negativamente em função dos problemas de saúde pública. A economia fica desaquecida e menos dinheiro circula.

O efeito para as empresas

Se diversas firmas têm optado pelo trabalho de casa – o home office –, há empresas que não têm como operar sem funcionários presenciais. Então, quando a doença obriga pessoas a ficar em casa, não é possível manter o nível de produção. É o que aconteceu com boa parte das fábricas chinesas, que ficaram praticamente paralisadas no primeiro momento do surto de coronavírus.

Ao mesmo tempo em que aponta para dificuldades produtivas e uma redução da demanda, o momento não inspira confiança para os investidores arriscarem seu dinheiro. A queda do consumo também leva a uma diminuição das receitas, e muitas empresas podem optar por reduzir atividades, ou até fechar as portas.

A falta de dinheiro entrando pode levar a cortes de funcionários para conseguir manter o negócio aberto. Com a crise instalada e visível, as pessoas podem se resguardar na hora de gastar dinheiro, optando por poupar em vez de comprar, se preparando para cenários pessimistas em que também perdem seus empregos. O efeito negativo pode ser amplificado conforme o consumo cai e as empresas reduzem suas atividades.

Outra preocupação com relação às empresas no cenário pandêmico é o nível de endividamento. A queda das receitas coloca em xeque a capacidade das firmas de pagar e contrair novas dívidas – mesmo em um cenário de juros baixos. Isso significa que as empresas têm um risco maior de quebrar ou ter sua saúde financeira seriamente afetada. Se elas não pagarem suas dívidas, o impacto pode chegar até os bancos, desencadeando efeitos negativos sobre o sistema financeiro.

O que os governos podem fazer

Não há certeza sobre o que irá acontecer na economia com a pandemia de coronavírus. Não há garantias de que haverá uma recessão, e muito menos de que o cenário desenhado acima irá se cumprir. Primeiro, porque as ações de saúde pública podem controlar o vírus com rapidez e limitar medidas como quarentenas e isolamentos a um período curto de tempo.

Segundo, porque os governos podem interferir na economia e promover estímulos que ajudem os setores mais afetados a se recuperar. Para isso, eles podem optar por usar diferentes instrumentos que têm à disposição.

A política monetária

A política monetária – que tem como protagonistas os Bancos Centrais pelo mundo – conta com dois principais instrumentos. De forma diferente, as duas ações se baseiam no aumento da quantidade de dinheiro que circula na economia.

A primeira opção de política monetária é a emissão de dinheiro, que é uma prática amplamente rejeitada entre economistas. Ela costuma ter pouca efetividade no longo prazo e levar ao aumento geral nos preços – causando, portanto, inflação.

A segunda opção é reduzir a taxa de juros, buscando estimular o crédito e, consequentemente, os investimentos e o consumo. Basicamente, a ideia é que, com o custo menor dos empréstimos, as pessoas vão tomar mais dinheiro nos bancos e usá-lo para compras e negócios.

Em 2020, porém, a opção por reduzir taxas de juros está limitada em muitos lugares. Isso porque há países onde os juros estão baixos, ou até zerados e negativos. Assim, há pouco ou nenhum espaço para cortes substantivos nos juros. É o que economistas chamam de “armadilha da liquidez”.

A política fiscal

Na segunda-feira (9), o FMI (Fundo Monetário Internacional) emitiu uma nota recomendando ações de estímulo para ajudar diferentes agentes da economia. As ações incluem aumento de gastos no setor de saúde para aumentar a capacidade de atendimento.

A nota também fala em aumento de empréstimos públicos aos bancos, para amortecer eventuais impactos sobre o sistema financeiro. Além disso, são mencionados subsídios e transferências para empresas com quedas nas receitas, cortes e suspensões no recolhimento de impostos e aumentos temporários no seguro-desemprego.

Ações de aumento de gastos do governo compõem opções fiscais que já têm sido colocadas em prática em diversos países afetados pelo coronavírus. Entre os países que optaram por estímulos fiscais estão Itália, Reino Unido e Austrália.

O caso brasileiro

Enquanto no mundo há países que cortam juros e aumentam gastos públicos, no Brasil o governo tem reforçado sua priorização de reformas que aliviem os gastos do governo. A aposta da equipe do ministro da Economia, Paulo Guedes, é que, equilibrando as contas públicas, o governo irá sinalizar um esforço de melhorar o ambiente de negócios no Brasil.

Por essa lógica, isso aumentaria a confiança dos investidores, que se sentiriam mais dispostos a colocar dinheiro no país, apostar em negócios de longo prazo e manter os recursos em solo brasileiro. Alguns economistas também apontam que a eventual aprovação das reformas poderia aliviar as contas do governo e abrir espaço para o aumento do investimento público.

A ação fiscal no Brasil é também limitada pela regra do teto de gastos. Resumidamente, o teto limita os gastos reais (ajustados pela inflação) do governo a um nível pré-determinado. Isso significa que, em um ano, os gastos do governo não podem ser maiores que no ano anterior. A regra entrou em vigor em 2017 e tem validade de 20 anos.

O teto limita o total dos gastos do governo, sem distinguir as despesas obrigatórias – que incluem salários e a Previdência – e discricionárias, que incluem investimentos. A margem de manobra do governo para pagar contas e projetos, portanto, é pequena, e vem caindo a cada ano.

A atitude do governo de focar nas reformas e manter o teto de gastos vem sendo criticada por diversos economistas que defendem o aumento de gastos para gerar estímulos na economia no momento de crise. O argumento é que o teto deve ser revisto, flexibilizado ou suspenso, para que o governo consiga aumentar gastos e trazer um choque positivo à economia brasileira.

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