Como Trump responde ao ‘vírus estrangeiro’

Presidente americano anuncia medidas de contenção da pandemia e apela para união nacional

    O presidente americano, Donald Trump, anunciou na noite de quarta-feira (11) um pacote de medidas para conter a propagação do coronavírus nos EUA, país mais afetado das Américas, com mais de mil casos registrados, entre os quais 37 mortes, até a manhã de quinta-feira (12).

    O anúncio de Trump foi feito no mesmo dia em que a OMS (Organização Mundial da Saúde) passou a classificar o fenômeno como uma “pandemia”, o que se refere à escala global de propagação do vírus, que já atinge países em todos os continentes.

    125.518

    É o número de casos registrados em todo o mundo entre 31 de dezembro de 2019 e 12 de março de 2020

    4.617

    É o número de mortes registradas no mesmo período pelo Centro da União Europeia para Controle e Prevenção de Doenças

    Numa transmissão em cadeia que durou quase 10 minutos, feita a partir do Salão Oval da Casa Branca, Trump referiu-se à epidemia como uma “infecção horrível”, mas cujo “risco é muito, muito baixo”, sobretudo para os jovens, e anunciou medidas “duras mas necessárias”.

    As medidas anunciadas pelo presidente americano podem ser divididas em dois blocos principais:

    Reação americana

    Viagens

    Estão proibidas as entradas de estrangeiros procedentes dos 27 países-membros da União Europeia nos EUA, além da China e da Coreia do Sul. A medida vigorará, em princípio, por 30 dias, a contar de sexta-feira (13). Ela não se aplica a britânicos – que não fazem mais parte da União Europeia – nem a americanos que estejam voltando para os EUA, vindos da Europa. Trump também recomendou que os cidadãos americanos evitem viagens ao máximo ao exterior.

    Dinheiro

    Trump disse que as seguradoras privadas aceitaram estender a cobertura de seus planos para coronavírus nos EUA, sem custos adicionais. Não existe um sistema de saúde pública abrangente no país. Além disso, o presidente prometeu ajuda financeira a trabalhadores afastados pela infecção, e anunciou que reduzirá impostos de pessoas e empresas impactadas pela pandemia, sem dar detalhes.

    US$ 8,3 bilhões

    É o valor que Trump disse ter liberado para pesquisas e outras áreas

    Nos jornais americanos, a cobertura do discurso de Trump disputou espaço com a notícia de que o ator Tom Hanks e a esposa dele, Rita Wilson, contraíram o coronavírus.

    A NBA, liga americana de basquete profissional, suspendeu todos os jogos da temporada, ecoando atitude semelhante tomada antes pela Itália em relação ao seu campeonato nacional de futebol.

    Foto: Eduardo Munoz/Reuters - 09.03.2020
    Aeroporto vazio nos EUA
    Aeroporto JFK, em Nova York

    Depois de ter decretado quarentena nacional da segunda-feira (9) até o dia 3 de abril, o premiê da Itália, Giuseppe Conte, anunciou na quarta-feira (11) regras ainda mais estritas para o funcionamento do comércio. Apenas o comércio de alimento e os bancos poderão permanecer abertos.

    A Itália é o país mais afetados da Europa, com 827 mortos entre mais de 12 mil contaminados. A França vem em segundo lugar, com 48 mortos entre mais de 2 mil contaminados. Os dados, do Centro da União Europeia para Controle e Prevenção de Doenças, referem-se ao período que vai de 12 de dezembro de 2019 a 12 de março de 2020.

    O presidente francês, Emmanuel Macron, reuniu-se com seus ministros e com especialistas sanitários na quinta-feira (12), e anunciou que faria um pronunciamento à nação às 20h no mesmo dia (16h em Brasília).

    A República da Irlanda e a Dinamarca estão entre os países europeus que anunciaram o fechamento de todas suas escolas, creches e faculdades. Diversos outros países do mundo adotaram medidas restritivas, impedindo a entrada de cidadãos provindos de locais com altas taxas de incidência da doença ou pedindo certificados médicos recentes.

    Enquanto os casos crescem na maior parte do mundo, a China passa por um momento inverso. O país, que foi o epicentro da pandemia, onde morreram mais de 3.100 pessoas, vê agora o número de pessoas infectadas cair. Na quinta-feira (12), apenas 15 novos casos foram registrados no país asiático.

    Nacionalismo trumpista

    No discurso em que anunciou as medidas para lidar com o coronavírus, Donald Trump fez questão de enaltecer a capacidade americana de lidar com um problema que ele identifica como essencialmente ligado aos estrangeiros.

    “Esse é o mais agressivo e abrangente esforço para confrontar um vírus estrangeiro na história moderna”, disse o presidente americano, afirmando em seguida que os EUA “têm as melhores equipes do mundo” para lidar com a situação.

    Presidente americano culpou chineses e europeus por pandemia

    De acordo com ele, “a União Europeia falhou em tomar as precauções em restringir viagens da China e outros focos, e, como resultado, um grande número de casos incubados foram trazidos para os EUA”.

    O jornal The New York Times diz que a linguagem do presidente americano “reflete a visão isolacionista” do autor de seus discursos, Stephen Miller, apoiado na função pelo genro de Trump, Jared Kushner.

    Chris Cillizza, comentarista político da rede de televisão americana CNN, disse que o discurso do presidente foi marcado pela “xenofobia”.

    “Um muro não parará o vírus. Racismo não parará o vírus. Faça seu trabalho”, disse o pré-candidato democrata Joe Biden ao presidente Trump, pelo Twitter.

    Num curtíssimo comunicado, de apenas três frases, a União Europeia disse que “desaprova a decisão dos EUA de impor restrições [aos cidadãos dos 27 países do bloco] de maneira unilateral e sem consulta”.

    João Paulo Charleaux é repórter especial do Nexo e escreve de Paris

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